Trabalhadores reféns em obras bilionárias da Amazônia

Acusados de violar direitos trabalhistas, megaempreendimentos recebem financiamento do BNDES
08/11/2013
Por Bruno Fonseca e Jéssica Mota
“Nós
fomos se alojar no meio da Amazônia, sem parente, sem transporte. Sem
nada. O transporte que nós tínhamos era da empresa. Mas quando há uma
greve, eles fechavam logo o transporte. Ninguém entrava, ninguém saía na
portaria. Se saísse, era tomado o crachá, como aconteceu com a gente, e
era mandado embora”, diz Adailson Silva, ex-apontador na obra de Belo
Monte.
***
A hidrelétrica de
Belo Monte, em construção, fica a cerca de 70 km da cidade de Altamira,
no município Vitória do Xingu, no estado do Pará. O canteiro da obra
pública mais cara e controversa do Brasil é formado por quatro sítios,
Belo Monte, Canais e Diques, Pimental e Bela Vista. Ali, formam-se quase
cidades paralelas, com transporte e alimentação fornecidos pelo
Consórcio Construtor Belo Monte e comércio dentro dos canteiros.
São
20 mil trabalhadores (dados de setembro de 2013 do Consórcio Norte
Energia) na construção de Belo Monte oriundas de lugares mais próximos
como Belém, e de muito longe, do Rio de Janeiro, de
São Paulo, e até do
Haiti. Em turnos, as equipes trabalham 24 horas por dia, para acelerar a
conclusão da obra, com descanso apenas no domingo.
Pessoas que
vivem dentro da obra, nos alojamentos, e que passam meses longe de suas
famílias até que recebam a permissão de visitá-las (segundo Adailson
Silva, trabalhador entrevistado para esta reportagem, a empresa só
cumpre o acordo de três meses mínimos para a visita se os trabalhadores o
exigem com contratos em mãos).
Os frequentes protestos – de
ativistas, de comunidades indígenas, ribeirinhas e greves dos próprios
trabalhadores – criam uma rotina extenuante emocional e
psicologicamente, que se soma ao estresse físico do trabalho.
Foi por isso que no dia 6 de abril desse ano, depois de sucessivos conflitos,
quando mais uma manifestação eclodiu no sítio de Pimental, Adailson
Silva, de 32 anos, queria fugir. Ele havia deixado sua cidade, Belém, a
família e a ocupação de cabelereiro na promessa de um “trabalho bom e de
você ter direitos”. Nunca havia trabalhado em obras do porte de Belo
Monte. Cadastrou-se em Belém mesmo, onde a empresa fazia o recrutamento.
A
comunicação nessas situações de conflito, como relata Adailson, era
mais um agravante. “Quando tem alguma ação ali dentro, alguma coisa
assim complicada, como uma greve de índio, de funcionários, cortam o
sinal [ do celular ] de todo mundo”, denuncia. “Eles [ o consórcio ]
fazem isso pras pessoas não se manifestarem. Não tem explicação. Aí
veja: [ a empresa ] não se manifesta pra dar um refúgio, pra defender
alguém, dar uma sugestão, uma opinião, nada. Não aparece pra nada. Você
fica por conta de manifestantes, por conta de índios, você fica à mercê.
Eles proíbem que as pessoas saiam dali porque o transporte de que nós
dependemos é da empresa”, denuncia.
De acordo com o Consórcio
Construtor Belo Monte (CCBM), a situação se dá pelo fato da obra estar
instalada em “área remota da Amazônia”. “Podemos assegurar que a
interrupção dos serviços, em 100% das ocorrências, é motivada única e
exclusivamente por aspectos técnicos”, pronuncia a empresa.
No
dia 6 de abril, à uma hora da manhã, prestes a completar seis meses de
trabalho em Belo Monte, Adailson foi coagido a fazer parte de uma
caminhada organizada por grevistas do sítio onde estavam, Pimental, até o
próximo, Canais e Diques. O objetivo era chamar os trabalhadores do
outro sítio a participarem da greve. “Eles [ grevistas ] chegaram lá
dizendo que quem não fosse, eles iam tocar fogo nos alojamentos. Que
quem não fosse, quando eles voltassem, eles falavam assim bem claro:
‘vocês vão entrar na porrada’. Como que não vai?”, conta com o jeito e o
sotaque marcados do nortista paraense.
