Israel
Como a tese de "guerra moral" de Israel caiu por terra
por Antonio Luiz M. C. CostaSólido e devastador relatório da ONU desmonta os argumentos sionistas para as atrocidades em Gaza
Mohammed Abed/AFP
Mais crianças foram mortas em Gaza que na guerra da Síria
Escaldada
pela experiência da comissão da ONU presidida por Richard Goldstone
sobre a guerra em Gaza de janeiro de 2009, a comissão sobre o conflito de 2014,
comandada pela jurista e ex-desembargadora estadunidense Mary McGowan
Davis, tomou muito mais cuidado em buscar provas, fundamentar acusações e
evitar ilações desnecessárias, apesar da falta de cooperação de Israel,
que não permitiu à comissão visitar Gaza ou falar com vítimas de
ataques de foguetes palestinos.
A conclusão dos três meses de trabalho da comissão é semelhante à de 2009, porém mais sólida: Israel e o Hamas cometeram crimes de guerra,
mas aqueles dos israelenses foram mais extensos e sua responsabilidade é
maior. A vice-chanceler Tzipi Hotovely criticou a “hipocrisia” das
Nações Unidas em comparar Tel-Aviv com países que há muito não têm
quaisquer direitos humanos básicos, mas isso é parte da questão. Israel
alega merecer consideração especial dos EUA e do Ocidente por ser a
“única democracia do Oriente Médio” e ter “o exército mais moral do
mundo”. Esse discurso não lhe permite portar-se com seus inimigos como a
ditadura de Bashar al-Assad.
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O Hamas foi responsabilizado pela morte
de seis civis israelenses e um tailandês, ferimentos em 1,6 mil
(inclusive 22 crianças), execução de 21 palestinos suspeitos de espionar
para Israel e ameaça à população civil israelense ao redor de Gaza com a
construção de túneis e o disparo indiscriminado de foguetes. Seria difícil a Israel confrontar a organização,
entrincheirada em um território superpovoado como Gaza, sem danos
colaterais a civis. Mas o relatório deixa claro que, ao contrário das
alegações do governo de Benjamin Netanyahu, não houve esforço sério para evitá-los.
Métodos muito mais terroristas e mortíferos que os do inimigo foram
mantidos, apesar das críticas feitas desde o início da luta que durou 50
dias. “Quisemos enfatizar que o uso de explosivos em bairros densamente
povoados é problemático e
tem de mudar”, disse McGowan. “Não é ok jogar
uma bomba de 1 tonelada no meio de um bairro.”
Além de ataques a prédios habitados, Israel destruiu
bairros inteiros depois de exigir a saída dos moradores. perto de 28% da
população de 1,8 milhão teve de fugir e 18 mil casas foram destruídas.
Dos 2.205 palestinos mortos, 1.462 foram civis, 742 dos quais no
interior de suas moradias. Isso inclui 557 crianças, mais do que as 368
vítimas infantis da guerra civil da Síria durante todos os 12 meses de
2014 (mas algo menos que as 710 mortes de menores de 15 anos no
Afeganistão e 679 no Iraque no mesmo ano). Outras 4.249 crianças foram
feridas e ao menos mil (de um levantamento sobre 2.955 atingidas)
permanentemente incapacitadas. Houve 142 famílias com três ou mais
integrantes mortos por bombardeios.
O relatório não insistiu nos ataques de Israel a
mesquitas, hospitais e escolas, em parte por não serem fatos novos, em
parte por admitir implicitamente a versão de Israel de que o Hamas os
usou como bases de ataques com foguetes a seu território, mas tomou nota
da destruição de 30% das escolas e 50% dos jardins de infância e
assinalou a extensão sem precedentes da destruição intencional de
residências civis. A alegação de Tel-Aviv de ter avisado dos bombardeios
com antecedência de minutos, por meio de telefonemas ou da prática de
“bater na porta” com ataques iniciais de baixa intensidade, foi
menosprezada pela comissão por ser ineficaz e não absolver o Exército de
responsabilidade.
“O fato de Israel não ter revisado sua
prática de ataques aéreos, mesmo depois de seus efeitos terríveis sobre
os civis serem óbvios, levanta a questão sobre se isso foi parte de uma
política mais ampla aprovada tacitamente, no mínimo, nos mais altos
níveis do governo”, apontou a comissão, cobrando não só investigação,
como indiciamento e punição dos responsáveis. Condenou em particular o
arquivamento de um inquérito sobre a morte de quatro crianças ao brincarem em uma praia de Gaza em 16 de julho,
sem interrogar as testemunhas. McGowan citou o caso como exemplo da
incapacidade do Exército israelense de investigar a si mesmo.
Por mais que Israel queira ignorar o relatório, não poderá
fugir das consequências. Para começar, ele abre caminho para processos
contra autoridades israelenses no exterior, caminho aberto à Palestina
desde sua admissão como integrante do Tribunal Penal de Haia, em abril
de 2015, e torna cada vez mais problemáticas suas viagens ao exterior.
