Levanta o povo charrua
Era
uma fria manhã de 1834 na bela Lyon. Enquanto a cidade amanhecia, com
seus odores de pão fresco e gentes malcheirosas, um homem jovem andava
ligeiro pela rua ainda vazia. Carregava nos braços um bebê. Vestia-se
pobremente e volta e meia olhava para trás, esperando ver soldados. Os
poucos transeuntes não sabiam, mas ali ia um valente cacique charrua,
chamado Tacuabé. Carregava a filha da também charrua Guyunusa que, como
ele, fora aprisionada na região da Banda Oriental (hoje Uruguai), e
remetida a Paris, como um bicho raro. Eram quatro os índios levados para
a França: Tacuabé, de 23 anos, Vaimava, um velho cacique, Senaqué, um
conhecido pajé charrua e Guyunusa. Obrigados a se apresentarem em circos
pelos arredores de Paris, sofrendo maus tratos e saudosos de sua terra,
os charrua foram morrendo um a um. O primeiro foi Senaqué, que definhou
de tristeza, depois o velho Vaimaca. Guyunusa, com pouco mais de 20
anos, tomada pela tuberculose, morreu em Lyon, deixando um bebê que se
acredita fosse filha de Vaimaca. Obteve de Tacuabé a promessa de que a
garota haveria de ser livre. E assim, tão logo ela fecha para sempre os
olhos, o jovem charrua decida escapulir do circo, levando com ele a
menina. Os historiadores nunca acharam o rastro do cacique e da menina
charrua, mas, se sobreviveram é possível que hoje o sangue charrua
também corra em alguma família aparentemente francesa. Porque se ser
charrua é ser valente, não há dúvidas de que Tacuabé conseguiu garantir a
vida, dele e da menina, naqueles longínquos e tristes dias.
Quem eram os charrua
Corria
o ano de 1513 quando Juan de Solis chegou ao Rio da Prata e isso
marcaria para sempre a vida dos povos que ali viviam desde há séculos. O
povo charrua era uma gente aguerrida que habitava as pradarias do que
hoje é o Uruguai, a pampa argentina e parte do Rio Grande do Sul.
Chamado de vale do rio Uruguai essa era uma região de coxilhas e muitas
pradarias, espaço de ventos intensos tanto no verão como no inverno.
Além da gente charrua e do povo minuano, dividiam o espaço as capivaras,
ratos do banhado, pecaris, veados, jaguatiricas e o mítico ñandu (a
ema).
Já em 1526, o espanhol Diego Mogger relata em suas cartas
sobre esses indígenas que eram vistos de longe, observando e sendo
observados bem na entrada do Rio da Prata. Os espanhóis descreviam os
charrua como uma gente moreno-oliva, de estatura média, pomo de adão
saliente, dentes bons, rosto largo, boca grande e lábios grossos. Os
homens usavam cabelo bem comprido, muito lisos, e tinham por costume
amputar um dedo da mão. Já os minuano eram um pouco mais baixos, de fala
baixa, melancólicos e igualmente acobreados. Durante todo o processo de
ocupação do território do que hoje é o sul da América Latina eles se
mantiveram à distância, porque seu espaço era o interior e tantos os
espanhóis quanto os portugueses preferiam se radicar nas margens do mar
ou dos grandes rios. Mesmo assim, desde a chegadas dos invasores muitas
foram as escaramuças, principalmente com os charrua. Desde o ano de 1573
já é possível encontrar relatos de lutas com os espanhóis.
Eles
viviam como grupos seminômades, em acampamentos estáveis, ora aqui, ora
ali, seguindo o ritmo das estações. Caçavam e plantavam coletivamente
num território que, depois da invasão, ficou durante mais de dois
séculos como fronteira não demarcada entre Espanha e Portugal. Era visto
pelos invasores como “terra de ninguém”. Mas, ao contrário do que
poderiam crer os que chegavam da Europa, aquele era um espaço já há
centenas de anos ocupado não só pelos Charrua mas também pelos povos
Minuano, Tapes, Chaná e até Guarani. Ainda assim, apesar das lutas
esporádicas, os originários eram ignorados. "Sem alma", diziam os
padres. Assim, para os europeus, Joãos e Marias ninguém.
Só que,
na verdade, esses povos já tinham desenvolvido uma cultura. Tinham uma
organização comunitária e eram regidos por um conselho da aldeia. As
tarefas eram definidas, os homens caçavam e as mulheres cuidavam dos
toldos que lhe serviam de abrigos. Desenvolveram tecnologias eficazes
para a caça como é o caso da boleadeiras, instrumento usado para
derrubar os ñandus e bichos maiores. Já cozinhavam a carne e produziam
vasos de barro escuro, os quais serviam para uso doméstico.