“Eu e alguns companheiros
pegamos alguns aparelhos de roupa e caminhamos junto com eles. Por que?
Pra gente poder passar onde estava interditado e pegar um ônibus lá na
frente e ir pra cidade onde já tinha gente da primeira greve. A gente
sabia que nada bem ali ia ocorrer, entendeu? Nós procuramos pegar
refúgio”.
Depois de cinco horas de caminhada em direção ao sítio
de Canais e Diques, com fome e sede, Adailson e seus companheiros só
queriam voltar. Foi quando a Força Nacional de Segurança Pública, do
governo federal, presente desde março em Belo Monte e alojada na obra,
parou os trabalhadores que estavam dentro de um ônibus da empresa que
vinha de Altamira em direção ao canteiro de Pimental.
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| São 20 mil trabalhadores (dados de setembro de 2013 do Consórcio Norte Energia) na construção de Belo Monte. Foto: Divulgação/Governo Federal | |||
Força Nacional atua como segurança de consórcio de Belo Monte
No
meio da estrada, a Força Nacional bloqueou a passagem do ônibus e
obrigou os trabalhadores a descer. “Aí tirou fotografia nossas,
fotografou todo mundo. E tomou o crachá. Da feita que eles põem o crachá
no saco, pronto, nós estamos na rua, entendeu? Não queriam deixar a
gente ir buscar nem nossos pertences na obra. E tinha pessoas que
estavam vindo do médico, no mesmo ônibus, porque o único transporte que
tem é o transporte da empresa”, fala.
Segundo o CCBM
“contratações e desligamentos ocorrem diariamente, em virtude do grande
volume de funcionários. Mas não houve, em nenhuma situação, o
desligamento motivado simplesmente pela saída de funcionários de
qualquer um dos canteiros de obras do CCBM”.
“Tiveram pessoas que
correram, que conseguiram fugir, precisando do emprego, é claro, mas
foram poucas pessoas. Eu não tinha como correr, eles [ Força Nacional ]
estavam armados. Inclusive deram tiro atrás dos que correram para não
dar o crachá”, explicou Adailson.
A Força Nacional, criada em 2004, é subordinada ao Ministério da Justiça, que em março deste ano autorizou sua presença no canteiro de obras para prevenir a invasão de manifestantes.
Como afirma o próprio Consórcio, em resposta à Pública, por e-mail. “O
que motivou a decisão ministerial foi a sequência de ações violentas
promovidas por: 1) Instituições sindicais alheias aos funcionários do
CCBM; 2) ONGs; 3) Indígenas. Desde 2011, diferentes grupos promoveram
dezenas de atos de vandalismo contra bens móveis e imóveis sob
responsabilidade do CCBM. Não raramente, essas ações põem em risco a
segurança dos nossos funcionários – o que é prioridade número 1 para o
Consórcio Construtor Belo Monte”.
Em julho deste ano, a autorização foi prorrogada até janeiro de 2014. Em fevereiro, segundo o movimento Xingu Vivo para Sempre o
Consórcio Construtor Belo Monte havia infiltrado um ex-funcionário no
movimento, que primeiro havia sido readmitido com a proposta de detectar
lideranças operárias que poderiam organizar greves dentro dos
canteiros.
Até o fechamento desta reportagem, o Ministério da
Justiça não se pronunciou sobre o fato da Força Nacional ser usada para
coagir manifestações de trabalhadores na construção da usina
hidrelétrica de Belo Monte.
Em razão da demissão sem justa causa,
de danos morais causados pelo uso da Força Nacional e outros
descumprimentos legais – como desvio de função e horas extras – Adailson e mais sete trabalhadores acionaram a Justiça do Trabalho do Pará contra
o Consórcio Construtor Belo Monte. Das oito reclamações trabalhistas,
seis já foram julgadas em primeira instância e três ganharam a causa de
danos morais. Todas foram exitosas em relação aos pedidos de horas
extras.
“Quando teve pessoas que reivindicaram, que reclamaram
alguma coisa contra isso, contra a Força Nacional, contra a segurança,
da gente, que nós não estávamos recebendo nada, que estávamos longe de
parente, longe de casa, longe de tudo, que nós estávamos à mercê… Numa
hora dessa a empresa vira as costas. Estou lhe falando”, diz Adailson
ainda com revolta na voz. “Mas se hoje saem 300, amanhã chegam 400. Para
eles isso é normal”.
