Caso Eike põe em xeque apoio do BNDES a megagrupos nacionais
Analistas questionam políticas do Banco Nacional de Desenvolvimento, que concordou em emprestar R$10,4 bilhões ao empresário - suficiente para construir os estádios da Copa
colapso do grupo EBX, do magnata brasileiro Eike Batista, põe em xeque as políticas de apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em relação a grandes grupos nacionais.
Essa é a avaliação tanto de Aldo Musacchio,
professor da Harvard Business School, quanto de Mansueto Almeida, do
Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), que vêm estudando as
práticas e escolhas do banco e seus efeitos sobre a economia
brasileira.
Sede do BNDES no Rio: empréstimos ao grupo EBX somaram R$ 10,4 bilhões
"É impressionante ver como algumas das escolhas
feitas pelo BNDES (no apoio ao que vem sendo chamado) de 'campeões
nacionais' não estão obtendo os resultados esperados", diz Musacchio.
"E o grupo EBX é apenas o último exemplo disso. Com todos
os protestos contra a corrupção e esse debate sobre os custos dos
estádios (da Copa), parece problemático o fato de o banco ter arriscado
bilhões nesse grupo."
O EBX - conglomerado que inclui a petrolífera OGX, a
produtora de energia MPX, o estaleiro OSX, a mineradora MMX e outras
empresas - era um cliente preferencial do BNDES.
Segundo informações do banco, o total de empréstimos
contratados pelo grupo nos últimos anos foi de R$ 10,4 bilhões de reais.
o suficiente para pagar por todos os estádios da Copa.
O valor inclui os recursos que o banco se comprometeu a
emprestar a Eike, mas não desconta o que já foi pago e o que ainda não
foi desembolsado.
O BNDES se recusa a revelar quanto o grupo efetivamente
lhe deve alegando sigilo bancário, mas diz que sua exposição a EBX é
"pequena" e Eike teria oferecido "amplas garantias" aos empréstimos.
De acordo com um levantamento do banco Merryll Lynch
feito com base nos balanços das empresas, porém, tal exposição seria da
ordem de R$ 4,9 bilhões – o que faria do BNDES a instituição financeira
mais exposta ao grupo.
Além disso, o BNDESPar, braço de participações acionárias
do banco, tem pequenas participações na SIX (33,02%), MPX(10,34%), CCX
(11,72%), MMX (0,66%) e OGX (0,26%), em um total de mais de R$ 500
milhões.
Fortuna
Eike era, em março de 2012, o oitavo homem mais
rico do mundo segundo a agência Bloomberg, com um patrimônio estimado
em US$ 34,5 bilhões (R$ 78 bilhões).
A desaceleração chinesa, a perda de vigor do
PIB brasileiro e uma série de problemas do grupo EBX, porém, fizeram com
que suas empresas pouco a pouco perdessem a confiança dos mercados.
Primeiro a OSX revisou suas metas de
produção. A mineradora MMX teve obras paralisadas no Chile e desistiu de
projetos no país. Quando a petrolífera OGX anunciou a inviabilidade
comercial de seus poços da Bacia de Campos, na semana passada, as ações
de algumas empresas do conglomerado caíram em queda livre e começou-se a
falar em uma reestruturação total do grupo.
O empresário Eike Batista, presidente do Grupo EBX: patrimônio encolheu
Como consequência, a fortuna de Eike encolheu para US$ 2,9 bilhões (R$ 6,5 bilhões).
"O problema do grupo EBX foi ter crescido
rápido demais apostando em um cenário muito otimista", diz Wilber
Colmerauer, do Emerging Markets Investments em Londres. Ou seja, Eike
prometeu demais e entregou de menos.
Críticas
"É claro que não foi só o BNDES que se enganou com a EBX.
Os bancos e investidores privados também acreditaram em suas promessas
de grandes lucros", diz Almeida.
Para o especialista do IPEA, no entanto, a questão é que o
BNDES faz empréstimos com recursos públicos e juros subsidiados e,
portanto, deveria ser guiado por uma lógica diferente da usada pelo
setor privado – o que não parece ser o caso.
"Poderíamos ter investido os recursos (emprestados ou
usados para adquirir participações no grupo EBX) em setores que nos
levassem a criar tecnologias novas e não vão se desenvolver se não
tiverem incentivos", diz Almeida.
"É claro que também há riscos nessa opção, mas um risco
justificado pelos potenciais benefícios em termos de aprendizado, de
mudança estrutural no setor produtivo que ajudariam a diversificar a
economia do país e lhe dar mais perspectivas no longo prazo. Não vejo o
que ganharíamos apoiando um grande grupo como o EBX, que além de ser
mais capaz de captar recursos no setor privado atua em áreas em que o
Brasil já é 'forte', já tem vantagens comparativas."
Musacchio, de Harvard, concorda com o diagnóstico. "As
grandes apostas do BNDES nos últimos anos têm sido em (empresas que
atuam na área de) commodities - petróleo, mineração, gás, carne
congelada e etecetera", diz ele.
"Isso quer dizer: o banco está apostando em setores que
são muito dependentes do crescimento do PIB chinês em um momento em que a
China está desacelerando. Mas se você conversa com produtores de
equipamentos médicos, de hard drive e outros (produtos de alto valor
agregado) se dá conta que eles não estão recebendo tanto apoio."
Pesquisa
Musacchio conta ter feito um estudo analisando os
investimentos de portfólio do BNDESPar desde 2008 e a conclusão foi de
que sua performance, em termos de retornos financeiros, foi muito fraca,
"bem aquém da performance da Bovespa em geral".
"Você pode argumentar que o objetivo do BNDES não é
maximizar seus lucros", diz o economista. "O problema é que nossos
estudos têm mostrado que eles também não têm investido ou emprestado
dinheiro para as empresas que mais precisam (por não terem recursos
próprios para investir ou fontes de financiamento alternativa). E
supostamente, isso ocorreria porque eles estariam escolhendo empresas
com boas performances e resultados (Para reduzir seus riscos)."
Já Colmerauer é menos crítico. Para ele, apesar de
algumas apostas erradas, nos últimos anos o BNDES também ajudou a criar
grupos nacionais que seriam "estrelas do mercado, como a Brazil Foods
(resultado da fusão da Perdigão com a Sadia)."
Ele diz que os problemas da empresa de Eike de fato têm
gerado grande apreensão nos mercados e agora há uma corrida para
entender até que ponto os bancos públicos – e em especial o BNDES –
poderiam ser atingidos por suas repercussões.
"Trata-se de um ciclo vicioso: o pessimismo em relação à
economia brasileira faz com que seja mais difícil para Eike conseguir
novos empréstimos e reestruturar suas empresas e ao mesmo tempo, o
colapso do valor de mercado de seu grupo ajuda a ampliar o pessimismo
das expectativas sobre o país."
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