Por dentro da mente de Putin
Pela terceira vez no poder, Vladimir Putin se aproxima cada vez mais do estilo de comando de seus antecessores soviéticos e, assim como eles, não encontra limites para novamente fazer da Rússia uma grande potência a ser temida pelo mundo
Apesar da
aparente frieza, ao menos quando distantes da vodka, os russos são
célebres pelas piadas e pelos apelidos que criam para definir a forma
como seus líderes governam o país. Gorbachev, por exemplo, era conhecido
como o “desastrado” e Boris Yeltsin, como o “bêbado”. Para definir
Vladimir Putin, os russos gostam de contar uma anedota que envolve o
atual presidente e o mais famoso dos ditadores soviéticos, Joseph
Stalin. Uma determinada noite, diz a piada, o fantasma de Stalin surge
para Putin no Kremlin. Meio atordoado, meio admirado, Putin pergunta ao
antigo líder o que deve ser feito para tornar a Rússia uma grande
potência novamente. Stalin coça o vasto bigode e diz: “É simples. Reúna
todos os democratas do país e os fuzile sem piedade. Depois disso, pinte
todo o interior do Kremlin de azul”. Putin, então, pergunta: “Mas por
que azul?”. Stalin abre um leve sorriso e responde ao presidente russo:
“Eu sabia que você entenderia a primeira parte do meu conselho”.
PODER
Putin assumiu um papel paternalista no comando da Rússia
A piada é dos tempos em que Putin decidiu
agir com violência, rapidez e nenhum diálogo na Tchetchênia, a província
separatista do Cáucaso, restaurando o controle russo com mão de ferro
logo no início de seu governo, na virada dos anos 1990 para os anos
2000. Ao mesmo tempo, em Moscou, Putin tratou de calar os oposicionistas
fechando jornais, prendendo magnatas que não se
alinhavam às suas
convicções e tornando a vida de seus adversários políticos, como o
ex-campeão de xadrez Garry Kasparov, um constante entra e sai de prisões
e tribunais. Em pouco tempo o desconhecido ex-agente da KGB que
assumira o lugar do ébrio fanfarrão Boris Yeltsin consolidou o poder em
torno de si assim como seus antecessores soviéticos. Putin, aos poucos,
tratou de mostrar que, se a Rússia era a mãe de todos os russos, ele
estava disposto a assumir a figura do pai. Um pai rígido, autoritário,
porém bondoso com o seu povo.
A figura ditatorial, quase czarista, que
Vladimir Putin assumiu não é a única característica que lhe aproxima de
Stalin, como faz crer a anedota que ainda corre pelas ruas de Moscou.
Assim como o líder soviético, Putin é obcecado em fazer da Rússia uma
grande potência, um império que não deve se curvar a nenhuma outra
nação. Filho de um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e neto de um
ex-cozinheiro que preparou almoços e jantares para Lenin e para o
próprio Stalin, Putin foi criado sob a grandiosidade, ainda que apenas
aparente em seu final, do império soviético. Não foram raras as vezes em
que o presidente russo se referiu ao fim da União Soviética como “a
maior tragédia geopolítica do século 20”.
Desconfiança As reações de Putin à crise
ucraniana são reflexo direto dessa maneira russa de ver o mundo dividido
entre grandes potências, cada uma com sua área de influência própria.
Geograficamente, historicamente e culturalmente, a Ucrânia, em especial a
província autônoma da Crimeia, faz parte dessa grande área de
influência russa, que remonta às antigas fronteiras soviéticas e do
grande império dominado pelos czares. É uma fronteira que se estende do
Mar Negro e do Mar Báltico ao Estreito de Bering, já na fronteira
marítima com os Estados Unidos, e do Ártico Siberiano aos desertos da
Ásia Central. Para Putin, as questões envolvendo a Ucrânia são como
questões domésticas russas, em que não cabe a ninguém, nem mesmo à
vizinha União Europeia, se intrometer.
