A frase é de um titular da seleção
espanhola com quem conversei longos minutos nesta sexta, em Fortaleza.
Como consegui conversar por muitos minutos com o cara? Bom, é que o
elevador não chegava!
A cena foi surreal. Havia muita gente no
lobby do hotel esperando pela Espanha, eu calculo umas 50 pessoas. Havia
mais umas 50 do lado de fora. Conforme os jogadores foram entrando,
ninguém pedia foto nem autógrafo. Parecia que as pessoas ficavam
congeladas. Alguns poucos se arriscaram e conseguiram o que queriam.
Entraram
Vicente del Bosque e Iniesta no primeiro dos dois elevadores. Depois,
algumas pessoas que fazem parte da delegação espanhola. Vão-se embora os
dois elevadores. E aí chegam os outros jogadores. Todos. Eles ficaram
mais de 5 minutos esperando pelo elevador, enquanto alguns seguranças
tentavam fazer um cerco e as pessoas tentavam se aproximar. Surreal. A
foto, aqui abaixo, meu flagrante do momento.
O
“desastre” citado se referia a problemas de organização naquele
momento. Não teve tom de desprezo, mas é logicamente algo mais amplo.
Foi um comentário sobre o óbvio desastre que tem sido a logística toda. O
Brasil também quis abrir treino e não conseguiu, Júlio César já pediu
até a retirada do vidro filmado do ônibus da seleção. Já presenciei,
aqui em Fortaleza, um policial fechando o trânsito por 30 minutos para
passar a seleção, gerando caos total e revolta entre as pessoas que
ficaram desnecessariamente paradas. No Recife, o Uruguai não conseguiu
treinar. São várias e várias e várias coisinhas. Parece que a Fifa e COL
sumiram e que está tudo à deriva. É a minha sensação.
O fato é
que o Brasil não está pronto para eventos como este. Não está preparado
porque falta experiência e porque não se preparou mesmo. Quem estava
fazendo “segurança” dentro do hotel da Espanha tem claramente poucos
conhecimentos de segurança. O próprio hotel, que tem quatro elevadores,
poderia ter levado os jogadores para os dois elevadores alternativos,
afastados do público. Os voluntários com quem encontrei pelos estádios,
em sua maioria, não estavam bem preparados. Todos com um sorriso,
melhores das intenções, mas falta conhecimento. Duvido que tenham feito
cursos, treinamentos, etc. Simplesmente largaram essa turma.
Raúl,
um grandalhão que é o chefe da segurança espanhola, conversou comigo.
“Está fogo. Está pior que na África do Sul, por exemplo. É difícil
trabalhar, porque as pessoas envolvidas não têm a experiência de outros
eventos. Tudo é novidade, muito mais se resolvendo no improviso.”
Eu
avisei Raúl que haveria protestos em Fortaleza perto do hotel da
Espanha nesta sexta. “Pois é, o rapaz da polícia comentou comigo. Eles
vão pensar em novos caminhos para desviarmos disso. Acho que não haverá
problemas, você acha?”. Minha resposta para Raúl: “Sei lá”. Eu também
não estou preparado para isso, pensei.
Meu amigo Paco Quiroga, da
rádio Cadena Ser, deu algumas visões interessantes de como um
estrangeiro encara tudo o que está acontecendo no país.
“Para nós,
espanhóis, a maior dificuldade tem sido a comunicação via 3G. Em
algumas cidades, o 3G não funciona direito. No Recife, o 4G foi bem. Em
outros lugares, não. Esse tem sido o maior problema. O idioma não é
complicado para nós, porque falamos espanhol, que é parecido com o
português. Mas alguém que só fale inglês terá dificuldades, isso está
claro. O transporte não tem sido um problema porque vamos sempre juntos
em shuttles para a imprensa espanhola.”
Também quis saber o que
ele achava dos protestos. “Nossa polícia, na Espanha, tem um serviço de
inteligência muito bom. Está acostumada com o terrorismo e com
manifestações, então eles sempre têm uma boa capacidade de se antecipar.
Vai ter manifestação? Eles já sabem quem são os 15, 20, que vão fazer
bagunça. Já pegam esses caras antes ou ficam colados neles. A
manifestação acaba e se dispersa. No Brasil, a polícia parece não saber o
que fazer. E aí reage com violência, a coisa toda vira uma bagunça.
Vocês não estão acostumados com eventos desse porte e com manifestações
grandes, então acho que esse despreparo é que está causando bastante
confusão. Os próprios políticos não estão acostumados a isso, então não
sabem bem como reagir.”
Eu já vi em Madrid, amigos, manifestações
de 2 milhões de pessoas (numa cidade de 3). E que acabaram sem
violência. Aqui no Brasil, são 5 mil aqui, 15 mil ali. E está dando
nisso tudo. O barulho é bastante maior do que o engajamento nessas
bandas.
Os estrangeiros adoram o Brasil. Adoram a comida, a
bebida, as mulheres, somos um país legal de ser visitado. Mas, para quem
trabalha, há coisas que se transformam em stress. Os espanhóis,
jogador, chefe de segurança, jornalista, constatam uma realidade na Copa
das Confederações: o Brasil não está pronto. Nem para o evento e nem
para o que está acontecendo nas ruas. Vai ter que aprender na marra.
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