Escândalo
Alckmin, demos e populus
Ao anunciar a ação judicial contra a Siemens, Alckmin
quer evitar o questionamento sobre a participação tucana no esquema e
se auto-absolver, sem que os cidadãos paulistanos percebam
por Wálter Maierovitch
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publicado
14/08/2013 14:24
Tamires Santos / Governo de SP
Nos bancos acadêmicos aprendi uma velha e definitiva lição. Nas democracias, o comando é do povo.
A palavra grega demokratia, como todos sabem, é composta por ´demos´, que quer dizer povo, e kratos,
a significar ‘poder’. Por isso, e na melhor conceituação, significa
‘poder do povo’, ou seja, regimes e sistemas políticos nos quais é o
povo que comanda.
O problema é como atribuir poder ao povo. No velho berço de
Atenas, com cerca de 30 mil habitantes, tínhamos a democracia direta.
Assim mesmo, impunha-se uma odiosa exclusão às mulheres. Elas não
participavam das assembleias, a tornar imperfeito, por vício de origem, o
sistema.
Segundo Aristóteles, ‘demos’ eram os pobres, enquanto, para os marxistas, o povo era o proletariado.
Com o passar do tempo, consolidou-se a democracia
representativa e o princípio de maioria limitada e moderada. Trocado em
miúdos, a maioria tem o direito de governar mas com respeito aos
direitos da minoria.
Colocado isso, soa diversionismo barato e marquetagem de quinta
categoria o pronunciamento do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin
(PSDB). O governador Alckmin disse que irá, por meio de ação judicial
contra a empresa multinacional Siemens, postular indenização (dano
emergente e lucro cessante) por ter essa empresa denunciado e confessado
participação em licitação fraudada nas implantações de linhas do metrô
paulistano. No fundo, uma maracutaia, segundo informado, consumada nos
governos tucanos, desde Covas-Alckmin e a passar por José Serra, que
sempre se apresenta em panos de Varão de Plutarco mas já está
identificado como tartufo.
Duas colocações, no particular. O povo está legitimado, pelo
seu representante na chefia do governo (Alckmin), a buscar indenização
pelos prejuízos. Só que o povo (leia-se também cidadão paulista) também
está legitimado a buscar a responsabilização dos seus representantes
que, ainda não se sabe se dolosamente ou por incompetência, permitiram
as ‘maracutaias’.
Mais ainda, ainda não se sabe nada sobre o preço da corrupção,
ou melhor, se foi para engordar carteiras e bolsos ou se para fazer
caixa para campanhas eleitorais tucanas. Alckmin, ao anunciar a ação
judicial, quer evitar o questionamento sobre a participação de todos os
governadores nesse esquema. Ele quer se auto-absolver, sem que os
cidadãos paulistanos percebam.
No direito administrativo, está patente que os secretários do
governador são apenas agentes da sua autoridade. Todos os secretários de
Alckmin e Serra agiam, atuavam, por delegação. Se abusaram e
trapacearam por conta própria, fica claro que o (s) governador (res) foi
inepto nas escolhas e fiscalizações.
Como se percebe, o governo Alckmin é pródigo no exercício de
uma ética ambígua, que, certamente, seria reprovada pelo santo Josemaria
Escrivá de Balaguer. E não se trata, como se informou ter acontecido no
passado, de acordos com o chefão do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Refiro-me, agora, às declarações de que o governo Alckmin não vai
rescindir os contratos com a Siemens e referentes a outras obras. Com
efeito, a Siemens foi ‘bandida’ apenas em certa e determinada obra. Para
as demais, não é bandida.
Num pano rápido, está patente a ética ambígua de Alckmin pois a
Siemens, depois de admitir participação criminosa e os seus
responsáveis livraram-se em face do instituto da delação premiada,
continuará, por contratos cujo princípio básico é a confiança recíproca,
a participar das realizações do governo Alckmin.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br
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