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| São mais de R$ 25 bi acordados apenas para a hidrelétrica através de contratos firmados entre os anos de 2011 e 2012. Foto: Divulgação/Governo Federal | |||
Justiça condena empréstimo do BNDES para Belo Monte
A
megaoperação de Belo Monte é a principal peça em uma estratégia
bilionária de investimentos do BNDES na Amazônia. São mais de R$ 25 bi
acordados apenas para a hidrelétrica através de contratos firmados entre
os anos de 2011 e 2012. Belo Monte, inclusive, só é realidade graças ao
dinheiro do BNDES – o banco financia cerca de 87% do total previsto
para usina, segundo dados do Ministério do Planejamento.
Todo esse dinheiro chegou a ser congelado recentemente pela Justiça que, em 25 de outubro deste ano, ordenou que o BNDES não repassasse mais nenhum centavo para Belo Monte.
O motivo: a obra não cumpriu condicionantes da Licença Prévia, emitida
pelo Ibama. A decisão foi do desembargador Antonio Souza Prudente, do
Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), em Brasília, a partir de
ação do Ministério Público Federal (MPF) de 2011. Entretanto, cinco dias
depois, a Advocacia-Geral da União (AGU) derrubou a liminar,as obras foram retomadas e o repasse foi novamente autorizado.
Sob justificativa de sigilo bancário, o BNDES se recusa a divulgar
quanto já foi repassado para Belo Monte, postura que se repete para
qualquer obra executada por agentes privados.
A lista de
financiamentos do BNDES em obras de infraestrutura na Amazônia segue com
diversos outros empreendimentos bilionários acusados de infringir a
legislação trabalhista, alguns, inclusive, envolvidos em morte de
operários. Um dos exemplos emblemáticos é a construção de uma unidade
produtora de celulose na zona rural do município de Imperatriz, no
Maranhão, obra que deve consumir sozinha mais de R$ 3,2 bi apenas de
contratos com o BNDES. Pelo menos três pessoas morreram na construção da
unidade, propriedade da Suzano, segunda maior produtora de celulose de
eucalipto do mundo e líder de papéis brancos na América do Sul.
No Maranhão, operários morrem e MPT processa obra bilionária
No
dia 13 de julho deste ano, o operário Jeferson Hugo Souza, de 23 anos,
foi atingido durante a retirada de um equipamento metálico de um
contêiner na construção da unidade produtora de celulose da Suzano.
Levado ao hospital, ele morreu por choque hipovolêmico (hemorragia) e
lesão cardíaca. Na época, a Suzano divulgou nota de pesar na qual
afirmava que a empresa Imetame Metalmecânica, responsável pela
contratação de Jeferson, tomaria todas as providências para dar a
assistência à família do operário e que ambas as empresas se
solidarizaram com familiares, colegas de trabalho e a comunidade de
Imperatriz.
A morte de Jeferson não foi a única no canteiro da
Suzano. Em setembro de 2012, durante a montagem de uma caldeira de mais
de 100 metros de altura, trabalhadores foram imprensados por uma peça
metálica carregada por um guindaste. Morreram Gilmar Pereira Norberto,
de 26 anos, e Jornande Pereira, de 31, empregados da Irmãos Passaúra,
contratada da Metso, empresa finlandesa e uma das prestadoras de serviço
na construção da usina. Mais três trabalhadores também ficaram feridos
após a queda de outra peça. Novamente, as empresas envolvidas divulgaram
nota afirmando que tomariam as providências necessárias.
As
sucessivas mortes de trabalhadores foram um dos motivos que levaram o
Ministério Público do Trabalho de Imperatriz a entrar com uma Ação Civil
Pública, em agosto deste ano, contra a Suzano, a Imetame e a Metso. A
Suzano e a Metso foram condenadas à multa de R$ 50 milhões por dano
moral coletivo. Já a Imetame, que havia recusado assinar um Termo de
Ajustamento de Conduta com o MPT, foi obrigada a resolver diversas
falhas de segurança e corrigir infrações à legislação trabalhista sob
multa de R$ 50 mil por dia por item descumprido. Em nota, a Suzano
afirmou que “está à disposição das autoridades para prestar os
esclarecimentos necessários e acredita que todas as exigências legais
serão devidamente cumpridas pelas suas contratadas.” A empresa ainda
afirmou que as “prestadoras de serviço foram escolhidas ao fim de um
rigoroso processo de seleção e os contratos preveem a execução das obras
em estreita observância à legislação vigente.”
