Os crimes de Onassis
Chega ao Brasil livro em que o mais importante biógrafo de Aristóteles Onassis revela como o milionário grego financiou o assassinato de Bobby Kennedy
Clayton Netz
A palavra
nêmesis, de origem grega, cobre um amplo espectro de significados. O
mais usual deles serve para rotular um arqui-inimigo, que desperta ao
mesmo tempo ódio, respeito e até admiração. Pois é disso que trata o
livro “Nêmesis - Onassis, Jackie e o Triângulo Amoroso que Derrubou os
Kennedy”, do escritor britânico Peter Evans. Na obra, recém-lançada no
Brasil pela editora Intrínseca, Evans, que foi repórter investigativo do
jornal “The New York Times” e venceu o Prêmio Pulitzer de 2010, relata
uma guerra sem quartel entre personagens que dominaram a cena política e
empresarial do mundo na segunda metade do século passado. De um lado, o
poderoso armador grego Aristóteles Sócrates Onassis, um dos homens mais
ricos de sua época. Do outro, o não menos poderoso (mas não tão rico)
senador Bobby Kennedy, irmão mais novo do presidente americano John
Kennedy, assassinado em novembro de 1963, em Dallas.
FACHADA
Jackie Kennedy Onassis com o segundo marido, Aristóteles Onassis.
De acordo com a filha dele, o casamento de seis anos durou, na
realidade, apenas algumas semanas depois da lua-de-mel
Trata-se de uma extensa retificação da
aclamada biografia de Onassis, “Ari”, escrita pelo próprio Evans.
Lançada em 1986, logo se tornou bestseller. “Falta a história real”,
disse no auge do sucesso do livro Yannis Georgakis, que dirigiu a
Olympic Airways, a companhia aérea de Onassis, e um de seus mais fiéis
escudeiros.
A lacuna, preenchida pela nova obra, começa
e termina no triângulo amoroso protagonizado pelo empresário grego, o
senador Bobby Kennedy e sua cunhada, Jacqueline. Depois da morte de JFK,
Bobby era um obstáculo para que o milionário concretizasse a fantasia
de se casar com Jackie. E foi por intermédio do submundo da política,
que Onassis conseguiu afastar de cena seu adversário. Emigrante pobre
que se estabeleceu na Argentina no começo dos anos 1920, Onassis desde
sempre atuou de forma pouco ortodoxa, sem grandes preocupações com a
legalidade.
A solução para tirar Bobby de seu caminho
surgiu quando, em janeiro de 1968, o terrorista palestino Mahmoud
Hamshari, militante da Al Fatah, o procurou, em seu apartamento na
avenida Foch, em Paris, exigindo o pagamento de 200 mil dólares, como
condição para evitar um atentado a bomba em um dos aviões da Olympic
Airways.
Na ocasião, Hamshari teria revelado a
Onassis seu plano de “matar um americano conhecido, em solo americano”
em represália ao apoio político e militar dado pelos Estados Unidos a
Israel. O magnata grego gostou tanto da ideia que entregou a Hamshari
(suspeito de envolvimento com o grupo Setembro Negro, responsável pela
morte de 11 atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique, em
1972) 1,2 milhão de dólares. Um ano depois, Sirhan Bishara Sirhan, de
24 anos, concretizou o plano com três disparos de um revólver calibre
22, matando Bobby Kennedy, no Ambassador Hotel, em Los Angeles. Com o
caminho livre, Onassis e Jackie se casaram, quatro meses depois.
O que faltava, segundo Evans, é uma
história cujo enredo foi compartilhado entre poucas pessoas da entourage
de Onassis, entre eles seus filhos Alexander e Christina, mortos
prematuramente. E que foi confirmada tanto por Georgakis, o
ex-presidente da Olympic Airways, como por Christina, às vésperas de sua
morte, em 1988. Mas o indício aparentemente mais consistente foi o
testemunho da fotógrafa francesa Hélène Gaillet, hóspede de Onassis na
ilha de Skorpios, no outono de 1974. Já abalado fisica e mentalmente
pela miastenia que o levaria à morte, Onassis teria confessado: “Sabe
Hélène, eu providenciei o dinheiro para o assassinato de Bobby Kennedy.”
Há quem questione a veracidade da revelação sobre o envolvimento de
Onassis na morte do político, alegando insuficiência nas provas
levantadas por Evans. Poucos são os envolvidos na trama ainda vivos, a
começar pelo autor, falecido em 2012. No entanto, a principal
testemunha, Hélène, uma artista multimídia, que divide seu tempo entre
Nova York e Nápoles, está viva. Até aqui, pelo que se sabe, a declaração
publicada no livro não foi desmentida.
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