Barbárie brasileira
Cenas chocantes de violência no Maranhão são resultado de dois fenômenos devastadores: a expansão do crime organizado para todo o País e a inépcia da família que governa o Estado há 45 anos
Josie Jeronimo
A cenas pavorosas de violência no
Maranhão provocaram revolta e perplexidade, mas elas são acima de tudo o
retrato de um velho fenômeno brasileiro: o crime organizado detentor de
poderes sem limites. Mais do que isso: a criminalidade brutal ilustra a
inépcia das autoridades. Elas falharam em conter, na década de 70, o
aparecimento das primeiras facções em presídios do Rio, organizações que
mais tarde se alastraram para as carceragens paulistas e depois, como
uma epidemia, chegaram a inúmeros Estados. Tudo isso às vistas de
governos de diversas colorações partidárias. Diversos fatores podem ser
atribuídos à escalada da violência, mas o poder público, que deveria ser
o escudo contra a criminalidade, teve um papel decisivo na disseminação
do fenômeno. A estratégia de espalhar líderes do crime organizado para
cárceres no Brasil inteiro não enfraqueceu as facções, como imaginaram
os gestores da segurança, mas possibilitou a elas criar ramificações. O
resultado está aí, nas imagens grotescas vindas do Maranhão.
O Maranhão revelou-se campo fértil para criminosos graças ao estilo
peculiar de seus governantes. Em 2002, a candidatura presidencial de
Roseana Sarney foi implodida pela descoberta de R$ 1,3 milhão em
dinheiro vivo no cofre de uma empresa de São Luis, a Lunus, propriedade
de sua família e de um empresário local, Luiz Carlos Cantanhede Nunes.
Uma décadas depois, Cantanhede encontra-se no centro do colapso do
sistema de segurança pública. Sempre amigo da família, é dono da
Atlântica Segurança Técnica, empresa que já embolsou R$ 22,4 milhões do
governo Roseana para prestar serviços terceirizados ao sistema
carcerário. A abastada Atlântica não impediu a rebelião que produziu 59
mortos na penitenciária de Pedrinhas.
A família do ex-presidente José Sarney governa o Maranhão há 45 anos.
Num Estado onde o culto à dinastia está em toda parte, vive-se sob um
regime senhorial de poder sem paralelo no Brasil. O patriarca José
Sarney chegou pela primeira vez ao governo
de seu Estado nomeado pelos
militares, em 1966. Desde então, a família asfixia a crítica e o debate a
partir de um monopólio nas comunicações, com seis emissoras de tevê,
dez de rádio e o jornal de maior circulação. Hoje, como ontem, o Estado
continua nos últimos lugares nas estatísticas que medem o bem-estar da
população brasileira.Nesse mundo fechado, a rebelião dos criminosos encarcerados em Pedrinhas produziu horrores, entre eles corpos dilacerados e decapitados. Atacados por bandidos que cumpriam ordens de chefes de bando instalados no interior do presídio, cidadãos das ruas de São Luis passaram dias tentando escapar de chamas no interior de ônibus. Nem todos conseguiram fugir. Uma menina de 6 anos, Ana Clara Santos Souza, morreu com 90% do corpo queimado, depois de sua mãe implorar aos criminosos que poupassem suas vidas. Na semana de labaredas humanas e cabeças cortadas, viveu-se uma típica situação de Maria Antonieta, a célebre rainha fora do mundo que, quando o povo foi às ruas de Paris protestar pela falta de pão, recomendou que comesse brioches: a governadora Roseana lançou uma licitação de R$ 1,3 milhão para a cozinha do Palácio dos Leões, que inclui, entre outras iguarias, 80 quilos de lagosta.
HORROR
O velório de Ana Souza, 6 anos, vítima do incêndio no ônibus; suspeitos de
incitarem a onda de violência; e policiais diante do Complexo Penitenciário de
Pedrinhas (da esq. para a dir.): o crime se organizou graças ao Estado omisso
Como já acontece nos Estados do Sul, no Maranhão o tráfico de drogas já é hoje a principal causa da prisão de mulheres e a violência avança em escala crescente: o número de homicídios aumentou 61% nos últimos três anos. Nesse ambiente, ninguém tem paz, nem o secretário de Segurança, um veterano policial, Aluísio Mendes, grande amigo da família, obviamente. Mendes costuma deslocar-se pela cidade sob a proteção de vários círculos de guarda-costas, num espetáculo que causa estranheza e temor e que os brasileiros só costumam ver em filmes sobre a guerra perdida de policiais contra traficantes na fronteira do México com os Estados Unidos.
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