Duas visões: A resposta de Dilma à crise política
Até aliados governistas colocaram em xeque a viabilidade do plebiscito para a reforma política
A proposta inicial levantada por Dilma, de uma Assembleia Constituinte, foi descartada por razões constitucionais
Wilson Dias/ABr
Questionamentos à viabilidade do plebiscito proposto por Dilma Rousseff
lançam dúvidas quanto à resposta dada pela presidente para a crise
política criada pela onda de protestos nas ruas do País.
Na última semana, até aliados governistas colocaram em xeque a
viabilidade do plebiscito para a reforma política; isso depois de a
proposta inicial levantada pelo governo, de uma Assembleia Constituinte,
ter sido descartada por razões constitucionais.
A reação da presidente foi adequada para aplacar a crise? Qual o ônus
político desses empecilhos? A oposição conseguirá capitalizar em cima do
atual clima político?
A BBC Brasil entrevistou dois analistas com visões diferentes sobre esses temas.
Professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade
de São Paulo, José Álvaro Moisés avalia de maneira bastante crítica as
respostas de Dilma às manifestações e as ações tomadas pelo governo com
relação à proposta de reforma política.
Diretor científico do Núcleo de Pesquisas de Políticas Públicas da USP e
secretário Nacional de Apoio à Cultura durante o governo Fernando
Henrique Cardoso, Moisés avalia que o Executivo agiu com "incompetência"
ao propor a constituinte sobre reforma política e o plebiscito.
Já a historiadora Maria Aparecida de Aquino, professora da USP e do
Mackenzie, acredita que o atual desgaste vivenciado pelo governo será
compartilhado com o Congresso, que ela vê como ineficiente em um momento
de "extrema gravidade para o país".
Ela defende a proposta do plebiscito, argumentando que a consulta
popular permitiria ao Brasil "ter uma experiência de democracia direta"
até maior do que em um referendo (caso em que o Congresso definiria
regras da reforma e só depois a população as aprovaria ou não).
Confira as duas entrevistas
BBC Brasil: O vice-presidente Michel Temer anunciou na última
quinta-feira que o plebiscito a respeito da reforma política poderia não
ser realizado a tempo de ter efeito para as eleições de 2014, mas
depois recuou. Antes, a presidente já havia voltado atrás da ideia de se
fazer uma Constituinte exclusiva sobre a reforma política. Na avaliação
do senhor, a presidente pode ter ônus eleitorais e políticos com estas
idas e vindas?
José Álvaro Moisés: Eu acho que, em primeiro lugar,
ela teve inúmeros ônus eleitorais com os movimentos que ocorreram no mês
de junho. Primeiro, foi uma coisa inesperada para o governo. Nem o
setor de inteligência foi capaz de prever. O governo reagiu de maneira
extremamente ruim, a meu juízo, demonstrou uma enorme incompetência.
Primeiro propondo uma constituinte que a Constituição não permite.
Depois propôs esse plebiscito. Consulta popular, na experiência
internacional, não é só o fato em si. Consulta popular é um pacote que
envolve a consulta e meses de preparação. Por exemplo, o Estado
americano da Califórnia adota muito a consulta, inclusive a partir de
solicitação dos próprios eleitores. Quando as pessoas pedem a consulta, a
regra é que deve haver no mínimo 150 dias para fazer a campanha e
esclarecer os objetos da consulta. Ela (a presidente Dilma Rousseff) fez
um negócio inicial imaginando que poderia resolver em um mês e meio.
Então eu acho que vai ter ônus sim. Tudo isso vai ter ônus, porque ficou
muito focado nela, ela reagiu mal, reagiu que nem barata tonta. Se é
para fazer com mais tempo, na experiência internacional, o mecanismo
adequado é não é plebiscito, é referendo.
BBC Brasil: Alguns analistas veem algo positivo nesta ideia da
presidente de consultar a população diretamente, já que as recentes
manifestações demonstraram que existe uma grande desconfiança da
população com as instituições políticas, como partidos e o Congresso.
Qual a avaliação do senhor?
José Álvaro Moisés: Eu acho que é negativo. A
população tem razões fortes para ter uma desconfiança do Congresso.
