Seminário no ‘grampo’ contra Lula foi realizado por Folha e Globo
Por Redação, com Viomundo – de São Paulo:
No vazamento seletivo de informações de fonte na Polícia Federal (PF) para o diário conservador paulistano O Estado de S. Paulo,
amplamente difundido nos demais veículos da mídia corporativa ao longo
deste sábado, faltou a informação que o seminário no dia 15 de Junho
último, alvo da escuta realizada por agentes da PF, foi promovido pelo
jornal Valor Econômico, uma empresa conjunta entre as Organizações Globo e a Editora Folha da Manhã, do diário paulistano Folha de S. Paulo.
O interesse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em conversa com
o executivo Alexandrino de Salles Alencar, preso por ordem do juiz
titular da Vara Federal do Paraná, Sergio Moro, na Operação Lava Jato, foi divulgado como um ato suspeito.
Segundo observa o blog Viomundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, a conversa entre Lula e Alencar tratou, basicamente, “de um seminário promovido pelo jornal Valor Econômico
no mesmo dia 15 de Junho: Uma Agenda para Dinamizar a Exportação de
Serviços. Do seminário participaram, entre outros, o presidente da
Odebrecht, o presidente do TCU, Rodrigo Azeredo — diretor do
Departamento de Promoção Comercial e Investimentos do Ministério das
Relações Exteriores — e o “tucano de primeira plumagem” Gianetti da
Fonseca”.
Leia, a seguir, o texto publicado em Viomundo:
O que disse Gianetti no evento?
O economista e sócio da Kaduna Consultoria, Roberto Gianetti da
Fonseca, criticou nesta segunda-feira, (15 de Junho), o caráter
ideológico que passou a envolver as discussões acerca dos financiamentos
públicos às exportações de serviços de engenharia. “Temos de acabar com
essa demonização do financiamento às exportações de serviços”, disse o
economista, ex-secretário de Comércio Exterior do governo FHC. “Que
história é essa de se chegar no Senado e falar mal destes financiamentos
por eles terem sido criados pelos presidentes Lula e Dilma? Isso tem
que se tornar um projeto de Estado”, disse o economista, durante
participação de evento sobre exportações de serviços, em São Paulo.
Ora, se a intenção é dizer que Lula fez lobby pela Odebrecht podemos dizer o mesmo de Gianetti e do próprio Valor Econômico, que promoveu o
seminário e convidou Marcelo Odebrechet para falar?
Quanto ao elogio que Emilio Odebrecht teria feito ao “documento de
vocês”, sublinhado pelo delegado da PF como se fosse algo sinistro,
aparentemente se refere à resposta que o Instituto Lula deu a uma
reportagem da revista Veja que denunciou contribuições de empreiteiras
ao instituto.
Não há nada de extraordinário ali.
Nada mais grave que Fernando Henrique Cardoso ter recebido R$ 500 mil para seu instituto da Sabesp!
O interesse da Odebrecht no assunto é óbvio: a empresa é uma das maiores exportadoras brasileiras de bens e serviços.
Porém, o delegado da Polícia Federal Eduardo Mauat da Silva, em seu
relatório, parece ter lido coisas demais no diálogo. Não é de estranhar:
assim funciona a mente policial.
Às vezes vê coisas onde há. Ou onde não há. Por exemplo? No
relatório, o delegado diz que logo depois da prisão Alexandrino
conversou com Marta Pacheco Kramer, identificada como funcionária do
Instituto Lula. Só que não. Na verdade, ela trabalha para a Odebrecht.
Um erro, vamos dizer, grosseiro!
É justamente por isso que, nos Estados Unidos, nem o FBI nem o
Ministério Público vazam informações de inquéritos em andamento à
imprensa. O risco, além de atrapalhar as próprias investigações, é de
comprometer publicamente pessoas inocentes.
Como em “Marta Pacheco Kramer funcionária do Instituto Lula”. Ou em
Marice, a cunhada do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, que segundo
“prova fotográfica” indiscutível da PF era Giselda, a esposa de Vaccari.
O motivo dos vazamentos do MP e da PF é simples: criar comoção
pública que justifique condenações mesmo sem provas absolutamente
consistentes. É o tal do julgamento midiático, defendido tanto pelo juiz Moro quanto pelos promotores da Lava Jato.