Reverenciavam as forças da natureza e acreditavam na ressureição, uma
vez que seus mortos eram enterrados com todos os seus objetos pessoais,
para uso na outra vida. No verão andavam nus, no inverno se ungiam com
gordura de peixe e usavam peles de animais. As mulheres usavam uma
espécie de fralda de algodão, hoje conhecida como xiripá, chamado por
eles de cayapi. Os homens usavam uma vincha (faixa de pano) na testa.
Toda a organização girava em torno do núcleo familiar. Um homem quando
queria se casar fazia o pedido ao pai da moça e já montava sua tenda. A
comunidade não tinha hierarquia, tampouco chefe, tudo era decidido no
conselho. Presos de guerra não eram escravizados, viravam família e se
integravam na vida da comunidade. Todo grupo tinha uma mulher velha que
cuidava da saúde. O grupo tinha por costume se reunir no cair da noite
para planejar o dia seguinte, mas nada era imposto. Era um povo livre e
essa forme de viver iria, três séculos mais tarde, encantar o jovem
Artigas, que seria um dos libertadores nas guerras de independência.
A ocupação espanhola
A
vida dos charrua começaria a mudar radicalmente a partir de 1607 quando
os espanhóis introduzem o gado bovino e equino na região e, como as
pradarias não tinham fim, os animais se espalhavam chegando a gerar
imensos rebanhos selvagens chamados de “cimarrón”. Tão logo conheceram o
cavalo, os charrua se encantaram com a beleza, a velocidade e a
docilidade dos mesmos. Trataram de aprender a lidar com eles e em pouco
tempo era exímios cavaleiros, imbatíveis no lombo nu dos velozes
cimarrón. Nas batalhas, eles se agarravam às crinas e permaneciam
deitados de um lado, praticamente invisíveis aos inimigos. Por algum
motivo não sabido, charrua e cavalo passaram a ser quase como uma só
criatura.
Por outro lado, foi justamente o crescimento
exponencial do gado bovino o responsável pelo fim da mal arranjada paz
no território charrua. Como a carne e o couro eram artigos disputados
pelo comércio da época, a região que antes era dominada pelos indígenas
passa a receber levas de faeneiros (a mando dos espanhóis) e
changueadores (aventureiros) que buscavam arrebanhar o gado selvagem
para a venda aos ingleses. Essa mistura com a gente europeia e criolla
vai enfraquecendo o já frágil domínio que os charrua tinham sobre o
território da campanha. Também é nessa época que ficam mais acirradas as
relações com a gente branca que começava a adentrar para o interior,
cercando terras e fazendo-as suas.
Em 1626 é a vez da chegada dos
jesuítas que começam a criar missões para aldear os índios. O objetivo
era domesticar e converter. Os guarani foram mais suscetíveis ao
discurso e a ação dos jesuítas, mas os charrua não quiseram nem saber.
Eram homens e mulheres livres, acostumados aos caminhos da pampa e não
houve quem pudesse prendê-los, ainda que com discursos de salvação. Diz a
história que chegou a existir uma pequena redução charrua, em torno de
500 almas, mas não durou mais que quatro anos. Os charrua prezavam a
liberdade e, acossados pela invasão branca, acabavam por realizar
operações de saque nos povoados, em busca do fumo e da erva-mate. Por
conta disso a relação com os colonizadores se acirrava cada vez mais.
Naqueles dias começavam a surgir as estâncias, e o gado deixava de ser
solto nas pradarias, sendo recolhido em grandes currais. Assim, os
animais livres escasseavam e os indígenas perdiam sua fonte de
sobrevivência, passando a viver em estado de miséria. Sem terra, sem
gado e sem comida, só restava o roubo.
Para os espanhóis e
criollos que começaram a ocupar as terras da Banda Oriental, aquela
"indiarada" começou a ser um problema e tanto. Era preciso
exterminá-los. Foi nesse contexto que aconteceu a famosa "batalha de Yi"
em 1702, quando os espanhóis decidiram encerrar a aliança que mantinham
com os charrua e os minuano, e resolveram matar todo mundo. Para isso,
de forma perversa, contaram com a ajuda dos guarani, os quais já
mantinham aldeados há anos. E o resultado foi que mais de 200 charrua
pereceram sob o exército de dois mil guarani. Outros quinhentos, levados
como prisioneiros para as missões, foram assassinados pelos tapes,
também orientados pelos jesuítas e chefes espanhóis. Era o que os
espanhóis chamavam de "limpeza dos campos". Na metade do século muitos
tinham sido passado pela faca e as mulheres e crianças mandadas a Buenos
Aires e Montevidéu servindo como domésticas. Ainda assim, vários grupos
resistiram e seguiram vagueando pelos campos, vivendo de contrabando de
gado e roubo.
