De que lado samba o papa?
Duas imagens ainda se confundem. A do papa Francisco,
com gestos de humildade e simplicidade, e a do então cardeal de Buenos
Aires, Jorge Mario Bergoglio, cúmplice da ditadura argentina, acusado de
envolvimento no sequestro de bebês e de colegas jesuítas
Rejane Hoeveler,
do Rio de Janeiro (RJ)
Num
contexto de graves crises ligadas a escândalos sexuais e financeiros no
Vaticano – que levaram à renúncia do ultraconservador Joseph Ratzinger
(Bento XVI) – a escolha de Jorge Mario Bergoglio, cardeal de Buenos
Aires, para ser o novo papa tem a intenção clara de dar uma “cara nova” à
última monarquia absolutista da Europa.
Dessa
vez, a Igreja se volta claramente para a América Latina, continente com
maior número de fiéis católicos do mundo, mas que, além disso, tem
vivido um contexto de forte ativação política e social. Em meio a
governos que se apresentam como progressistas ou mesmo socialistas, como
os da Bolívia e Venezuela, é evidente que a atuação do papa
latino-americano tem um papel político.
Independentemente
do caráter real desses governos, é fato que surgem em meio a movimentos
políticos de massas, em geral com um sentido anticapitalista,
apresentando-se como alternativa ao projeto neoliberal.
Neste
cenário, o Brasil, além de ser o país com o maior número de católicos,
era, até então – ao menos antes das chamadas “jornadas de junho” – o
país mais “calmo” da região, apresentado como exemplo de “estabilidade”
face ao que tem sido chamado de bolivarianismo.
“Papa dos pobres”?
Assim
que Bergoglio foi escolhido papa, toda a grande mídia internacional
passou a construir uma imagem de um papa “simples” e “humilde”, que
“dispensa luxos” – parece esquecer que, ainda assim, é o administrador
de uma das maiores fortunas do mundo, beneficiária de diversos
privilégios que ferem frontalmente o princípio da laicidade do Estado
(com ativos que ultrapassam 5 bilhões de dólares, sem contar obras de
arte e construções de valores os quais é impossível estimar).
Alguns
importantes expoentes do pensamento cristão crítico, e inclusive
ligados historicamente aos movimentos sociais, como Leonardo Boff e Frei
Betto, depositaram esperanças na escolha do argentino. E a própria
escolha do primeiro latino-americano foi saudada por parte desses
setores como sinal de uma mudança dentro da Igreja.
Recentemente,
Boff inclusive chegou a ligar algumas posturas do novo papa à Teologia
da Libertação, embora tenha admitido que ele nunca foi ligado a esta
corrente de esquerda, que teve influência muito importante numa América
Latina sacudida por golpes militares.
Mas, será
mesmo Francisco “o papa dos pobres”? Será que atitudes como dispensar
uma suíte, almoçar no refeitório dos funcionários, e trocar a cruz de
ouro pela de prata são demonstrações suficientes de uma “opção pelos
pobres”, tal como vem sendo propagandeado?
Antes de ser Francisco
É
preciso ir além das aparências. Pois seria mero detalhe o fato de que
seus patrocinadores sejam conglomerados capitalistas como Bradesco,
Santander, Estácio, Nestlé, TAM, Itaú e McDonald’s? – este último,
aliás, lanchonete oficial do evento apesar de desrespeitar
sistematicamente os direitos trabalhistas de seus funcionários?
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Jorge Mario Bergoglio - Foto: Stella Calloni/La Jornada |
Para
tanto, há de se levar em conta como o atual “bispo de Roma” atuava
politicamente enquanto cardeal de Buenos Aires. Em 2010, foi líder de
uma frente conservadora contra a aprovação da união civil entre
homossexuais – classificada por ele como um “projeto do diabo”.
Opositor
ferrenho da descriminalização do aborto, Bergoglio é defensor assíduo
do velho conservadorismo que relega à mulher um papel de submissão e que
condena a homossexualidade. Do ponto de vista moral, portanto,
representará uma continuidade das posições conservadoras da Igreja
Católica. Além disso, Bergoglio sempre teve ligações com a oposição de
direita aos governos Kirchner, tendo inclusive se comprometido
explicitamente com o recente paro agrário – um lockout patronal,
realizado por grandes proprietários de terra para pagar menos impostos,
“denunciando” supostas articulações dos governos de Néstor e Cristina
Kirchner com o “chavismo”, encarado por este setor como adversário
político.
Em sua defesa, Boff argumenta que o
cardeal de Buenos Aires teria se indisposto com Cristina porque teria
lhe cobrado “mais empenho político para a superação dos problemas
sociais”.
