Clube Militar critica editorial “mea culpa” de O Globo
Decepção
“Declarar agora que se tratou de um 'equívoco' é mentira deslavada”, diz entidade que reúne oficiais da ativa e ex-militares e promove comemorações da “revolução” todo 31 de março
Clube Militar, entidade que reúne oficiais da ativa da marinha, do
exército e da polícia (e também ex-militares), soltou nestaquarta-feira 4
de setembro uma nota oficial " Nossa Opinião - Equívoco, uma ova!", condenando o editorial “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”, divulgado pelo jornal O Globo
no último dia 31 de agosto. O texto do veículo da família Marinho
afirmava que “as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História,
esse apoio [ao golpe militar] foi um erro”.
O Clube Militar reagiu com firmeza: “o apoio ao Movimento de 64
ocorreu antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango;
em segundo lugar, não se trata de posição equivocada “da redação”, mas
de posicionamento político firmemente defendido por seu proprietário,
diretor e redator chefe, Roberto Marinho, como comprovam as edições da
época”.
E foi além: “não foi, também, como fica insinuado, uma posição
passageira revista depois de curto período de engano, pois dez anos
depois da revolução, na edição de 31 de março de 1974, em editorial de
primeira página, o jornal publica derramados elogios ao Movimento; e em 7
de abril de 1984, vinte anos passados, Roberto Marinho publicou
editorial assinado, na primeira página, intitulado “Julgamento da
Revolução”, cuja leitura não deixa dúvida sobre a adesão e firme
participação do jornal nos acontecimentos de 1964 e nas décadas
seguintes.”
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Abaixo, a íntegra da nota do Clube Militar:
Nossa Opinião - Equívoco, uma ova!
Numa mudança de posição drástica, o jornal O Globo acaba de
denunciar seu apoio histórico à Revolução de 1964. Alega, como
justificativa para renegar sua posição de décadas, que se tratou de um
“equívoco redacional”.
Dos grandes jornais existentes à época, o único sobrevivente carioca
como mídia diária impressa é O Globo. Depositário de artigos que relatam
a história da cidade, do país e do mundo por mais de oitenta anos,
acaba de lançar um portal na Internet com todas as edições
digitalizadas, o que facilita sobremaneira a pesquisa de sua visão da
história.
Pouca gente tinha paciência e tempo para buscar nas coleções das
bibliotecas, muitas vezes incompletas, os artigos do passado. Agora,
porém, com a facilidade de poder pesquisar em casa ou no trabalho, por
meio do portal eletrônico, muitos puderam ler o que foi publicado na
década de 60 pelo jornalão, e por certo ficaram surpresos pelo apoio
irrestrito e entusiasta que o mesmo prestou à derrubada do governo
Goulart e aos governos dos militares. Nisso, aliás, era acompanhado pela
grande maioria da população e dos órgãos de imprensa.
Pressionado pelo poder político e econômico do governo, sob a
constante ameaça do “controle social da mídia” – no jargão politicamente
correto que encobre as diversas tentativas petistas de censurar a
imprensa – o periódico sucumbiu e renega, hoje, o que defendeu
ardorosamente ontem.
Alega, assim, que sua posição naqueles dias difíceis foi resultado de
um equívoco da redação, talvez desorientada pela rapidez dos
acontecimentos e pela variedade de versões que corriam sobre a situação
do país.
Dupla mentira: em primeiro lugar, o apoio ao Movimento de 64 ocorreu
antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango; em
segundo lugar, não se trata de posição equivocada “da redação”, mas de
posicionamento político firmemente defendido por seu proprietário,
diretor e redator chefe, Roberto Marinho, como comprovam as edições da
época; não foi, também, como fica insinuado, uma posição passageira
revista depois de curto período de engano, pois dez anos depois da
revolução, na edição de 31 de março de 1974, em editorial de primeira
página, o jornal publica derramados elogios ao Movimento; e em 7 de
abril de 1984, vinte anos passados, Roberto Marinho publicou editorial
assinado, na primeira página, intitulado “Julgamento da Revolução”, cuja
leitura não deixa dúvida sobre a adesão e firme participação do jornal
nos acontecimentos de 1964 e nas décadas seguintes.
Declarar agora que se tratou de um “equívoco da redação” é mentira deslavada.
Equívoco, uma ova! Trata-se de revisionismo, adesismo e covardia do último grande jornal carioca.
Nossos pêsames aos leitores.
Fonte: Carta Capital
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