Artigas, os charrua e a independência
São
esses valentes que o jovem José Artigas vai encontrar nas cercanias das
terras onde vivia com os pais, na imensidão da campanha gaúcha. Desde
bem guri ele fugia para as tolderias e aprendia com os charrua o valor
da vida em liberdade. Aprendeu suas táticas de guerra, sua cultura, sua
forma comunitária de viver. Quando então, finalmente, saiu de casa para
não mais voltar, foi viver de aventuras como contrabandista de gado.
Abdicando de ser um “filho de fazendeiro” era com os irmãos charrua que
ele vagueava pelos campos na única rebelião possível naqueles dias:
pegar os espanhóis pelo bolso. Em 1897, quando decide entrar para o
batalhão de Blandengles, Artigas já tem muito claro os seus objetivos.
Inspirado por tantas lutas que assomaram contra o domínio espanhol,
Artigas decide que, junto com os negros e índios – os mais explorados
entre os explorados – vai comandar a luta pela independência da Banda
Oriental.
E é assim que as coisas acontecem. O soldado Artigas
não é um soldado qualquer. Ele pensa e propõe. Tem do seu lado uma leva
de homens livres que o seguem de livre vontade. Não como um líder, mas
como a um irmão. Acreditam nele e nos seus desejos de vida digna, de
terra repartida, de vida comunitária. Esse legado, aprendido com os
charrua, é o que vai comandar toda a proposta artiguista de libertação. E
é na valentia indígena que acontece a primeira grande batalha de
Artigas, na comunidade de Las Piedras, em 1810. Armados apenas de facas,
os comandados de Artigas colocam para correr os soldados bem armados da
coroa. Depois disso, são inúmeras as páginas da guerra, com Artigas e
seu grupo de índios e negros, aos quais chamava de “povo de heróis”. Com
eles, praticava a política da soberania popular e da autodeterminação,
gestando uma consciência de classe, de pertencimento, que se manteve
firme até o massacre final. Nos acampamentos comandados por Artigas
todas as coisas eram discutidas abertamente, cada soldado, cada mulher,
cada ser, tinha direito a voz e voto. Era essa gente que deliberava,
Artigas apenas cumpria. No primeiro grande êxodo, quando o povo seguiu
com ele pelo lado norte do rio Uruguai, Artigas chegou a criar uma
entidade sociológica, a qual dizia obedecer. Era o “povo oriental em
armas”. Nunca traiu os seus companheiros e com eles levou a Banda
Oriental à liberdade.
Mas, a história da libertação desta parte
do sul do mundo tem também os seus traidores, que acabaram sendo os
carrascos de Artigas e dos charrua. Logo depois da independência, os
interesses da elite criolla foram se consolidando e “aquela gente suja”
que andava com Artigas acabou virando uma pedra no sapato. Ninguém
queria que as ideias de reforma agrária, democracia e autodeterminação
vingassem por ali. A revolução artigista representava uma transformação
radical nos métodos e práticas de governo. A prioridade era a ação
direta do povo. As comunidades elegiam seus representantes de forma
livre e era nas assembleias que se discutiam os temas relevantes da
nação. Este sistema foi cunhado como o “sistema dos povos livres”. Pela
primeira vez, depois da conquista europeia, o território voltava a ser
das gentes. E a proposta defendida por Artigas era tão avançada que ele
conseguia manter unidos os povos originários e os descendentes espanhóis
sob o mesmo desejo: criar uma pátria nova, livre, soberana, onde cada
um tivesse o mesmo poder. Era coisa demais para as elites locais e para
os que sonhavam em dominar a região, rica em carne e couro.
Foi
aí que começou a se gestar o processo de destruição de Artigas e de seu
povo. Através de intrigas e difamações, o comandante é escorraçado do
Uruguai, partindo para o exílio no Paraguai. Com ele seguem dezenas de
famílias charrua, decididas a compartilhar sua derrota. Mas, outros
tantos permanecem no território uruguaio e passam a ser vistos como um
perigo em potencial. Eram homens livres e não haveriam de aceitar a
perda das terras e de todo o ideário construído com Artigas. O
presidente da nação recém-criada, Fructuoso Rivera decide então chamar
os charrua para uma armadilha.
