Abrir-se para a onda
Para o cientista político e professor Giuseppe Mario Cocco, protestos
de professores no Rio de Janeiro mostram a força das mobilizações de
junho
22/10/2013
Patrícia Benvenuti
da Redação
Cenário
de algumas das mobilizações mais intensas ocorridas em junho, o Rio de
Janeiro voltou a registrar, em outubro, protestos de grande proporção.
Se naquele momento a redução das tarifas era a motivação principal,
dessa vez o mote é o apoio aos professores da rede municipal de ensino,
em greve desde 8 de agosto.
A mobilização mais intensa, até o
momento, ocorreu em 7 de outubro – dias depois de os docentes serem
duramente reprimidos pela Polícia Militar.
Convocado pelas redes
sociais – característica comum dos eventos de rua deste ano – o ato
reuniu milhares de pessoas que, além de cobrar melhorias na educação,
protestavam contra a violência das polícias.
A solidariedade aos
professores cariocas se estendeu para São Paulo, onde estudantes
organizaram uma manifestação pelo centro da capital paulista.
Em ambas as cidades, os protestos terminaram com repressão, prisões e criminalização dos manifestantes.
Para
o cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ) Giuseppe Mario Cocco, a magnitude do ato em apoio aos
professores no Rio de Janeiro é reflexo da força das mobilizações que
eclodiram em todo o país na metade do ano. “É uma movimentação de
categoria, mas que se faz na brecha aberta pelo movimento de junho”,
afirma.
Em entrevista ao Brasil de Fato, ele
fala sobre o poder da internet na conjuntura atual e a necessidade de
abertura nos movimentos organizados e critica a atuação do governo
federal.
“Em vez de se aproveitar esse momento como uma brecha
para a radicalização democrática está se aproveitando para ir em direção
a um Estado de exceção”, diz.
Brasil
de Fato – Depois da mobilizações massivas em junho, o Rio de Janeiro
voltou a registrar, nas últimas semanas, mobilizações que reuniram
milhares de pessoas, desta vez em apoio aos professores da rede
municipal. Esses novos protestos, na sua opinião, são uma continuidade
do movimento iniciado em junho ou fazem parte de um novo contexto?
Giuseppe Mario Cocco – O
movimento dos professores se constitui em uma continuidade dos
movimentos de junho, veio naquela onda e tem todas as características,
como a massificação. Quando os professores se mobilizaram o fizeram de
uma maneira tradicional, com passeatas, organizados a partir do carro de
som do sindicato, com uma dinâmica que não era aquela do movimento de
junho. Mas de repente a mobilização não encontrou nenhum espaço de
negociação junto aos poderes públicos, nenhuma mediação por parte da
Prefeitura e foi se radicalizando. A partir da ocupação da Câmara
Municipal passou a ser algo diferente, dialogando diretamente com o
levante da multidão. É uma luta da categoria que acabou sendo uma luta
da cidade. É uma movimentação de categoria, mas que se faz na brecha
aberta pelo movimento de junho que, em particular no Rio de Janeiro,
teve uma continuidade praticamente diária.
| O cientista político e professor da UFRJ Giuseppe Cocco. Foto: Gabinete Digital/Governo do Rio Grande do Sul |
Qual a influência da internet e, principalmente, das redes sociais nesse processo de mobilizações?
O
papel da internet é fundamental. No caso dos professores, por exemplo:
eles ocuparam a Câmara, foram despejados de maneira violenta, e isso foi
transmitido por um sem número de pessoas [na internet]. A decisão da
mídia de apresentar apenas o que ela quer, de evitar a notícia, não
funciona mais.
Temos a possibilidade de ver ao vivo, ou logo
depois, reproduções de imagens, fotos, vídeos, depoimentos, que permitem
uma verdadeira democratização do evento.
Além disso, hoje uma
organização não tem mais que fazer uma plenária, compor com outras,
chamar para uma manifestação. Um evento pode se produzir e reproduzir
sem passar por nenhuma mediação, é uma coisa que acontece de maneira
horizontal e virtual. A internet e as redes, de forma geral, não são uma
opção: são a nossa condição de vida e de trabalho. Nós trabalhamos
entre as redes e as ruas, e os movimentos também se organizam e se
articulam entre as redes e as ruas. Há uma articulação entre a
comunicação que acontece pela internet e a mobilidade dentro da
metrópole, não é por acaso que o movimento começou dentro da metrópole,
em função do transporte.
Que lições os movimentos organizados de esquerda podem tirar desses protestos?
A
primeira [lição] é que nenhuma das formas tradicionais de organização,
sejam elas partidárias, sindicais ou de movimentos organizados, sabe
lidar com essa nova dinâmica. O movimento de junho é uma bifurcação, já
estava presente de maneira muito menor nas margens, mas a partir de
junho virou um movimento capaz de uma ação potente. Se dizia também que
era um movimento que não tinha liderança, organicidade, objetivos. Isso é
errado: na realidade o que nós assistimos é que é um movimento capaz de
ter lideranças, organicidade e objetivos, só que eles são internos à
sua própria dinâmica, sem separação entre o processo e o resultado. A
partir dessas considerações é que tem que se escutar, estudar, se abrir a
essa dinâmica.
