Shopping barra jovens da periferia, mas libera 'rolezinho' de alunos da USP
Foto: Reprodução
Sem repressão ou proibição, estudantes de Economia da Universidade de
São Paulo promovem manifestações em centro de compras desde 2010
por Diego Sartorato,
Pelo
menos desde 2007, centenas de “bichos” da Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade da USP (FEA) reúnem-se no Shopping
Eldorado, na zona oeste de São Paulo, para celebrar o ingresso na
universidade: em grupos grandes e barulhentos, sempre entoando os gritos
de torcida da atlética da faculdade, eles ocupam o hall de entrada e os
corredores, marcham até a praça de alimentação e, lá, seguem pulando,
cantando e usando as mesas como instrumentos de percussão. A
manifestação, similar à aglomeração causada pelos “rolezinhos” marcado
pelas redes sociais para o sábado passado (11) no Shopping Itaquera, na
zona leste, administrado pelo mesmo grupo
empresarial, é permitida e
conta até com patrocínio oficial de lojas; em Itaquera, uma liminar proibiu o encontro dos jovens e causou forte repressão da Polícia Militar.
Em
vídeos publicados por alunos da FEA no youtube, é possível acompanhar a
aglomeração dos jovens entre 2010 e 2013. Segundo João Meireles, atual
presidente da Atlética, deve haver “invasão” no shopping também este
ano.
“Para confirmar, só com o Centro Acadêmico,
eles é que organizam os pedágios (trote que leva os novos alunos da
faculdade para pedir dinheiro nos semáforos)”, afirmou.
As
invasões ao shopping ocorrem logo após o fim da coleta dos pedágios, e
contam até com apoio de lanchonetes na praça de alimentação: depois de
decorar os gritos de guerra da torcida da FEA para os jogos
universitários, os estudantes almoçam nos restaurantes parceiros. “Se há
acordo com o shopping, eu não sei. Isso é com o CA”, completou
Meireles. A RBA tentou contato com diretores do Centro Acadêmico da FEA, mas não obteve resposta.
A
assessoria de comunicação do grupo brasileiro-canadense Ancar-Ivanhoe,
que administra os shoppings Itaquera e Eldorado, foi procurada para
comentar a diferença de tratamento dedicada aos dois eventos, mas não
respondeu até o fechamento desta matéria.
Dois pesos, duas medidas
Para
Kazuo Nakano, professor de Desenvolvimento Urbano e Direito Imobiliário
da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a diferença de tratamento dedicada
pelos shoppings ao “rolezinho” e à “invasão” promovida por alunos da USP
é sintomática da falta de regulamentação do setor. “Não existem
critérios claros para o uso do espaço do shopping, que é uma empresa
privada, mas de uso coletivo. Hoje, vale a lógica da propriedade e o
direito do proprietário de filtrar quem circula em seu estabelecimento”,
aponta.
“Agora, se tudo bem quando é aluno da USP, mas o cidadão
da periferia gera temor de arrastões, está claro o preconceito. O
shopping já é um espaço excludente por conta dos preços para desfrutar
dos seus produtos e serviços, e, dessa maneira, segrega ainda mais”,
completa.
O professor acredita que é necessário debater a
diferença entre os espaços públicos dedicados ao consumo e aqueles
dedicados à vida cívica dos cidadãos. “O que vemos em São Paulo, por
exemplo, é que praticamente só existem dois tipos de espaços públicos: o
de consumo e o de deslocamento, as vias da cidade. Quando vamos falar
dos espaços para a vida cívica, estão quase todos deteriorados. Temos
lutado para recuperar esses espaços e reverter essa lógica de
privatização dos espaços dedicados ao lazer”, pondera Nakano. “Até lá,
será comum que as pessoas façam a opção pelo shopping e outros
estabelecimentos privados para suprir essa carência.”
Preconceito nos shoppings
Nos
últimos anos, uma série de episódios revelam que a discriminação é
comum nos corredores dos shoppings brasileiros. Em 2010, o músico cubano
Pedro Bandera, 39, foi impedido por seguranças de entrar no shopping
Cidade Jardim, na zona oeste, onde tinha uma apresentação marcada em uma
livraria – segundo ele, os demais músicos entraram no shopping sem
problemas. Já o cubano chegou a ser imobilizado e encaminhado a um táxi
que o retiraria do local. Bandera, que é negro, processou o shopping por
racismo e foi indenizado em R$ 7 mil após decisão favorável da justiça
em dezembro passado.
Já no shopping Center 3, na avenida
Paulista, em janeiro deste ano, a transsexual Aline Freitas afirmou que
foi abordada por seguranças que tentaram impedi-la de usar o banheiro
feminino: ela chegou a entrar no lavabo, mas foi abordada por uma
funcionária e retirada por um grupo de oito seguranças.
Na Bahia,
à mesma época do episódio em São Paulo, um grupo de 21 funcionárias do
shopping Barra, em Salvador, tentou impedir uma lojista transsexual de
usar o banheiro feminino, alegando sentirem-se “constrangidas” pela
presença da funcionária. Nesse caso, o shopping manifestou respeito pela
diversidade e afirmou que não restringiria o acesso da funcionária ao
banheiro por uma questão de “dignidade humana”.
Fonte: Brasil de Fato
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