Política
Entrevista - Luiza Erundina
De volta à Câmara, Erundina fala em “resistir para não desaparecer”
por Murilo Matias
Aos 80 anos e de volta à Câmara após um afastamento por motivos de
saúde, a parlamentar classifica a supremacia de Cunha como “fundo do
poço”, mas não perde esperança
Gabriela Korossy (31/03/2015)
A deputada do PSB em plenário, em março deste ano, poucos dias antes de se afastar
Afastada por quase
dois meses da Câmara dos Deputados por problemas de saúde, Luiza
Erundina (PSB-SP) retorna a um Congresso conflagrado por pautas que vão
do ajuste fiscal à redução da maioridade penal. Nada que assuste a uma
das mais presentes figuras da política brasileira nas últimas décadas.
Aos 80 anos, em seu quinto mandato como deputada federal por São Paulo,
Erundina continua a ser voz respeitada no parlamento, respaldada por uma
trajetória de mais de 40 anos de vida pública e mais de dez milhões de
votos conquistados ao longo de treze disputas eleitorais.
Na entrevista a CartaCapital,
a parlamentar analisa o momento do Congresso sob a presidência de
Eduardo Cunha, opina sobre a gestão Dilma Rousseff e a respeito das
articulações políticas envolvendo o ex-presidente Lula. Fala ainda de
seu desconforto no PSB, da relação com nomes ligados ao
partido, como
Marta Suplicy e Marina Silva, e comenta seu engajamento em um novo
movimento político.
CartaCapital: A senhora diz que é preciso
mudar a cultura política. A reforma encaminhada pelo Congresso cria um
ambiente de mudança ou mantém a estrutura político-partidária de hoje?
Luiza Erundina: Não só
mantém, mas piora. Não se trata de uma reforma, são remendos na
legislação eleitoral, que agravam as distorções. O quadro partidário
está exaurido, as legendas perderam sua identidade. A relação entre os
poderes está completamente esgaçada. É uma uma crise sistêmica do Estado
brasileiro e do sistema político, que necessitaria de uma reforma
profunda, democrática e corajosa. Uma das principais causas da corrupção
eleitoral é o financiamento privado de campanha e ele não só está
mantido, mas passa a ser constitucionalizado. A crise política e
institucional é de uma gravidade que eu nunca vi durante o tempo que
estou na política.
CC: A senhora já esteve no
Congresso sob a presidência de políticos como Michel Temer, Arlindo
Chinaglia ou Severino Cavalcanti. Como é atuar sob a presidência de
Eduardo Cunha?
LE: São nunces de um mesmo
modelo, mas faz diferença. Os presidente do PT não fizeram diferença
nenhuma, lamentavelmente. O Temer é uma pessoa com quem a gente convivia
bem. Mas, hoje você tem uma conjuntura desfavorável para quem quer
mudança. A gestão do Cunha, influencia não só no plenário, mas nas
comissões, dominadas por conservadores. Os espaços onde conseguíamos
interferir não existem mais. Entramos numa fase de resistência. É
resistir para não desaparecer. Se chegou ao fundo do poço, mas, sou
otimista, dependendo do que a gente faça, do diálogo com a sociedade,
com os movimentos. Isso dá vitalidade aos nossos mandatos e a esperança
de que essa representação seja uma ferramenta de luta dos trabalhadores.
CC: Falando em posicionamento, de que lado está a presidenta Dilma?
LE: Não tem lado nenhum, o
pior é isso. O governo está sem rumo, não tem diálogo com o Congresso. A
presidente tem aberto mão do seu poder. Transferir para alguém a
articulação política é esvaziar o mandato, ela não poderia ter feito
isso. Entendo que é o fim de um ciclo iniciado na luta de resistência,
que culminou na criação do PT e chegou ao auge na primeira eleição do
Lula. Na segunda eleição dele, a coisa foi diferente. Não são governos a
serviço de avanços democráticos, muito menos o da Dilma. São gestões
autoritárias, que contribuem para desarticular os movimentos. O sindical
está domesticado, não se pode mais contar com o movimento na luta
política, nem econômica. E na Câmara passa tudo o que o Cunha quer.
CC: Nesse cenário existe espaço para uma volta de Lula em 2018, com chances de vitória?
LE: Vai depender do que
acontecer, por exemplo no processo da Lava-Jato, mas o Lula ainda é uma
referência. A meu ver, não é mais aquele Lula de 1989, ele teve que
fazer muitas concessões. Não estou falando em concessões éticas, não
posso afirmar nada sobre isso e nem acredito que o Lula tenha se
envolvido de alguma forma. A figura, a liderança dele, o papel social
histórico não é mais o mesmo, está muito desgastado. Ele é ainda um
potencial candidato, competitivo, mas não com aquela força que teve nas
últimas eleições. Corre sérios riscos de não se eleger.
- Luiza Erundina (esquerda), durante uma agenda de campanha de Marina Silva (centro) em São Bernardo do Campo (SP)
CC: A senhora apoiaria a candidatura do Lula?