Putin, assim como seus antecessores
soviéticos, nutre uma permanente e, por vezes, quase paranoica,
desconfiança dos interesses ocidentais em suas áreas de influência. Os
Estados Unidos, como seria de se esperar de um ex-espião que tinha como
principal objetivo obter informações sobre as ações da Otan (Organização
do Tratado do Atlântico Norte), são a maior fonte de melindre. Em uma
entrevista concedida ao correspondente da “Time” em Moscou, quando
recebeu o título de homem do ano pela revista americana “Adi Ignatius”,
Putin afirmou claramente: “Nós queremos ser amigos da América, mas a
impressão que temos algumas vezes é de que a América não precisa de
amigos, apenas de auxiliares subalternos para comandar”.
CONTROLE
A Rússia assumiu o controle da Crimeia sem disparar um tiro
Ao longo dos últimos 15 anos no poder,
Putin passou a assumir um papel cada vez mais divergente da posição
americana nas discussões geopolíticas mundiais. Apesar de todo o apoio
dado ao país após o ataque de 11 de setembro, condenando veementemente
as organizações terroristas, Putin foi um crítico duro da decisão
americana de invadir o Iraque, assim como decidiu não se aliar às
pressões dos Estados Unidos para que o Irã suspendesse seu programa
atômico. Num ato que enfureceu os americanos, Putin chegou a fornecer
combustível nuclear aos aiatolás e a fechar fartas vendas de armamentos
para o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Mais recentemente,
Putin assumiu, novamente, um papel antagônico aos Estados Unidos, ao
defender abertamente o presidente sírio, Bashar al-Assad, na guerra
civil que trava em seu país contra um conjunto heterodoxo de opositores.
Na força Nesta década e meia no poder Putin
afastou-se rapidamente dos ideais democráticos defendidos pelo ocidente
e aos quais garante, ainda, defender, para se aproximar da maneira
histórica como a Rússia foi governada pelos últimos cinco séculos. A
democracia nunca foi exatamente popular naquela região em que a Europa e
a Ásia se unem. Mesmo com todas as denúncias de abuso de poder, ações
claramente ditatoriais, corrupção e desrespeito aos direitos humanos, a
popularidade de Putin só faz crescer na Rússia. Venceu as últimas
eleições com folga e as pesquisas de opinião apontam que o
descontentamento com seu governo é minoritário. “Sou o quarto homem mais
popular da história russa. O primeiro é Stalin, o segundo é Lenin, o
terceiro é Pedro, o Grande”, diz ele, citando pesquisas de opinião
realizadas por institutos ligados ao governo. Ele, novamente, buscou
inspiração nos antigos líderes soviéticos para construir uma imagem de
homem íntegro, forte e decidido. Assim como Stalin, investiu no culto à
sua personalidade e, não raro, faz questão de aparecer para a população
sem camisa, caçando na Sibéria, ou todo paramentado jogando hóquei no
gelo.
Pesquisas e eleições na Rússia não obedecem
tal e qual as regras realizadas em democracias consolidadas. Mas, ainda
assim, é impossível discordar da popularidade de Putin. As
demonstrações de apoio popular com as medidas tomadas pelo governo na
Ucrânia, sejam elas passeatas em Simferopol, na Crimeia, ou na Praça
Vermelha, em Moscou, ainda que patrocinadas pelo Kremlin, são uma prova
de seu prestígio.
Para entender a ascensão de Putin como um
grande líder nesta Rússia do século 21, é preciso compreender os efeitos
que o débâcle do império soviético causou nesse país de mais de 140
milhões de habitantes. Por mais de uma década, entre a queda do Muro de
Berlim, em 1989, e a saída do beberrão Yeltsin, os russos enfrentaram um
duro período de privações, sejam elas econômicas, políticas ou morais.
Putin chegou ao poder decidido a recolocar a Rússia no centro do jogo
geopolítico como uma grande potência. Independentemente dos caminhos que
escolheu traçar, uma coisa não se pode negar: a Rússia de Putin hoje
fala de igual para igual com qualquer potência mundial. A bandeira
tricolor tremulando nos mastros da Crimeia é a maior prova disso.
Fotos:
Stéphane Lavoué,AP Photo/RIA Novosti, Alexei Druzhinin, POOL, file; AP
Photo/RIA Novosti, Alexei Druzhinin, Government Press Service, file; AP
Photo/RIA Novosti, Dmitry Astakhov, Government Press Service, file; AP
Photo/Vadim Ghirda
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