De maneira mais ampla, é um sintoma claro de que o sionismo perde o controle da narrativa a seu respeito, ao menos fora das fronteiras do país.
A credibilidade do governo israelense na mídia, e mesmo
entre aliados, não é mais o que era. O próprio Departamento de Estado
dos EUA citou as estimativas de mortes de civis, mulheres e crianças
palestinos da ONU em seu relatório sobre terrorismo de 19 de junho e não
as de Israel, ao contrário do que fizera após a guerra de 2009. Deu
caráter oficial a um novo e poderoso argumento para o movimento de
boicote, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel, que em junho o
primeiro-ministro Netanyahu citou pela primeira vez como uma ameaça
existencial comparável ao Irã ou ao Hezbollah. Nos EUA, o movimento
ainda é simbólico, apesar do amplo apoio entre estudantes
universitários, mas a União Europeia aplica sanções reais contra
produtos e investimentos nos territórios ocupados e a China proibiu o
uso de suas empresas e trabalhadores nessas áreas. O investimento
externo caiu 46% entre 2013 e 2014. Israel começa a ser visto como o era
a África do Sul do apartheid em suas últimas décadas.
O Estado judeu recusa ouvir e promove uma
propaganda que só prega aos convertidos, inclusive uma animação para
ridicularizar os jornalistas estrangeiros em Gaza como idiotas e um
livro do ex-embaixador Michael Oren para acusar Obama de trair Israel.
Ao mesmo tempo, gera mais fatos concretos contra si mesmo. Não bastasse a
morte e destruição em Gaza, a suspensão das negociações de paz e
ministros que pedem abertamente a anexação de territórios palestinos,
Israel maltrata e persegue refugiados e migrantes africanos, discrimina e
reprime judeus negros, seu primeiro-ministro conclamou o voto judeu
contra a “ameaça” dos cidadãos de origem árabe
e seu vice-ministro do Interior, Yaron Mazuz, diz aos deputados árabes –
cujos pais e avós viviam no país antes da migração sionista – estão lá
de favor e deviam renunciar à cidadania por acusar o Exército de crimes
de guerra.
Mais que o primeiro-ministro ou a
chancelaria, com sua rejeição à consideração séria de negociações de paz
e reconhecimento do Estado Palestino, é símbolo da ex-general e nova
ministra da Cultura Miri Regev, que em entrevista a uma revista feminina
reclamou daqueles cujos trabalhos deveria apoiar. “Artistas são um
bando de ingratos que pensam saber tudo, de hipócritas que envenenam a
vida. Não me sinto à vontade trabalhando com o mundo cultural.” Nestes
dois meses de gestão, cortou verbas para um teatro por apresentar a peça
sobre um palestino que matou um soldado israelense e ameaçou cancelar
subvenções a uma companhia de teatro infantil na qual atuam crianças
judias e palestinas por esta se recusar a se apresentar em colônias
judaicas na Cisjordânia ocupada.
Igualmente sintomático do clima cultural tóxico foi o
incêndio e depredação, por fundamentalistas judeus, da Igreja da
Multiplicação de Pães e Peixes, templo beneditino construído no lugar do
suposto milagre de Jesus às margens do Mar da Galileia. As paredes
foram também pichadas com uma frase de condenação à adoração de ídolos
digna do Estado Islâmico. Alguns jovens foram detidos para
interrogatório, mas liberados sem acusações.
Enquanto isso, a Rand Corporation, uma das consultorias
mais ouvidas por Washington, adverte que Israel, cujo PIB é hoje de 290
bilhões de dólares, perderá 250 bilhões na próxima década se não fizer a
paz, que lhe traria mais de 120 bilhões. Um estudo do próprio
Ministério da Fazenda de Tel-Aviv, chefiado por Moshe Kahlon, aponta o
risco de falência nacional, como resultado do crescimento da população
judia haredim (religiosos ultraortodoxos que se dedicam à
religião e não trabalham) e da população árabe marginalizada e excluída.
Mesmo sem contar os territórios ocupados, esses dois grupos somarão
metade da população em 2059. Antes disso, os judeus mais prósperos e
produtivos, ou simplesmente mais ricos, poderão emigrar para fugir da
carga fiscal crescente e da dívida pública insustentável.
Somem-se a isso a instabilidade do Egito,
o risco iminente de fundamentalistas se apoderarem da Síria e as
mudanças econômicas, culturais, demográficas e geopolíticas que tendem a
tornar Israel e o Golfo Pérsico menos vitais para Washington e o lobby
sionista menos decisivo nas eleições estadunidenses. Não deveria ser
preciso lembrar às lideranças israelenses que mesmo uma eventual vitória
republicana em 2016 não garantirá um futuro para seu país se este não
aprender a conviver com seus vizinhos, a começar pela Palestina.
*Publicado originalmente na edição 856 de CartaCapital, com o título "Guerra Moral? Conte Outra"
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