Aba-Film/Mauc/Acervo Jean Pierre Chabloz
Muitos seringueiros morreram já nos longos percursos por febres, doenças ou ataques de animais.
Esforço de guerra
Essenciais para a vitória contra o nazismo, seringueiros enviados à Amazônia exigem reparação após décadas de abandono
Por William Gaia Farias
Em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, as possessões inglesas e
holandesas na Ásia foram tomadas pelo Japão, após uma invasão. Naquele
contexto, o país asiático encontrava-se em processo de expansão do seu
domínio. Com a conquista das colônias asiáticas, o fornecimento de látex
aos países europeus e aos Estados Unidos foi interrompido, em vista das
plantações de seringueiras da Ásia terem passado ao domínio dos
japoneses, que, naquele conflito, compunham o Eixo e, juntamente com a
Alemanha e a Itália, combatiam os Aliados.
Na tentativa de resolver os problemas gerados pelo falta do látex para
as indústrias norte-americanas, os EUA voltaram-se à Amazônia brasileira
com o objetivo de intensificar a produção do material. Eles sabiam que a
borracha nativa fora expressivamente explorada no fim do século XIX e
no início do XX.
O governo norte-americano logo passou a negociar com o governo
brasileiro, o que resultou nos chamados Acordos de Washington (1942),
por meio dos quais se estabeleceram medidas que garantiriam aos Estados
Unidos quase a totalidade da produção gomífera amazônica. Instituiu-se
também por meio desse o tabelamento dos preços do látex durante
determinados períodos de vigência do acordo.
Os Estados Unidos tentaram desenvolver, com governo brasileiro, medidas
para intensificar a produção da goma elástica, objetivando diminuir o
custo do produto. Nesse intuito, desenvolveram campanhas de incentivo
aos trabalhadores locais e, principalmente, aos nordestinos, a fim de
obter uma produção estimada em 100 mil toneladas do produto.
Partiram do Nordeste para a Amazônia aproximadamente 55 mil
trabalhadores, e diversas foram as formas de incentivo pensadas pelos
norte-americanos para motivar a migração aos seringais. Os Estados
Unidos propunham uma negociação direta com os seringueiros, pois
acreditavam que esses teriam mais empenho em seu trabalho. Todavia, para
atuar nos seringais, eles necessitavam de ferramentas e alimentos, já
que precisavam garantir a sobrevivência na floresta.
Nesse sentido, em 1942, foram instalados os armazéns da empresa
norte-americana Rubber Development Corporation (Corporação de
Desenvolvimento da Borracha, em português), que estava fechada desde o
término da Primeira Guerra Mundial, com o objetivo de garantir as
condições sanitárias aos trabalhadores e prover-lhes gêneros destinados
ao consumo durante a extração do látex mata adentro. Nesse mesmo ano foi
criado também o Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp), que em certa
medida complementava a atuação da empresa citada.
Propunha-se também a ampliação da atuação do Banco da Borracha, criado
em 1914, com o nome de Banco de Crédito da Borracha (que originou o
atual Basa), e a reativação da empresa Rubber Development Corporation,
com intuito de impedir a retomada do sistema de aviamento, sustentado na
relação entre casas aviadoras, seringalistas e seringueiros, pois a
empresa atenderia às necessidades dos seringueiros.
O banco teve grande expressividade durante a chamada Batalha da
Borracha, visto que dispunha da exclusividade na comercialização do
produto, independentemente dos locais de que provinha e para onde se
destinaria. A entidade tinha também a finalidade de dar auxílio
financeiro àqueles que se mostravam interessados em investir na produção
da borracha. Desse modo, quebrava a importância da atuação das casas
aviadoras, tornando mais monetária a relação entre seringueiros e
seringalistas, o que não significa dizer que os primeiros tenham tido
melhores condições de trabalho e maiores lucros dentro do sistema. Os
trabalhadores nordestinos que seguiram para os seringais foram
pejorativamente chamados de “arigós”. A presença nordestina foi intensa
em todos os estados do Norte, sendo o Acre o que mais recebeu
trabalhadores.
A preocupação em estimular a sua produção levou o governo à criação de
outras instituições voltadas ao atendimento das necessidades dos
negócios da borracha. Para garantir melhores condições de abastecimento
na região, o governo criou a Superintendência para o Abastecimento do
Vale da Amazônia (Sava). No que se refere ao escoamento da produção, foi
criado o Serviço de Navegação da Amazônia e de Administração do Porto
do Pará (Snapp).
Os Estados Unidos buscaram centralizar o controle da extração do látex e
intensificar seu lucro na produção e, em consonância com os interesses
do governo brasileiro, que desejava selar acordos econômicos, ofereceram
investimentos ao País. No entanto, passaram a pressionar o Brasil a
declarar guerra contra o Eixo. Na época, os Estados Unidos eram
governados pelo presidente Franklin Delano Roosevelt e o Brasil, por
Getúlio Vargas. Ambos se reuniram várias vezes para negociações
internacionais, chegando, por fim, aos citados Acordos de Washington.
A Batalha da Borracha, na qual o governo brasileiro entrou na tentativa
de restabelecer a produção gomífera para novamente lançá-la no mercado
mundial, ofereceu inúmeros investimentos no campo econômico. Contudo,
com longos percursos a cumprir, muitos trabalhadores morreram de febres
palustres, beribéri, malária, febre amarela e cólera, além de outras
doenças, adquiridas graças às péssimas condições de vida nas matas ou a
picadas de bichos peçonhentos e a ataques de animais ferozes da fauna
amazônica. Todos esses fatores contribuíram para elevar o número de
mortos nos seringais nativos.
Esses homens e mulheres que chegaram para o trabalho nos seringais
amazônicos foram denominados pelo discurso do governo como Soldados da
Borracha, uma vez que tinham uma batalha a vencer: a de extrair a maior
quantidade possível de látex para atender o beligerante mercado
internacional.
Preocupado em cumprir os acordos firmados com os norte-americanos, o
governo, em 1943, estabeleceu o alistamento compulsório e, para isso,
criou o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia
(Semta). Na realidade, o governo Vargas recorreu à mão de obra
nordestina por saber da existência de homens em difíceis condições de
vida, devido à seca e à própria falta de políticas públicas voltadas
para a resolução dos problemas. Por isso, a sede da Semta se localizava
na cidade de Fortaleza. Essa instituição fazia os primeiros acertos com o
migrante, não chegando nem mesmo a garantir condições adequadas para
que chegassem saudáveis aos seringais amazônicos.
Nessa recente etapa de intensa exploração do látex, novas relações
entre os diferentes sujeitos envolvidos nos negócios da borracha foram
estabelecidas.
Porém, a atuação do Banco da Borracha não gerou os resultados esperados
na produção e, assim, o tradicional sistema de aviamento não foi
totalmente eliminado. Além disso, com o término da guerra, a produção de
borracha amazônica entrou em crise novamente. Os EUA não renovaram os
acordos e o governo brasileiro ficou desprovido de mercado consumidor,
uma vez que a indústria nacional não absorvia toda aquela produção.
Apesar do baixo preço, a borracha continuou sendo alternativa
complementar de sustentação para seringueiros nordestinos ou nativos da
Amazônia. Com a desvalorização do látex, contudo, a maioria dos
seringalistas faliu e muitos trabalhadores ficaram na área como
extrativistas e agricultores, apesar das grandes dificuldades e da falta
de apoio do Estado.
As movimentações e os investimentos na criação de órgãos e no
transporte de mão de obra não foram suficientes para garantir os
objetivos esperados. As marcas da exploração da borracha na Amazônia são
bem perceptíveis, em especial no que tange à presença de nordestinos,
que nos dois momentos de intensificação trabalhista foram protagonistas.
A atividade de extração é exercida até hoje porque a borracha é um dos
produtos que garante a sobrevivência dos homens da floresta, que também
coletam castanha-do-pará, extraem madeira, pescam, caçam e plantam.
Durante muito tempo, os chamados Soldados da Borracha reivindicaram os
mesmos direitos concedidos aos ex-combatentes da Força Expedicionária
Brasileira (FEB). Somente a partir da Constituição de 1988, porém, o
governo federal decidiu pelo pagamento de aposentadorias e pensões aos
Soldados da Borracha. Essas, contudo, foram fixadas em valores
irrisórios quando comparados às dos pracinhas da FEB. Nivelar os
ressarcimentos é um pedido ainda em pauta no Congresso Nacional,
principalmente por meio do Projeto de Emenda Constitucional 556, de
2002.
Publicado na edição 83, de fevereiro de 2014
Fonte: http://www.cartanaescola.com.br/single/show/285
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