Abaixo, o artigo de Delfim Netto ao qual o ex-presidente Lula faz referência na conversa:
Exportação de serviços e o ‘complexo de vira-lata’
Antonio Delfim Netto, no Valor Econômico:
O Brasil vive o resultado de uma combinação trágica de eventos
gestados pelo governo em 2014 para conseguir a reeleição: 1) um laxismo
fiscal que duplicou o déficit fiscal (6,2% do PIB contra a média de 2,7%
entre 2009 e 2013); 2) um déficit primário de 0,6% do PIB (o primeiro
desde a ida ao FMI no primeiro mandato de FHC); 3) intervenções pontuais
para controlar a inflação, que levaram o setor industrial à regressão
de 1,2% e que 4) deixaram uma inflação “reprimida” da ordem de 2% a 3%; e
5) um aumento da dívida bruta/PIB de 2% (de 56,9% do PIB em 2013 contra
58,9% do PIB).
O mais importante ingrediente da campanha eleitoral foi a
insistência da oposição na necessidade de um “ajuste fiscal”, o que o
governo negou peremptoriamente: tudo estava em “ordem” e, portanto, se
prosseguiria com a mesma política.
Pois bem. Antes mesmo da nova investidura, a presidente
reconheceu implicitamente a realidade. Enviou ao Congresso algumas
medidas que haviam sido preparadas pelo ilustre e mal compreendido
ministro Guido Mantega. Tranquila e dialeticamente, negando a negação, o
governo, como São Paulo na estrada de Damasco, sofreu uma conversão de
180º na sua política econômica.
Os eleitores, tanto os que preferiram Dilma (pouco mais do que
1/3) como os que a rejeitaram (pouco menos de 2/3) receberam, uns com
enorme desilusão, outros com enorme ceticismo, o incontornável “ajuste
fiscal”. E o PT, o principal beneficiário do “desajuste fiscal”, o
recebeu com os dois. A essa gigantesca confusão política somouse a
econômica, o que inibiu uma coordenação sólida e confiável entre o
Executivo e a sua base “virtual”, agora em reconstrução devido à
competência e habilidade do vice-presidente Michel Temer.
Isso deu margem para que, ao lado do aumento do desejável
protagonismo do Legislativo, importante fator de aperfeiçoamento do
processo democrático, se propagassem no Congresso mitos insensatos, como
é o caso, por exemplo, de sugerir que os empréstimos para exportação de
serviços de engenharia do BNDES são um “prejuízo nacional” e expô-lo a
uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Mesmo competente e com a melhor
boa intenção, ela pode prejudicar a significativa exportação de tais
serviços que vimos construindo com paciência e algum sucesso desde 1966.
Não é porque a “transparência” seja má, mas porque nossos
competidores no mercado internacional de serviços de engenharia são a
Espanha, os Estados Unidos, a China, a Alemanha, a França, a Itália e a
Coreia, que estão sempre atentos a qualquer informação que lhes dê
alguma vantagem, inclusive usando os seus serviços oficiais de
espionagem.
É abusivo dizer que o BNDES é uma “caixa preta” e é erro grave
afirmar que deve dar publicidade às minúcias das suas operações, o que,
obviamente, revelaria detalhes dos contratos de seus clientes que seriam
preciosas informações para nossos concorrentes e, portanto, contra o
Brasil. É preciso perguntar por que o ExIm dos EUA não aguenta a
concorrência dos insondáveis subsídios do ExIm chinês, a despeito da
regulação da OMC?
É claro que o BNDES deve “prestar contas” aos órgãos reguladores,
mas sob a proteção do absoluto sigilo. É lamentável que não se entenda
que os recursos do chamado BNDES-Exim não são remetidos para o país
onde se faz o investimento. São usados como pagamentos em reais no
Brasil, para centenas de empresas médias e pequenas, com milhares de
operários, que fornecem produtos “exportáveis”, sem serem diretamente
exportadoras. Elas jamais o seriam se não houvesse um “epecista” que as
estimula e, não raramente, as ajuda a promover a incorporação de
desenvolvimentos tecnológicos exigidos na dura competição internacional.
O pagamento dos serviços, este sim, é em dólares que entram no país.
