Não toque na minha puta
“Não toque na minha puta”. Esse é o mote do “Manifesto dos 343 bastardos” (em uma tradução livre), lançado aqui na França essa
semana e que tem causado uma polêmica e tanto no país. A ideia dos
signatários é protestar contra um projeto de lei que penaliza, com multa
de 1.500 euros, os clientes de prostitutas. Caso sejam reincidentes, o
valor subiria para 3 mil euros.
O PL, proposto por deputadas socialistas, deve ser discutido na
Assembleia Nacional francesa em 27 de novembro. Ao justificar a
importância de sua aprovação, as deputadas afirmaram que “a interdição da compra de um ato sexual é hoje a medida mais eficaz para reduzir a prostituição e dissuadir as redes de tráfico“.
Para os homens, “cada um tem o direito de vender livremente seus
encantos – e mesmo de amar fazer isso. Nós nos recusamos que os
deputados estabeleçam as normas de nossos desejos e de nossos prazeres”.
Segundo o
texto divulgado por eles, “não amamos nem a violência, nem a
exploração, nem o tráfico de seres humanos. E nós esperamos que o poder
público faça todos os esforços para lutar contra as redes e punir os
cafetões. Nós amamos a liberdade, a literatura e a intimidade. E quando o
Estado toca em nossas bundas, as três estão em perigo. Hoje é a
prostituição, amanhã a pornografia: o que vão proibir depois de amanhã?”
O manifesto ainda traz uma provocação óbvia e direta às feministas: a
escolha de 343 pessoas não é aleatória. Ela remete ao “Manifesto das
343 putas” (ou vadias, cadelas, a depender da tradução), publicado em
abril de 1971 pela descriminalização do aborto e assinado por Simone de
Beauvoir, Christine Delphy, Agnès Varda e Marguerite Duras, entre
outras.
“Qual filiação podem ter conosco, as ‘putas’ que reclamaram a
liberdade proibida de dispor sobre nossos corpos, esses ‘bastardos’ que
reclamam hoje a liberdade de dispor, mediante remuneração e sem
penalidade, do corpo de certas mulheres? No primeiro caso, trata-se de
acabar com uma opressão, no segundo, de reconduzi-la. E tudo em nome do
mesmo conceito: a liberdade. Onde está a falha?”, questiona Anne Zelensky, presidenta da Liga pelos Direitos das Mulheres.
Existem aí duas questões em discussão: a primeira, óbvia, é
criminalizar ou não a prostituição; a segunda é quem são os atores
políticos envolvidos nesse manifesto. E uma está diretamente imbricada
na outra.
Quando os homens dizem “não toque em MINHA puta”, que tipo de relação
de poder está estabelecida? Da forma como eles colocam, a impressão que
fica não é de defesa da liberdade, mas sim de um discurso de quem
“possui” a outra pessoa e que se acha apto a decidir sobre seu
futuro. Ou seja, de quem quer manter seu poder sobre essas mulheres,
independentemente de como elas estão sobrevivendo nas ruas, quem são
seus cafetões, se elas são estupradas com frequência, a quem recorrem
quando sofrem alguma situação de violência etc.
Assim, ao falarem sobre a “sua” puta,
eles não estão estabelecendo com elas uma relação mercantil. Não estamos
discutindo as condições de um “cliente” adquirir um “serviço” de seu
“fornecedor”. O sub-texto aí é não é de compra e venda de mercadoria. É
de propriedade. Muitas teóricas feministas já demarcaram essa relação,
com destaque especial para Colette Guillaumin: estamos diante de um
sistema hierárquico de relação de poder, que prevê a apreensão da mulher
como um todo, sejam prostitutas, sejam donas de casa.
Ademais, eles reclamam que as pessoas devem poder “vender seus
encantos”, o que soa como uma visão romântica exacerbada do que seria a
profissão de prostituta. Algo que beira o “mas elas gostam”, que sai da
boca de tanta gente que discute o assunto de uma maneira
assustadoramente simplificada.
As prostitutas, as mais interessadas no tema, também criticaram o
manifesto, declarando-o machista. Elas são contra a lei, claro, porque
isso prejudicará os negócios, mas não admitem serem tratadas como
propriedade de ninguém: “nós não somos putas de ninguém, muito menos de
vocês”, afirmou Morgane Merteuil, do Sindicato dos Trabalhadores do Sexo.
Para Merteuil, o manifesto das 343 mulheres a favor do aborto
desafiava as leis e a ordem moral, com grandes riscos não só de serem
estigmatizadas como também de sofrerem repressão penal, além, claro, de
arriscarem suas vidas ao interromper gestações indesejadas de forma
clandestina. “O que arriscam esses 343 clientes hoje? Nada”, diz.
Merteuil continua, com uma lucidez ímpar: “Desprezível sua recusa em
reconhecer seus privilégios e seu discurso anti-feminista, que gostaria
de nos fazer crer que vocês são as pobres vítimas do progresso
feminista: vocês defendem a sua liberdade de nos foder, nós defendemos
nosso direito de não morrer. A penalização dos clientes condena inúmeras
mulheres ainda mais à clandestinidade e certamente não é um progresso
feminista, e é por isso que nós, putas, nos opusemos à ela. Porque somos
nós, putas, que somos estigmatizadas e insultadas no cotidiano porque
vender os serviços sexuais não é considerada uma maneira ‘digna’ de
sobreviver. Nós, putas, que sofremos cada dia os efeitos da repressão.
Nós, putas, que arriscamos nossa vida como clandestinas nessa sociedade
que só pensa em nos abolir. Então não invertam os papéis, e parem de
posar de vítima quando sua possibilidade de ser cliente não é mais do
que uma prova do poder econômico e simbólico que vocês dispõem nessa
sociedade patriarcal e capitalista”.
Fonte:http://mairakubik.cartacapital.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário