Entidades médicas: curso de 8 anos "favorece exploração de mão de obra"
Entidades
médicas nacionais divulgaram uma nota na qual condenam o programa Mais
Médicos, que oferece bolsas de R$ 10 mil para que esses profissionais da
saúde atuem em locais carentes de atendimento, anunciado nesta
segunda-feira pelo governo federal. O programa reafirma a possibilidade
de vinda de médicos estrangeiros ao Brasil. As entidades criticam também
o anúncio de que os estudantes de medicina, de faculdades públicas e
privadas, terão que trabalhar dois anos no SUS antes de conseguir o
registro definitivo - o que eleva a duração do curso para oito anos.
A medida, segundo as instituições, "favorece a exploração de mão de
obra".
“Nos próximos dias, deverá ser feito o questionamento
jurídico da iniciativa do Governo Federal, o qual contraria a
Constituição ao estipular cidadãos de segunda categoria, atendidos por
pessoas cuja formação profissional suscita dúvidas, com respeito a sua
qualidade técnica e ética”, dizem as entidades.
A nota é assinada pelo Conselho Federal de Medicina
(CFM), Associação Médica Brasileira (AMB), Associação Nacional dos
Médicos Residentes (ANMR) e Federação Nacional dos Médicos (Fenam). Veja
o documento a seguir, na íntegra.
Carta das entidades médicas aos brasileiros
A dificuldade de acesso da população aos serviços de saúde configura preocupação recorrente das entidades médicas brasileiras. É inaceitável que nosso país, cujo Governo anuncia sucessivos êxitos no campo econômico, ainda seja obrigado a conviver com a falta de investimentos e com a gestão ineficiente no âmbito da rede pública. Trata-se de quadro que precisa ser combatido para acabar com a desassistência.
A dificuldade de acesso da população aos serviços de saúde configura preocupação recorrente das entidades médicas brasileiras. É inaceitável que nosso país, cujo Governo anuncia sucessivos êxitos no campo econômico, ainda seja obrigado a conviver com a falta de investimentos e com a gestão ineficiente no âmbito da rede pública. Trata-se de quadro que precisa ser combatido para acabar com a desassistência.
Neste processo, as entidades apontam como
fundamentais a adoção de medidas profundas, que elevarão o status do
Sistema Único de Saúde (SUS) ao de um modelo realmente eficaz,
caracterizado pela justiça e a equidade. Sendo assim, assumem alto risco
a adoção das medidas anunciadas, as quais não observam a cautela
imprescindível ao exercício da boa medicina.
As decisões anunciadas pelo Governo demonstram a
incompreensão das autoridades à expectativa real da população. O povo
quer saúde com base em seu direito constitucional. Ele não quer medidas
paliativas, inócuas ou de resultado duvidoso. O sonho é o do acesso a
serviços estruturados (com instalações e equipamentos adequados) e
munidos de equipes bem preparadas e multidisciplinares, inclusive com a
presença de médicos, enfermeiros, dentistas, entre outros profissionais.
A vinda de médicos estrangeiros sem aprovação no
Revalida e a abertura de mais vagas em escolas médicas sem qualidade,
entre outros pontos, são medidas irresponsáveis. Apesar do apelo
midiático, elas comprometerão a qualidade do atendimento nos serviços de
saúde e, em última análise, expõem a parcela mais carente e vulnerável
da nossa população aos riscos decorrentes do atendimento de
profissionais mal formados e desqualificados.
Outro ponto questionável da medida se refere à
ampliação do tempo de formação nos cursos de Medicina em dois anos.
Trata-se de uma manobra, que favorece a exploração de mão de obra. Não
se pode esquecer que os estudantes já realizam estágios nas últimas
etapas de sua graduação e depois passam de três a cinco anos em cursos
de residência médica, geralmente em unidades vinculadas ao SUS.
Também não se pode ignorar que o formato de
contratação de médicos - sem garantias trabalhistas expressas, com
contratos precários e com uma remuneração não compatível com a
responsabilidade e exclusividade – são pontos que merecem críticas. Em
lugar desse caminho, o Governo deveria ter criado uma carreira de Estado
para o médico, dando-lhe as condições estruturais para exercer seu
papel e o estimulo profissional necessário para migrar e se fixar no
interior e na periferia dos grandes centros.
Diante do cenário imposto, as entidades médicas
reafirmam sua posição crítica com relação aos pontos anunciados por
entender que todas carecem de âncoras técnicas e legais Nos próximos
dias, deverá ser feito o questionamento jurídico da iniciativa do
Governo Federal, o qual contraria a Constituição ao estipular cidadãos
de segunda categoria, atendidos por pessoas cuja formação profissional
suscita dúvidas, com respeito a sua qualidade técnica e ética.
A reação das entidades expressa o inconformismo de
parcela significativa da sociedade e serve de alerta às autoridades que,
ao insistir em sua adoção, assume total responsabilidade pelas suas
consequências. Entendemos que o Governo atravessa momento ímpar, com
condições de fazer a revolução real e necessária dentro do SUS. Contudo,
deve evitar a pauta imediatista e apostar no compromisso político de
colocar o SUS em funcionamento efetivo.
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