LE: Depende de como ele esteja, e de como
estarão as esquerdas. Temos de reaglutinar as esquerdas. Tento fugir da
opção individual, de uma figura. Se ele vier numa rearticulação das
forças progressistas que pensam o país, têm uma visão nacionalista,
preservam o patrimônio público e tem apreço pela democracia, eu embarco
nessa canoa. Inclusive, está se falando em uma frente de esquerda, mas
não só de esquerda, e, sim, plural, para reagir a esse momento do país.
Isso pode suscitar, a médio prazo, em um partido com força política mais
ampla, representativa do conjunto da sociedade. Aí embarco junto. Mas
não mais ele individualmente, não mais ele e o PT, somente. O PT como
proposta se esgotou.
CC: Como a senhora vê o atual momento da
senadora Marta Suplicy, que deixou o PT para filiar-se ao PSB, repetindo
um movimento que a senhora fez na década de 90?
LE: A Marta é uma liderança, tem um papel, mas
pertence a um outro modelo, até pela sua origem de classe, pela forma
de ser dela na política. É uma referência no Senado, embora eu não
concorde muito com as posições dela, e mesmo a forma como saiu do PT.
Marta teve todas as oportunidades no PT, foi deputada, senadora,
ministra duas vezes e saiu da forma como saiu, magoada pois o partido
não lhe deu a legenda para concorrer a prefeita de São Paulo ou a
governadora. No fundo, ela tem um projeto muito pessoal, e a filiação ao
PSB explica-se pelo momento que nosso partido vive, também desviado de
seus compromissos históricos de uma concepção socialista de politica.
CC: A senhora se sente desconfortável no seu partido, o PSB?
LE: Eu não me sinto no
partido, não me identifico mais com o PSB, essa é a verdade. Tenho um
mandato pelo partido e quero cumpri-lo. Sigo, no possível, as
orientações, mas o PSB não é aquele para onde eu migrei. Quando saí do
PT, dizia estar mudando de casa, não de rua. A rua é o socialismo, que
eu imaginava existisse no PSB. E existiu nas pessoas, em outro momento,
mas, sobretudo a partir do segundo turno das eleições presidenciais de
2014, com a mudança na direção, o partido não é mais o mesmo. A fusão
com o PPS, sem nenhum critério, a política de alianças, que envolve todo
mundo, como os Bornhausen, descaracterizam e comprometem a identidade
do partido. Não pode se desvirtuar tanto, senão fica igual ou pior do
que aquilo que a gente considera o conservadorismo, o reacionarismo, a
ausência de democracia.
CC: Ao final do mandato, que se encerra em 2018, avalia a perspectiva de mudança de partido?
Erundina ao lado de Célio Turino em uma reunião do Raiz, grupo político que pretende virar um partido
CC: Como é a sua relação com Marina?
LE: Me decepcionei com a
Marina sendo coordenadora da sua campanha pela falta total de diálogo.
Não tive influência como coordenadora e representante de uma força
politica. Ela é muito fechada, e do ponto de vista ideológico tem
dificuldades, até pela opção religiosa que fez, radical do ponto de
vista moral e comportamental. Isso contraria a concepção socialista de
mundo, de ser humano. Mesmo tendo popularidade, falta a ela uma
identidade clara. Não vejo mais a Marina como alternativa.
CC: Quais outras mulheres políticas a senhora destaca?
LE: Tem muitas companheiras
interessantíssimas despontando, jovens lideranças. Acredito na força de
mulheres como Jô Moraes (PCdoB-MG), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Maria do
Rosário (PT-RS), Carmen Zanotto (PPS-SC), Luciana Genro (Psol) e Janete
Capiberibe (PSB-AP). São lideranças que se completam, e, graças a elas,
conseguimos marcar alguma posição aqui dentro. Me inspiro nelas, no
movimento feminista e na luta das mulheres na periferia. A força do meu
mandato está aí.
CC: Aos 80 anos e com toda a sua trajetória, considera a sua voz ouvida no parlamento?
LE: Não
sei se suficientemente, mas sou respeitada por todas as forças, a não
ser pelos bolsonaros da vida, aí o antagonismo é absoluto. Sou
considerada porque eu não mudo, as pessoas conhecem minhas ideias. Minha
referência na política é o socialismo entendido como concepção de
Estado, de vida, como a proposta para a humanidade. Claro que não vai
ser no meu tempo, mas o apelo dentro do ser humano e pelo o que a
história já nos ensinou, não tenho dúvida de que o socialismo é o
caminho para uma sociedade civilizada, democrática, realizadora da
felicidade humana.
Fonte:http://www.cartacapital.com.br/politica/de-volta-a-camara-erundina-fala-em-201cresistir-para-nao-desaparecer201d-2779.html
Fonte:http://www.cartacapital.com.br/politica/de-volta-a-camara-erundina-fala-em-201cresistir-para-nao-desaparecer201d-2779.html
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