A segunda lição, portanto, é entender antes de
fazer críticas ou constatações de desqualificação, de apologia, até
criminalizadoras às vezes. A terceira lição é que as formas
representativas, sobretudo os partidos, quando participam de algum
momento da dinâmica de governo, ou se abrem para a onda entrar ou vão
ser deslegitimados.
Parece-me que o partido do governo, o PT,
não entendeu nada. Está optando pela repressão e só, com alguns
exercícios retóricos, e eu acho que isso vai criando um problema para
2014. Não estou dizendo que isso necessariamente vai se transformar em
uma derrota eleitoral da eventual candidata do PT para as eleições
presidenciais, mas acho que está mudando a significação do pleito.
A
postura deveria ser de se abrir, de negociar, sobretudo de se
distanciar dessa relação pragmática com a direita no Rio de Janeiro.
Todos os movimentos organizados, inclusive os partidos que têm um mínimo
de sensibilidade com relação à democracia, deveriam usar a potência do
movimento para abrir momentos assembleares, chamar todo mundo para
discutir e, se estão no governo, abrir espaços para a participação real.
Mas usar as redes para novas formas de participação e não para fazer
consultas eletrônicas como o Gabinete Digital do Rio Grande do Sul, do
governo Tarso [Genro]. É uma proposta de experimentar formas de
democracia em rede que se reduz fundamentalmente a uma consulta em torno
de temas fechados.
Democracia em rede não é isso, é uma
participação em rede é capaz de determinar, mudar e produzir as pautas.
Implica em uma abertura muito mais radical. Mas fazer isso significa
abrir mão de querer dirigir, de mandar, precisa se abrir para dinâmicas
que sejam de baixo para cima.
A partir de junho não adianta
dizer que a sociedade não está mobilzada, que todas as mediações e
limitações dos governos e as coalizões das quais participa – estou
falando das forças de esquerda – não podem ir além de certo limite
porque a sociedade é despolitizada. Agora é porque o pessoal não quer.
Algumas
das mobilizações mais massivas têm ocorrido depois de episódios de
repressão violenta das polícias. Você acredita que a repressão policial
tem sido um “estopim” nesses casos?
A repressão da
polícia tem dimensões diferentes. A brutalidade da polícia nas
manifestações não só em São Paulo e no Rio, mas em todo o Brasil, só foi
massificando a participação nas manifestações seguintes. E isso se
renovou no Rio, com a manifestação dos professores e a truculência do
governo do Rio, que tem sinal verde do governo federal. Mas tem outro
tipo de repressão que usa o Estado e as leis de exceção. As prisões de
dois jovens em São Paulo [enquadrados na Lei nº 7.170, conhecida como
Lei de Segurança Nacional], as operações que a Polícia Federal está
realizando no Rio de Janeiro com prisões de anarquistas, esse é outro
tipo de repressão que passa pela criminalização.
Não é mais a
truculência generalizada da tropa de choque, é a criminalização com a
participação eventual de setores da magistratura e que usa a lei a
partir das determinações do Executivo.
Aí começa uma situação na
qual o nível de radicalidade vai crescendo, não tem negociação, tem
massificação, aí vem a mídia, aliada do governo... O governo federal usa
o apoio que a mídia conservadora dá para fazer essas operações que
tentam enquadrar esses garotos [Black Blocs] como se fossem
crime organizado. É um arbítrio geral, ainda mais no Brasil onde a gente
sabe que crime organizado é outra coisa.
A gente lê nas páginas
dos jornais as relações espúrias entre os poderes constituídos e as
milícias, isso para falar do Rio de Janeiro. Nunca vi usar a lei de
Força de Segurança Nacional para reprimir a polícia que mata e que
tortura. Aparentemente, torturar o Amarildo não é um atentado contra o
Estado, quebrar um caixa eletrônico sim.
Quais as perspectivas para as grandes mobilizações no Brasil, na sua avaliação?
Acho
que ninguém sabe, nem aqueles que estão mais envolvidos com a própria
dinâmica do movimento. Por enquanto a coisa está acontecendo no Rio de
Janeiro, o episódio dos professores mostra que o movimento está lá, que
uma greve de categoria acabou se transformando em mais um episódio de
movimento de multidão. Então todo novo conflito que ocorrer no Rio de
Janeiro tem a tendência de se integrar nessa dinâmica de uma nova versão
entre as redes e as ruas, mas ninguém sabe como isso pode acontecer.
Antes
a gente tinha uma agenda positiva, a dos megaeventos, e que agora está
funcionando no sentido oposto, portanto o horizonte é que o carnaval e a
Copa do Mundo se tornem momentos de mobilização. Aliás, esse sinal
verde do governo federal para os governos autoritários do Rio de Janeiro
e essa determinação de reprimir e de fazer o conflito agora é porque
eles querem pacificar a Copa do Mundo. Não sei se a repressão vai ser
eficaz ou não, o que sei é que para a democracia não é nada positivo.
Em
vez de se aproveitar esse momento como uma brecha para a radicalização
democrática está se aproveitando para ir em direção a um Estado de
exceção, e isso para a Fifa organizar os jogos e a Ambev vender cerveja.
Eu estou preocupado e todos os movimentos progressistas deveriam estar.
O PT está perdendo definitivamente a sua alma. Falo do PT não como
partido, mas como partido de governo. As mediações que ele fez ao longo
desses anos, os desvios e os pragmatismos, não são nada em comparação ao
que está optando em fazer agora.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/26414
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