O Brasil tenta qualificar-se como um exportador de serviços de
engenharia há muito tempo. De acordo com informações internacionais
confiáveis (“Engineering News Record”), ainda ocupamos uma participação
muito modesta no setor: sete vezes menor do que a Espanha, EUA e China e
quatro vezes menor do que a da Alemanha, França e Coreia. Somados,
esses competem com subsídios por 2/3 de um mercado da ordem de US$
550 bilhões por ano.
O desenvolvimento econômico depende de dois vetores: do
investimento e da exportação. Os dois produzem efeitos multiplicadores
parecidos, mas, sem a sólida expansão das exportações, o desenvolvimento
pode ser abortado pelos déficits em conta corrente. A exportação de
serviços de engenharia estimula o investimento nacional e a incorporação
da melhor tecnologia, porque eles têm que estar no “estado da arte”
para vencer a dura competição. Lamentavelmente o saldo dessa conta tem
diminuído. Depois de passar por um máximo de US$ 4,3 bilhões em 2012,
hoje anda às voltas de US$ 2 bilhões, com viés de baixa…
Não há maior afirmação do famoso “complexo de vira-lata” do que
demonizar o suporte do BNDES quando financia despesas em reais que geram
produção e emprego no Brasil e não financia a despesa da instalação
externa. E não há maior miopia do que não enxergar que “exportar é o que
importa”.
Nota oficial do BNDES sobre o grampo
O BNDES lamenta tentativas, na imprensa e em redes sociais, de
manipular e distorcer informações buscando envolver o Banco em algo
supostamente nebuloso a partir da divulgação de um diálogo entre o
ex-presidente Lula e um executivo da Odebrecht. A conversa não faz
referência direta ao BNDES e tratou de um seminário sobre exportação que
teve ampla participação do público interessado e cobertura da imprensa.
Leilão das Teles
Finalmente, já que estamos falando em grampo, que tal relembrar de um
realmente comprometedor, do período da privataria das teles?
Deu na Folha, sem maiores consequências jurídicas, apesar de se tratar de um leilão no qual o Estado não deveria interferir:
No diálogo mais importante, (o então ministro) Lara Resende diz ao
presidente (FHC) que é necessário forçar o fundo de pensão estatal Previ
a entrar no consórcio do Opportunity e da Stet. O presidente concorda.
Considera arriscado manter o “aventurismo” que seria representado por um
outro consórcio. Como representante do “aventurismo”, o presidente cita
nominalmente o empresário Carlos Jereissati.
Depois disso, já que FHC concordava com a operação, Lara Resende pede
explicitamente para usar o nome do presidente como forma de pressão. Os
dois discutem como acertar a entrada da Previ, no consórcio do
Opportunity com o grupo italiano. A Previ também negociava com o
consórcio Telemar, de Carlos Jereissati. Eis o trecho da conversa entre
os dois:
André Lara Resende – Então, o que nós precisaríamos é o seguinte:
com o grupo do Opportunity, nós até poderíamos turbiná-lo, via BNDES
Par. Mas o ideal é que a Previ entre com eles lá.
Fernando Henrique Cardoso – Com o Opportunity?
Lara Resende – Com o Opportunity e os italianos.
FHC – Certo.
Lara Resende – Perfeito? Porque aí esse grupo está perfeito.
FHC – Mas… e por que não faz isso?
Lara Resende – Por que a Previ tá… tá do outro lado.
FHC – A Previ?
Lara Resende – Exatamente. Inclusive com o Banco do Brasil que ia
entrar com a seguradora etc. que diz, não, isso aí é uma seguradora
privada porque…
FHC – … Não.
Lara Resende – Então, é muito chato. Olha, quase…
FHC – …Muito chato.
Lara Resende – Olha, quase…
FHC – Cheira a manobra perigosa.
Lara Resende – Mas é quase explícito.
FHC – Eu acho.
Lara Resende – Quase explícito.
FHC – Eu acho.
Lara Resende – Então, nós vamos ter uma reunião aqui, estive falando
com o Luiz Carlos, tem uma reunião hoje aqui às 6h30. Vem aqui aquele
pessoal do Banco do Brasil, o Luiz Carlos etc. Agora, se precisarmos de
uma certa pressão…
FHC – …Não tenha dúvida.
Lara Resende – A idéia é que podemos usá-lo aí para isso.
FHC – Não tenha dúvida.
Lara Resende – Tá bom.
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