Impostometro

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Expectativa de vida avança no Brasil

Expectativa de vida avança no Brasil, apesar de desigualdade entre regiões


Apesar dos grandes avanços na diminuição das taxas de mortalidade infantil e de crianças até cinco anos, dados publicados pelo IBGE comparando 1980 a 2010 ainda revelam desigualdades entre as regiões e Estados do país. As chances de homens morrerem em relação às mulheres é de quatro vezes mais no país todo.
*O Estado do Tocantins foi oficialmente criado em 1989, por isso não há informações sobre o ano de 1980.

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de População e Indicadores Sociais
Arte: UOL Infografia

E Deus criou o gay

Editorial

E Deus criou o gay

O papa Francisco curva-se à vontade divina, ou por outra à verdade dos fatos, se quiserem à normalidade

                         papa francisco
                    Inspirador? O papa que nos surpreende a cada dia ouviu a lição de Martini

Em um mundo órfão de grandes lideranças, ocorre-me de súbito a figura do papa Francisco. Tem jeito para exceção. CartaCapital já o definiu como renovador e reformador. A se confirmar a rota tomada neste começo de pontificado, logo nos defrontaremos com um estadista.
Sou católico não praticante desde os meus 11 anos de idade, após ter desempenhado com competência, faço questão de sublinhar, a complexa tarefa de coroinha em missas faladas em latim na Igreja de San Rocco, em San Remo, a serviço de Don Borfiga, o pároco, santo homem no altar do templo miúdo e gracioso no alto de uma subida íngreme. Eu vestia uma batina vermelha e um roquete saído da agulha de crochê da minha avó materna, e pisava degraus de mármore com leveza bailarina ao transferir o missal de um lado a outro. Ao cabo da função, ao ganhar a sacristia, dizia “prosit” com alguma solenidade, para enlevo do bom pároco.
Logo passaria a figurar na categoria dos agnósticos e nem por isso deixei de me aproximar de belos personagens eclesiásticos e de admirar outros a lhes conhecer a vida e a obra. O papa João XXIII, digamos, ou o cardeal Carlo Maria Martini, capaz, antes de morrer, de denunciar o atraso da Igreja Católica em relação aos temas éticos, à família, à sexualidade, à juventude.
É o pensamento de Martini que Bergoglio parece compartilhar de várias formas. A visita ao Brasil ofereceu ao papa Francisco a oportunidade de provar seu carisma e a qualidade dos seus propósitos. Ao cabo, ainda no avião que o levava de volta a Roma, deu uma entrevista especialmente reveladora aos jornalistas companheiros de viagem. Entrevista subversiva, porque subverte aquilo que soava como doutrina da Igreja e agora abre o caminho para reformas profundas.
A começar pela questão do homossexualismo. “É preciso distinguir – diz o pontífice – entre o fato de que uma pessoa é gay e o fato de que se organiza um lobby a favor. Lobby nunca é bom. Mas se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?” E sobre o banco do Vaticano, o Instituto para as Obras da Religião, tornado lavanderia mafiosa, admite não ter ainda uma solução final. Não exclui a possibilidade de fechá-lo de vez, mas, se não for assim, terá de caracterizar-se por transparência e honestidade.
O pontífice aponta erros e pecados cometidos pela Igreja, a presença de monsenhores que merecem a cadeia, a corrupção reinante em setores da Cúria, inferior moral e intelectualmente ao nível de outros tempos. Faz o elogio da misericórdia a respeito dos divorciados e lembra que os ortodoxos permitem uma segunda união matrimonial como se fosse bom exemplo. Será este um assunto no próximo outubro para a reunião com os oito cardeais chamados a compor uma espécie de conselho consultivo, também nascido de uma ideia defendida pelo cardeal Martini, colegiado de sábios para assessorar o papa. Que reconhece, assim, sua falibilidade.
Declarações deste naipe prometem uma guinada de certa forma revolucionária. Há quem enxergue em Bergoglio um ator consumado e um político astuto. Nada disso o diminui, mesmo porque é de clareza cegante a necessidade de uma mudança radical dentro da Igreja Católica, atolada em escândalos e tramoias, permitidos, quando não incentivados no caso do IOR, por João Paulo II. Os mesmos escândalos e tramoias que levaram Bento XVI a renunciar com uma insólita confissão de impotência. Bergoglio indica ter as sobras de energia e as ideias claras e corajosas de que careceu seu predecessor.
Há uma frase-chave nas pregas das falas de Francisco, “temos de nos acostumar a ser normais”, pronunciada em seguida à informação de que carrega na mesma bolsa o breviário e o barbeador, pois tem o hábito de usá-los diariamente. A entrega à normalidade significa aceitação da verdade inexorável dos fatos. Só para focalizar um fato específico: se há homos e héteros, um católico não poderá deixar de atribuí-lo à vontade do criador. Se quiserem, escrevo Criador, com “c” grande. Avisei, porém: sou agnóstico.
P.S: recomendo a leitura da coluna de Wálter Fanganiello Maierovitch que aprofunda a análise deste começo do pontificado de Francisco.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br 

Presos sem saber por quê

                        Presos sem saber por quê

Polícia Militar de São Paulo prendeu três manifestantes que alegavam não estar fazendo nada. Um dia após os protestos, eles continuavam detidos

Black Bloc

Manifestação

O Black Bloc e a resposta à violência policial

           O Black Bloc não é uma organização e sim uma forma de protesto estética baseada na depredação dos símbolos do estado e do capitalismo
Manifestantes durante ação, na terça-feira 30, contra concessionária de carros de luxo em São Paulo

Durante o mês de junho as manifestações massivas contra o aumento das tarifas fizeram emergir novas dinâmicas no cenário político brasileiro, uma renovação da organização social que questiona os limites legais do status quo. A inovação e o choque desse outono de 2013 aconteceram porque a desobediência civil - tática histórica de movimentos contestatórios - teve uma aceitação popular jamais vista no Brasil desde a proclamação da república (sempre é bom lembrar que a proclamação da república foi uma quebra da institucionalidade).
Surgiram alternativas de luta, cada qual com suas táticas. A ação direta não violenta das multidões veio em Porto Alegre no levante contra o aumento das tarifas, reforçado pelo Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo. Foram bloqueios de vias, abertura de catracas, escrachos (denúncia públicas de pessoas acusadas de violações de direitos, como ex-agentes da ditadura) e ocupações de prédios públicos.
São ações questionadoras da ordem que, em muitas ocasiões, despertam resposta violenta da polícia e tentativas de criminalização por parte da grande mídia. Ao mesmo tempo, essas ações se colocam diretamente contra o Estado e os efeitos da exclusão econômica, partindo sem intermediários para a disputa do modelo de sociedade.
Black Bloc. Paralelo a essa estratégia - e independente do MPL e congêneres - se manifestou nesse período a tática do Black Bloc, em grande parte como resposta à violência policial. O Black Bloc é composto por pequenos grupos de afinidade, muitas vezes feitos na hora, que atuam de forma independente dentro das manifestações. Mas, ao contrário do MPL, o Black Bloc não é uma organização ou coletivo e sim uma ideia, uma tática de autodefesa contra a violência policial, além de forma de protesto estética baseada na depredação dos símbolos do estado e do capitalismo. A dinâmica Black Bloc lembra mais uma rede descentralizada como o Anonymous do que um movimento orgânico e coeso.
Utilizada primeiramente pelos movimentos autonomistas da Itália e da Alemanha, é muito presente na Europa e EUA, e mais recentemente nos países árabes, mas nunca havia encontrado condições para se desenvolver em solo brasileiro.
O primeiro sinal de propaganda Black Bloc no país ocorreu no início dos anos 2000, durante o surgimento do movimento anticapitalista global (antiglobalização), mas foi descartado pelos ativistas autônomos da época por avaliarem a ação direta não violenta, manifestada principalmente nos protestos contra a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), estrategicamente melhor para o cenário brasileiro. Anos depois essa opção pela ação direta não violenta combinada com trabalho de base, organização horizontal e uso intensivo da internet influenciou a criação do MPL e outros movimentos autônomos, como a Bicicletada, o Centro de Mídia Independente e o Rizoma de Rádios Livres.
No entanto, a ideia do Black Bloc nunca morreu, manifestando-se em escala menor e de forma bem isolada em manifestações anteriores. Nada muito significativo ou mesmo duradouro, sendo impulsionado por elementos anônimos que não deram continuidade à sua atuação. Mas a ideia estava lá, sempre lá, e na primeira oportunidade se manifestava em algum canto do País, geralmente como recurso para a autodefesa.