Corre o ano de 1831, num cálido
abril, quando Fructuoso envia convites a todas as tolderias charrua para
um encontro em Salsipuedes. Pede a ajuda dos indígenas para defender as
fronteiras contra os portugueses. Os charrua acorrem, solícitos, em
defesa da pátria oriental, a qual aprenderam a amar como sua. Eles
chegam, armam seus toldos e esperam pelo presidente. Ele nunca chegaria.
Durante a noite, enquanto os indígenas dormem, o exército ataca. A
ordem é matar todo mundo. Nenhum charrua deve sair vivo. O que se vê na
manhã seguinte é um banho de sangue. O povo charrua está exterminado.
Os poucos que restam vivos são vendidos como escravos. A nova nação se
vê livre do incômodo: o valente povo charrua que, na verdade, foi o
protagonista da liberdade.
Entre os “escravos” levados para
Montevidéu seguem Vaimaca, Senaqué, Tacuabé e Guyunusa, que dois anos
mais tarde são levados como “bichos de circo” para a França. Subsumidos
como criados e perdidos de sua liberdade o povo charrua originário do
Uruguai vai se apagando, até deles não restar mais vestígios. Alguns
poucos homens que sobrevivem ao massacre de Salsipuedes, comandados pelo
cacique Sepé atravessam o rio Uruguai pela cidade de Quaraí, e passam
para o lado português, indo, mais tarde, se integrar às colunas do
exército farrapo que iniciou a luta pela independência na região do Rio
Grande do Sul. Misturados aos minuanos e tapes, eles irão escrever
páginas gloriosas no chão brasileiro, mas, igualmente derrotados, também
desaparecem na poeira da história.
O fim?
Até
o final do século XX era dado como certo que o povo charrua era uma
gente extinta. Dela restava só a memória daqueles anos longínquos da
independência. Mas, pouco a pouco, pessoas foram se deparando com suas
raízes, descobrindo seus ancestrais. Descendentes da gente charrua que
passou para o Paraguai com Artigas, do grupo que cruzou o rio Uruguai e
veio para o Brasil, dos que sobreviveram como escravos ou empregados
domésticos. A história charrua voltou a ser contada, palavras da língua
original começaram a ser lembradas e a vida brotou. O povo charrua foi
assomando nos descendentes e hoje já são milhares os que se
autodenominam assim. Há uma organização do povo charrua no Uruguai e
outra no Rio Grande do Sul. Não há um território específico sendo
reivindicado ainda, mas já se sabe que no início de 1900 havia um
pequeno grupo fixado na região de Tacuarembó, no Uruguai, bem como
atualmente há um grupo vivendo em comunidade próximo à Porto Alegre.
Para
os descendentes o mais importante agora é recuperar a história. O povo
do Uruguai precisa saber que só é livre porque um dia o povo charrua se
levantou em armas, junto com Artigas, e defendeu as fronteiras ajudando a
criar a nação. O povo do sul precisa saber que os charrua foram
enganados, massacrados, mas ainda assim deixaram viva a sua marca. Não é
sem razão que na entrada de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a
estátua que representa a cidade é uma figura que é um misto de paisano e
charrua. O famoso “laçador”, apesar de um semblante bem paisano,
aparece com o xiripá, a vincha na testa e a boleadeira, elementos
típicos da cultura charrua.
E, hoje, já na metade da primeira
década do século vinte e um, os charrua se levantam e se mostram. Tanto
que no dia 9 de novembro de 2007, após uma luta que já durava 172 anos, a
Câmara Municipal de Porto Alegre reconheceu a comunidade charrua como
um povo indígena brasileiro. Considerado extinta pela Fundação Nacional
do Índio (Funai), essa foi uma vitória fundamental. O evento foi
organizado em conjunto pelas comissões de Direitos Humanos da Câmara
Municipal, da Assembleia Legislativa e do Senado Federal.
Há
informações de que existem mais de seis mil charrua nos países que
compõem o Mercosul. Só no Rio Grande do Sul, são mais de quatrocentos
índios presentes nas localidades de Santo Ângelo, São Miguel das Missões
e Porto Alegre. A terrível sentença de Fructuoso Rivera não se cumpriu.
O povo que dominava todo o território da Banda Oriental não foi
exterminado. Ele vive e avança!
Elaine Tavares é jornalistaFonte: http://www.brasildefato.com.br/node/14489
Nenhum comentário:
Postar um comentário