Cumplicidade com a ditadura
O
passado político de Bergoglio tem ainda outras obscenidades. Segundo os
historiadores Gilberto Calil e Marcos Vinícius Ribeiro, “a cumplicidade
com a ditadura foi compartilhada por toda a alta hierarquia católica
argentina (o que naturalmente não exime a responsabilidade individual de
cada bispo)”.
Uma das denúncias partiu de Estela
de la Cuadra, irmã de Helena, uma militante grávida de cinco meses que,
sequestrada pela ditadura, teve sua filha roubada de dentro de uma
delegacia.
Estela é uma das fundadoras das Avós
da Praça de Maio, organização fundada para encontrar descendentes de
militantes e dissidentes da ditadura militar argentina, que tiveram seus
filhos raptados pelo Estado e dados a outras famílias, naquele que é um
dos maiores dramas da história recente na Argentina.
A
um tribunal encarregado de julgar esse caso, Bergoglio disse que só
teria tido notícia dos sequestros muitos anos depois. Todavia, segundo
Estela, Bergoglio foi procurado logo após o sequestro, e na ocasião, ele
teria dito que a criança “estava com uma boa família, que cuidaria
muito dela”.
O “Movimento de Famílias Cristãs”,
diretamente subordinado à Igreja, esteve fortemente envolvido com a
distribuição de bebês de militantes e dissidentes presos ou mortos na
Argentina, e são inúmeras as comprovações de que toda a cúpula da Igreja
argentina colaborou com o golpe militar de 1976, que levou ao poder o
general Videla.
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Bergoglio, então cardeal, conversa com a presidenta argentina Cristina Kirchner - Foto: Reprodução |
O sequestro de dois jesuítas
Porém,
a denúncia talvez mais notável, proveniente de vários religiosos
argentinos, se refere à cumplicidade de Bergoglio no caso de Francisco
Jalic e Orlando Yorio – dois padres pertencentes à ordem dos jesuítas,
que realizavam trabalhos de alfabetização e assistência na periferia de
Buenos Aires, estes sim fortemente influenciados pela Teologia da
Libertação.
Em março de 1976, foram expulsos por
Bergoglio da ordem dos jesuítas e da Igreja sob a justificativa de
conflito de obediência – o que, além de deixá-los totalmente
desprotegidos, ainda justificava possíveis perseguições posteriores.
Dois
meses depois disso, os padres foram sequestrados e torturados por meses
na Escola Superior da Marinha (ESMA), um dos maiores centros de tortura
da ditadura argentina. Bergoglio teve que responder na justiça pelas
acusações formais sustentadas por Graciela Yorio, irmã de Orlando,
segundo a qual, depois do sequestro, os dois padres teriam pedido ajuda a
Bergoglio, o qual, porém, se recusou a sequer falar sobre o assunto.
Para
ela, não há dúvidas que Bergoglio esteve envolvido no sequestro.
Horácio Verbitsky, reconhecido jornalista e um dos mais conhecidos
estudiosos da ditadura argentina, revelou uma série de documentos que
incriminam Bergoglio em mais de uma ocasião (acessível em http://iglesiaydictadura.wordpress.com/tag/bergoglio/).
Convite indecente
Quando
as denúncias em relação ao passado do novo papa saíram na imprensa
internacional, nem Bergoglio nem o Vaticano deram explicações. Segundo
Calil e Ribeiro, “ao mesmo tempo em que repudiava as denúncias contra
Bergoglio como obra da ‘esquerda anticlerical’, o Vaticano enviava um
convite para a cerimônia de coroação do papa Francisco a Carlos Pedro
Blaquier, dono do engenho Ledesma, processado pelo sequestro e
desaparecimento de 29 dirigentes sindicais e trabalhadores de sua
empresa durante a ditadura”.
O convite enviado a
ele ainda dizia: “Representas um dos setores mais pujantes do país, que
fez esta revolução agrícola e industrial, modelo internacional e celeiro
para o mundo”. É muito simbólico que um dos convidados de honra do novo
papa seja, além de latifundiário, um dos empresários mais fortemente
ligados à ditadura argentina.
Na Igreja,
Francisco é apontado como capaz de promover uma conciliação entre
“progressistas” e conservadores; aqui, trata-se de promover a
conciliação social e política. Como diz a música, o papa pode até “ser
pop”, mas ainda restam muitas dúvidas se realmente, ao deixar Bergoglio
para trás, o papa está ao lado do povo explorado e oprimido ou daqueles
que governam este mundo desigual e opressor. E enquanto isso, segue
solta a Santa Inquisição das manifestações.
Foto: Tânia Rêgo/ABr
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/14459
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