Nova York deve eleger prefeito de perfil esquerdista
Nova York, ao que tudo indica, vai para a esquerda. Enquanto na política
nacional a ala ultraconservadora do Partido Republicano faz barulho,
com sua feroz oposição ao governo Barack Obama, na maior cidade
americana as pesquisas de intenção de voto para a prefeitura indicam
larga vantagem para o democrata Bill de Blasio.
Com 65% das preferências, segundo pesquisa recente da Universidade
Quinnipiac, o candidato do Partido Democrata ao pleito desta terça-feira
tem um perfil que se encaixaria muito bem numa chapa petista. Na
juventude, foi ativo defensor do governo sandinista da Nicarágua e fez
sua carreira na defesa de interesses de pobres e minorias. Ocupa o cargo
de advogado público da prefeitura, uma espécie de ombudsman a serviço
da população.
Para completar o figurino progressista, Blasio, descendente de alemães e
italianos, é casado com Chirlane McCray, uma escritora e militante
feminista negra, que levantou controvérsias por ter assinado um artigo,
em 1979, intitulado "Eu sou lésbica".
| Editoria de Arte/Folhapress |
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| A disputa pela prefeitura de Nova York |
O principal adversário na disputa é o republicano Joe Lhota, 59, um
empresário de origem modesta, que estudou
em Harvard e trabalhou para a
administração municipal de Rudolph "Rudy" Giuliani (1994-2001). Em 2011,
foi convidado pelo governador Andrew Cuomo a assumir a direção da
Autoridade Metropolitana de Transporte --órgão responsável pela maior
rede pública de trens, metrô e ônibus do país.
Racionalizou despesas, planejou novas linhas e recebeu elogios durante a
tempestade causada pelo furação Sandy, quando se antecipou à inundação,
fechou o metrô, levou os trens para a superfície e criou conexões de
emergência para auxiliar no deslocamento da população.
Na tradição de seu partido, Lhota defende mais rigor e disciplina nas
finanças da prefeitura e se opõe aos subsídios sociais. Não deixa,
porém, de se esforçar para ser simpático à população de baixa renda
--num movimento para a "terceira via", em busca de apoio do eleitorado
sem partido.
Os esforços de Lhota até aqui não frutificaram. Com 26% das intenções de
voto, será difícil impedir que seu concorrente leve os democratas de
volta à prefeitura de Nova York, na sequência de dois mandatos de
Giuliani e de três do bilionário Michael Bloomberg, ex-republicano que
se tornou "independente" a partir de 2007.
ATAQUE REPUBLICANO
Diante da evidência de um fiasco, o republicano partiu para o ataque nas
últimas semanas. Elevou o tom nos debates e passou a veicular na TV um
filme alarmista com imagens do passado de violência urbana de Nova York
--uma época de insegurança que seria restaurada em caso de vitória de
Blasio.
Do outro lado, a campanha democrata tenta colar no oponente o rótulo de
candidato dos ricos. De 2002 a 2011, Lhota foi executivo sênior do
magnata James L. Dolan, dono da TV paga Cablevision, do Madison Square
Garden e dos times de basquete e hóquei da cidade --o Knicks e o
Rangers. Nesse período, ele fez lobby para a prefeitura reduzir taxas
que incidiam sobre os negócios do grupo.
Embora por si só não expliquem a vantagem de Blasio, mudanças no perfil
social e demográfico de Nova York, nos últimos anos, associadas aos
efeitos da crise econômica, favorecem o discurso democrata --que os
críticos acusam de demagógico.
Em 1990, a população branca da cidade desempenhava um papel
preponderante, com 42,3% do total --enquanto negros e latinos se
dividiam equanimemente, em fatias de 25%. Hoje, Nova York possui uma
população de 33% de brancos, seguida de perto pela hispânica, com 29%
--enquanto os negros são 23%. A desigualdade é outra característica da
metrópole: 45% de seus habitantes estão em situação de pobreza ou
próximos disso.
Num artigo para o "New York Times" ("O Novo Populismo Urbano", 22/10),
em que coteja esses e outros dados, o jornalista Thomas B. Edsall cita
dados reveladores quanto às repercussões políticas desse quadro.
Estudos eleitorais de um instituto ligado às universidades de Stanford e
Michigan mostram ser dominante entre hispânicos e negros a ideia de que
cabe ao Estado zelar pela oferta de "trabalho e bom padrão de vida para
todos". Já a maioria dos brancos acredita que o governo deve
"simplesmente deixar que cada um um siga em frente por si mesmo".
É nesse cenário, com uma sintomática aparência de "brasilização" socioeconômica, que Blasio está prestes a conquistar Nova York.
| Kathy Willens/Associated Press | ||||
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| O candidato Bill De Blasio, que disputa a prefeitura de Nova York, com sua mulher, Cirlaine McCray (à dir.) e os filhos do casal |


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