Conduzi várias pesquisas sobre isso no Brasil, (em que) 82% desconfiam
dos partidos e 79% desconfiam do Congresso Nacional. A população tem
razões para isso, as instituições estão funcionando mal. Mas quem tem
liderança, principalmente no regime democrático, ao invés de acentuar a
crise, tem que adotar medidas para revalorizar os partidos e o
Congresso. Uma maneira de Dilma mostrar que o Congresso e os partidos
poderiam estar recuperando as suas funções, portanto corrigindo as suas
distorções e déficits, seria dizer: "Cabe ao Congresso tomar essas
decisões e nós vamos pedir que ele rapidamente examine essa questão". O
Brasil tem uma tradição de cultura política em que tudo é muito
concentrado no Executivo. Há uma tradição que dá pouca importância às
instituições de representação, principalmente os partidos e o
Parlamento. No processo de construção da democracia, quem tem liderança
democrática, ao invés de agravar essa cultura política deficitária, tem
que, pelo contrário, chamar a atenção para o outro lado. Uma maneira de
você renovar é dar responsabilidade, se você retira responsabilidade do
Congresso e dos partidos, você diminui ainda mais o prestígio dessas
instituições.
BBC Brasil: Há pouco mais de um mês, nós tínhamos um quadro
aparentemente bastante definido para as eleições de 2014. Essa crise
toda terá um impacto nas eleições do ano que vem?
José Álvaro Moisés: Sem dúvida. Na verdade, todas as
demonstrações e os movimentos trouxeram à tona uma insatisfação muito
grande de um segmento da população com o funcionamento da democracia.
Não é que as pessoas não gostem da democracia ou não queiram a
democracia, elas estão criticando o funcionamento, principalmente das
instituições de representação e, nesse contexto, o governo está sendo
contestado. O governo foi contestado fundamentalmente no que diz
respeito à sua capacidade de gestão de alguns serviços públicos
fundamentais, principalmente saúde, educação e segurança pública. Vai
ter repercussões. Como vão ser essas repercussões, é difícil, é muito
cedo ainda para prognosticar. Os movimentos terminaram recentemente e
podem voltar em curto espaço de tempo se não sentirem que as suas
reivindicações e suas pressões tiveram resultado. Mas que vai ter
impacto, vai. Em um certo sentido já afetou. Veja que o Datafolha fez
uma pesquisa com participantes de manifestação (e) a Dilma Rousseff
aparece lá em baixo na lista de candidatáveis à Presidência. Apareceu em
primeiro lugar o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim
Barbosa, e, em segundo lugar, a (ex-senadora) Marina Silva. Esse
deslocamento mostra que aquilo que três meses atrás parecia estar
absolutamente certo, a reeleição, está completamente incerto neste
momento.
BBC Brasil: Na avaliação do senhor, a oposição soube capitalizar de alguma forma esses protestos?
José Álvaro Moisés: Não soube. Eu acho que a oposição,
com exceção da Rede, de Marina Silva, que desde o começo se manifestou
solidária com os movimentos, também está bastante burocratizada no
Brasil. O presidencialismo de coalizão, de uma maneira geral,
burocratiza a política. Burocratiza tanto os partidos que fazem parte da
coalizão como burocratiza a oposição. Não podemos dizer que de uma
maneira consistente nós temos oposição no Brasil. A oposição foi
progressivamente perdendo identidade e perdendo força. Pode ser que
venha a se recuperar agora, com uma maior atividade do PSDB e com uma
presença maior, em escala nacional, do possível candidato Aécio Neves.
Pode ser, mas isso não está garantido. Nada garante que efetivamente a
oposição vai ocupar esse espaço, pelo menos essa oposição, do PSDB. E
veja que um dos nomes que tinha surgido e estava muito ativo na mídia,
que era o (governador de Pernambuco) Eduardo Campos, eu não ouvi uma
palavra do Campos sobre a crise. Quer dizer, a oposição aparentemente
não tem o que dizer, está dentro do mesmo barco no qual o governo está
envolvido, que é, a meu juízo, a estrutura do presidencialismo de
coalizão. O Executivo tem muitas prerrogativas no Brasil, o Legislativo
tem poucas prerrogativas. Há um desequilíbrio nessas relações e isso se
reflete sobre a importância dos partidos, que progressivamente entraram
em uma lógica exclusiva de fazer política burocrática para se manter no
poder, mas perderam completamente o contato com a população. Você não vê
os partidos nem da oposição nem da situação dialogando com os
estudantes nas universidades, com os cientistas, com os intelectuais,
com as mulheres... Ou seja, os partidos estão desligados. A única lógica
que está presidindo a ação dos partidos é chegar ao poder e se manter
no poder, fazer qualquer coisa para se manter no poder, inclusive se
afastar da população. Receberam o troco nos movimentos, nos protestos.
BBC Brasil: Há algum ônus político para a presidente Dilma
Rousseff por conta da não realização da Assembleia Constituinte e pelas
indas e vindas envolvendo o plebiscito da reforma política?