De fato, os
problemas na usina da Suzano já eram conhecidos há quase dois anos. Em
fevereiro de 2012, o MPT já havia constatado irregularidades que iam
desde a ausência de sinalização e isolamento em áreas de movimentação de
carga à falta de utilização de equipamentos de proteção individual.
Havia ainda problemas de jornadas de trabalho prorrogadas além do limite
legal ou desrespeito à folga em feriados. Em novembro de 2012,
uma segunda fiscalização do MPT encontrou mais falhas, como a utilização
de cabos de aço com pernas quebradas, precariedade no treinamento
contra acidentes e, novamente, ausência de sinalização em áreas de
risco. Ao todo, somando uma terceira fiscalização realizada em julho de
2013, foram autuadas 57 irregularidades no canteiro da Suzano, boa parte
relacionada à segurança de trabalho. O empreendimento chegou a ter 13
mil trabalhadores e está previsto para ser inaugurado em 2014.
O problemático tabuleiro de investimentos do BNDES na Amazônia
Problemas
trabalhistas não são exclusividade de Belo Monte e da usina da Suzano
em Imperatriz. Ao contrário: se selecionarmos apenas os 20 maiores
financiamentos do BNDES em infraestrutura na Amazônia desde 2008, é
possível encontrar ações judiciais de MPTs em pelo menos 12 desses 20
empreendimentos, segundo levantamentos preliminares dos MPT estaduais.
A
hidrelétrica de Ferreira Gomes (R$ 470 mi do BNDES), no Amapá, por
exemplo, precisou firmar um Termo de Ajustamento de Conduta para
regularizar pagamento de horas extras, adicionais de insalubridade e de
periculosidade, regularizar transporte para trabalhadores de outros
municípios e até mesmo acabar com práticas de assédio moral. A empresa
responsável pela construção da hidrelétrica foi inclusive alvo de uma
Ação Civil Pública com pedido de indenização por danos morais coletivos
após acidentes.
Apenas as hidrelétricas de Jirau (R$ 9,54 bi do BNDES) e Santo Antônio (R$ 6,13 bi do BNDES), em Rondônia, acumulam, juntas, 22 processos ajuizados pela Procuradoria do Trabalho da 14ª Região,
contra gigantes como Odebrecht e Camargo Corrêa, dentre outras. A
Odebrecht também foi alvo de duas Ações Civis Públicas durante a
construção da usina de Dardanelos (R$ 480 mi do BNDES) e uma ação
relacionada à hidrelétrica de Teles Pires (R$ 2,86 bi do BNDES), ambas
em Mato Grosso. Na hidrelétrica de Estreito (R$ 2,69 bi do BNDES), entre
Tocantins e Maranhão, o MPT autuou três procedimentos.
E não são
apenas as obras das hidrelétricas que provocam ações de MPTs entre os
empreendimentos financiados pelo BNDES. A construção do gasoduto
Coari-Manaus, da Transportadora Associada de Gás – TAG (R$691 mi do
BNDES), tem um procedimento aberto no MPT/AM para investigar possíveis
irregularidades de pagamentos, duração da jornada de trabalho e descanso
semanal, dentre outras questões. As Centrais Elétricas do Pará – Celpa
(R$ 449 mi do BNDES para o plano de investimentos 2009-2011) foram alvo
de três Ações Civis Públicas do MPT da 8ª região, que representa o Pará e
o Amapá. A América Latina Logística (R$ 691 mi do BNDES para expansão e
modernização da malha ferroviária) foi alvo de uma ação civil pública
do MPT/MT. A ponte sobre o Rio Negro, no Amazonas, teve um inquérito
aberto em 2011 para investigar condições sanitárias e de conforto no
local de trabalho. O processo foi arquivado.
A lista de problemas
trabalhistas pode ser ainda maior, visto que alguns MPTs não
disponibilizam de sistemas de indexação das suas ações, como é o exemplo
do MPT do Maranhão. Até o fechamento desta matéria, a assessoria do MPT
não havia conseguido filtrar as informações de diversos empreendimentos
financiados pelo BNDES no estado, como os investimentos na Companhia
Energética do Maranhão (Cemar) ou as obras da Eneva (antiga MPX, de Eike
Batista) nas termelétricas de Parnaíba e Porto de Itaqui.
Foto: Divulgação Suzano
Fonte http://www.brasildefato.com.br


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