Pegadinha ruralista
Trabalhador resgatado em carvoaria no Pará. Foto: © Greenpeace/Marizilda Cruppe
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou no dia
27 a chamada PEC do Trabalho Escravo, a emenda constitucional que
permite o confisco de propriedades rurais e urbanas flagradas com
prática de trabalho em condições análogas à escravidão.
No entanto, a boa notícia sobre a medida, que tramita há 14 anos,
deve ser vista com ressalvas: a bancada ruralista pretende
descaracterizar o conceito de trabalho escravo. Isso porque a aprovação
só foi possível com a futura organização de uma comissão de deputados e
senadores para decidir o que configura trabalho escravo e regulamentar
como será o processo judicial de expropriação.
Eles argumentam que não há uma definição clara sobre o tema, apesar
de o artigo 149 do Código Penal tratar do assunto. De acordo com ele, a
prática envolve trabalhos forçados, jornadas exaustivas e condições
degradantes, entre outros.
Baseado nesses princípios, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e
a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH-PR)
faz um cadastro de empregadores flagrados explorando mão de obra em
condições análogas à escravidão. A chamada lista suja foi atualizada no
último dia 28 e trouxe a inclusão de 142 empregadores, entre eles oito
políticos. Ao todo, o cadastro reúne 504 nomes e é atualizado
semestralmente desde 2003.
Em 2012, o governo federal definiu a PEC do Trabalho Escravo como
prioridade, mas só as recentes mobilizações populares conseguiram criar o
clima para sua aprovação. Porém, ao invés de contribuir para extinguir
de vez essa prática, os ruralistas deram uma resposta dúbia à sociedade.
Ao mesmo tempo em que essa aprovação é um passo à frente, a forma como
ela será regulamentada poderá significar muitos outros para trás.
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