Maria Aparecida de Aquino: Não há dúvida de que
representa desgaste e de que, para uma autoridade, ser submetida a um
desgaste desses não é positivo. Num primeiro momento, houve a proposta
(da Constituinte), que foi recusada; num segundo momento, uma série de
obstáculos foram colocados (ante) a presidente. Mas nada que não possa
ser ultrapassado. E se há desgaste da autoridade, na mesma medida a
responsabilidade é do Congresso, que não está aceitando os
encaminhamentos feitos pelo Executivo. Pode-se achar que quem está se
desgastando é exclusivamente é a chefe do Executivo, mas a percepção
sobre o Legislativo não é agradável, já que, num momento de extrema
gravidade do país, (os congressistas) buscam firulas na lei e relutam em
encaminhar (a pauta proposta pelo governo). BBC Brasil - A presidente
soube ouvir as vozes das ruas? Maria Aparecida de Aquino - Na realidade
ela esboçou uma reação, que é algo positivo. Mas as revindicações são
muito amplas e implicam em (processos) que podem ser demorados. A
proposição dos cinco pontos (quando Dilma propôs um pacto por
transporte, educação, saúde, reforma política e combate à corrupção)
buscam atender algumas prioridades, mas o grande drama dela - e força ao
mesmo tempo - é que não são reivindicações que representem apenas este
momento, são reivindicações ancestrais do Brasil. Mas a reformulação de
um setor como o dos transportes não é uma coisa tão simples. Ao mesmo
tempo em que há validade nas reivindicações, é preciso que haja
consciência de que elas são de solução relativamente lenta. Algumas
medidas foram tomadas para atacar alguns pontos, mas (são problemas) de
médio prazo.
BBC Brasil: Alguns aliados foram contra a Assembleia, por
razões constitucionais, e o plebiscito. Há perigo de que aumente o
isolamento entre Dilma e o Congresso?
Maria Aparecida de Aquino: Desde os governos FHC e
Lula, costuma-se dizer: "Ah, se possui maioria no Congresso, consegue
aprovar seus projetos". Vemos que na realidade não é tão simples assim.
Teoricamente há uma base aliada que daria maioria confortável à
Presidência. Mas na prática, em questões centrais e colocadas no sentido
inverso - postas não da classe política à população, mas da população à
política -, algo a que (os políticos) não estão habituados ou que
venham a alterar o jogo político, vemos que não é tão simples assim.
BBC Brasil: O fato de a presidente propor um plebiscito num
momento de insatisfação popular é um passo adiante? Ou contribui para
criar atrito com partidos e o Congresso?
Maria Aparecida de Aquino: Acho que sim (é um passo
adiante). Por conta das manifestações, muito se fala em democracia
direta. Essa é uma estratégia de vivenciá-la, de trazer uma
possibilidade, em um país grande, de termos uma experiência de
democracia direta, na medida do possível - não a democracia da praça,
que é inviável para uma grande nação, mas sim uma forma de chamar a
população a opinar. Me parece um avanço, mais ainda do que seria um
referendo, que dependeria primeiro da discussão (acontecer) no âmbito do
Congresso para depois ser submetida à população. O plebiscito avançaria
mais (do que um referendo), porque veio do clamor popular - (se
concretizado), sairá da população para então ser submetido ao Congresso.
Estaria de acordo com o jogo das ruas e invertendo o jogo comum da
política. O risco de atrito (com políticos) sempre existe. Mas diante da
realidade, de a população estar na rua, é preciso que se criem novas
regras. Há um certo conforto por parte dos políticos e do Congresso,
encastelados e afastados em Brasília, mas o jogo está invertido. É
preciso criar novas regras e prioridades, algo que pode ser difícil, mas
que terá de ser estabelecido diante da urgência (imposta pelas
manifestações).
BBC Brasil: A oposição soube capitalizar em cima desse momento de desgaste?
Maria Aparecida de Aquino: Até pode haver
capitalização para as próximas eleições. Mas não conseguimos perceber,
por enquanto, se quem está dentro do jogo político, como o PSDB, ou
entrando no jogo, como Marina Silva, conseguiria capitalizar de modo
imediato. Só teremos condição de entender isso com clareza quando a
situação se delinear de fato (com a aproximação das eleições de 2014).
Marina e Joaquim Barbosa (presidente do STF que, apesar de não ser
candidato, aparece bem colocado em pesquisas de intenção de voto)
teoricamente estão ganhando mais do que a presidente, que perdeu (pontos
medidos por pesquisas de aprovação). Mas não sabemos como isso vai
evoluir. Não tenho dúvidas de que haverá impacto nas eleições. Tínhamos
um cenário que estava aparentemente definido. Hoje, esse cenário está em
franca modificação. Ainda falta clareza para saber quem ganhou e quem
perdeu.
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