Violência policial e autodefesa. Em junho o cenário de manifestações criou um ambiente favorável para o florescimento do Black Bloc brasileiro na sua forma de autodefesa. Em diversas capitais as mobilizações extrapolaram a capacidade organizativa dos grupos e movimentos que as desencadearam, criando movimentos multicêntricos onde cabem diversas estratégias, táticas e narrativas mobilizadoras. Como na maioria das cidades esse crescimento veio pela solidariedade popular pós-repressão, é coerente afirmar que a violência policial foi o fermento da indignação que levou a população às ruas no auge das jornadas de junho; e serviu como justificativa moral, segundo seus defensores, para a disseminação descentralizada da tática Black Bloc.
Reações de autodefesa começaram a surgir no meio da massa de manifestantes, de forma cada vez mais organizada. No Rio de Janeiro, devido à intensidade da repressão e às condições geográficas e sociais da cidade, que aproximam bairro e favela, jovem de classe média e jovem da periferia, a intensidade da repressão policial e da resposta dos manifestantes foi maior.
Apoio aos irmãos cariocas. Recentemente, na sexta-feira 26 de julho, houve um ato na avenida Paulista denominado "Ato em apoio aos irmãos cariocas versão sem pelegos". Esse ato pode ser considerado um ponto de virada na narrativa do Black Bloc brasileiro. Pela primeira vez a ideia e a tática se manifestaram em sua plenitude na forma da manifestação direcionada para a destruição de propriedades privadas e públicas. Cerca de 300 pessoas percorreram o trajeto do Masp até a 23 de Maio destruindo bancos, bases policiais e veículos da mídia hegemônica. A polícia acompanhou a movimentação de longe, alegando esperar o reforço da Força Tática para iniciar a dispersão do ato.
Na terça-feira 30, o ato chamado pelo Facebook, reuniu manifestantes contrários ao governador paulista, Geraldo Alckmin, e ao governo de Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro. Alguns manifestantes picharam paredes, quebraram o vidro de uma concessionária e de agências bancárias na região. A Força Tática e a tropa de Choque da Polícia Militar seguiram atrás dos manifestantes.
A retomada da polícia já havia sido prometida na página da Secretaria de Segurança Pública na internet, com o órgão dizendo que a PM agiria “com a energia necessária para evitar atos criminosos,” após agências bancárias e bases policiais terem sido danificadas na avenida Paulista na última sexta-feira. Com a ação de 220 oficiais, segundo a própria corporação, foram detidos 20 manifestantes. Destes, cinco ainda continuam presos por suspeita de formação de quadrilha, resistência à prisão, desacato e dano ao patrimônio público.
Os protestos recentes e especificamente as manifestações Black Bloc têm sido usados como pretexto para pautar soluções repressoras. A mídia tem feito o trabalho de recortar as imagens de depredação e confronto sem o mínimo de contextualização, imprimindo a narrativa que melhor lhe convém, e muitas vezes criminalizando pessoas não envolvidas nos confrontos. Do outro lado, iniciativas midialivristas e os demais veículos de esquerda têm trazido outros pontos de vista sobre a questão, forçando uma pequena mudança na linha editorial dos meios hegemônicos como demonstrou o caso do ativista carioca Bruno, incriminado injustamente de ter atirado molotovs na polícia.
Vale nos questionarmos como o Black Bloc vai impactar na disputa de imaginário da sociedade e como o estado e os demais movimentos vão lidar com essa novidade política. Com a expansão dessa tática será possível realizar novas ações diretas não violentas de multidão, convocadas pela internet, sem essas terminarem, necessariamente, em confronto físico?
Como diferenciar o Black Bloc do agente provocador infiltrado, que está na manifestação apenas para criar fatos que justifiquem a repressão? A suspeita sobre os P2 levanta outra questão: até que ponto a violência por parte dos manifestantes serve aos interesses de determinado governo?
Cada caso é um caso, e só nos resta avaliar cada conjuntura com lucidez, a fim de que não sejamos levados a tomar opinião direcionados por interesses ocultos. Formação política, clareza dos objetivos e capacidade de análise de conjuntura serão dos fatores determinantes para o futuro da ação direta urbana no Brasil, seja ela violenta ou não violenta.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade