O que deu errado com a Primavera Árabe?
Manifestação na Praça Tharir, no Cairo, em 10 de fevereiro de 2011 (Foto: Jonathan Rashad/ Creative Commons / Wikimedia Commons)
O que deu errado com a Primavera Árabe?
Movimentos foram esmagados por onda autoritária e extremismo; experiência de 1848 pode ajudar a entender o porquê.
Há exatos quatro anos, o mundo tremia com os acontecimentos que vinham do Oriente Médio e do Norte da África.
Em um movimento que não havia sido previsto por nenhum analista
político, a população egípcia tomou as ruas do Cairo e, após pouco mais
de duas semanas de protestos e de ocupação da Praça Tahrir, finalmente
conseguiu tirar do poder o presidente Hosni Mubarak, que governara o
Egito com mão de ferro por quase três décadas.
A inesperada queda de Mubarak – no dia 11 de fevereiro de 2011 – era o
ápice de uma onda que tivera início no mês anterior, na Tunísia. Na
capital Túnis, a auto-imolação do jovem camelô Tarek Mohamed Bouazizi
serviu como faísca para uma série de manifestações populares que
resultaram na renúncia do ditador Ben Ali em janeiro de 2011, após mais
de vinte anos no poder.
Como um tsunami, protestos começaram a se espalhar pelo mundo árabe.
Na Líbia, demonstrações iniciadas em fevereiro de 2011 levaram a uma
guerra civil que resultaria na morte de Muammar Kaddafi, em agosto. No
Iêmen, Abdullah Saleh foi deposto após 33 anos no poder. Na Síria,
rebeldes chegaram a ameaçar o poder do ditador Bashar al-Assad, em uma
guerra que ainda está por ser finalizada.
A inesperada série de deposições de regimes autoritários que
dominavam o mundo árabe há tantos anos foi comemorada por políticos e
analistas ocidentais, vista como o início de uma onda de democratização
no Oriente Médio.
Para alguns, o fato dos protestos terem sido organizados por jovens
utilizando como ferramentas as redes sociais e a internet significava o
início de uma nova era, em que movimentos sociais horizontais e
desvinculados de partidos iriam transformar o mundo.
Cenário desolador
Quatro anos depois, no entanto, o cenário não poderia ser mais desolador.
Enquanto a guerra civil na Síria já deixou mais de 210 mil mortos,
partes do país e do Iraque hoje são dominadas por militantes do
autointitulado Estado Islâmico, que vêm chocando o mundo pela forma
bárbara como tratam prisioneiros, mulheres e crianças de minorias
étnicas e religiosas.
No Egito, a situação também não é animadora. Após um golpe de Estado
que depôs o presidente Mohammed Morsi, eleito em 2012, o novo presidente
egípcio Abdul Fattah al-Sisi vem jogando opositores do regime nas
cadeias, em uma escalada autoritária alarmante.
Já a Líbia pós-Kaddaffi tornou-se um Estado praticamente sem governo, onde líderes tribais, milícias e grupos extremistas disputam hegemonia.
A única exceção é a Tunísia, mais estável e onde eleições livres no
final de 2014 deram vitória a um partido secular com membros que, no
entanto, têm ligações com o regime de Ben Ali.
Diante deste cenário, surge a pergunta óbvia: Como toda aquela
esperança trazida pelas ondas de protestos se desvaneceu dessa forma,
poucos anos depois de seu início?
Como movimentos populares espontâneos que foram capazes de derrubar
poderosos ditadores falharam em trazer mais avanços, abrindo espaço para
extremistas e líderes autoritários?
Paralelos históricos
Tentar explicar com tão pouco distanciamento histórico o porquê do
fracasso da Primavera Árabe é um desafio hercúleo. Até porque, com
tantos países e contextos envolvidos, certamente estamos diante de um
fenômeno multicausal, em que inúmeras variáveis contribuem para os
resultados que observamos.
Mas uma pista importante para entender o que aconteceu pode ter sido
dada pelo historiador britânico Eric Hobsbawm, morto em 2012. Em uma entrevista concedida à BBC no final de 2011, o historiador marxista foi enfático sobre o que pensava sobre a Primavera Árabe:
“Isto me lembra 1848 – outra revolução auto-impulsionada que começou em um país e se espalhou rapidamente pelo continente”, disse Hobsbawm.
De fato, os paralelos entre a