Wikileaks vaza metadados de executivos da indústria da vigilância
Informações coletadas por ‘unidade de
contra-inteligência’ mostram que diretores das maiores empresas do ramo
teriam visitado países campeões em violações de direitos humanos
da APública
O
WikiLeaks teve acesso a metadados que demonstram a hora e o local em
que alguns dos principais membros da indústria de vigilância global
teriam realizado conexões por celular. Os metadados fazem parte da
publicação Spy Files 3 , realizada nesta quarta-feira pela organização.
Segundo
Julian Assange, os dados foram compilados por uma seção de
contra-inteligência recentemente montada pela organização. “A unidade de
Contra-Inteligência do WikiLeaks opera para defender seus bens,
funcionários e fontes e, mais amplamente, para promover o nosso objetivo
de proteger jornalistas, fontes e o direito do público à privacidade”,
diz o australiano, atualmente vivendo na embaixada do Equador em
Londres. “Os dados coletados permitem que jornalistas e cidadãos
pesquisem mais profundamente a indústria de vigilância privada, ao
vigiar aqueles que nos vigiam”.
Segundo a organização, a nova
unidade realiza “medidas de contra-inteligência tanto ativa quanto
passiva”, incluindo detectar a vigilância e receber dados de informantes
internos.
Em julho deste ano, uma escuta foi encontrada na
embaixada do Equador onde Julian Assange está exilado desde junho do ano
passado. O microfone escondido foi
encontrado na sala da embaixadora Ana Alban durante uma revista que
antecedeu a visita do chanceler equatoriano Ricardo Patiño.
São
poucas as informações públicas sobre essas empresas, seus executivos e
clientes, além de reuniões em salões de treinamento internacionais, como
a ISS World – conferência que reúne policiais, agentes de segurança e
analistas de inteligência para treinamento em “interceptação legal”,
“investigações eletrônicas” de alta tecnologia e “recolhimento de
inteligência de redes”.
Financiada pelas gigantes da indústria de vigilância ,
a ISS World tem edições todos os anos em diferentes continentes – da
América Latina ao Oriente Médio e Europa. Segundo o site da conferência,
a programação “apresenta as metodologias e ferramentas necessárias para
a Aplicação da Lei, Segurança Pública e as Comunidades de Inteligência
Governamentais na luta contra o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro
cibernética, tráfico de pessoas, e outras atividades criminosas
conduzidas na rede de telecomunicação e Internet”.
A última edição
latinoamericana ocorreu entre os dias 23 e 25 de julho em Brasília e
contou com workshops sobre “Tudo que os Investigadores Precisam Saber
sobre Esconder-se na Internet”, ou “Compreendendo a Internet,
Interceptação e Produtos ISS Relacionados”.
Os palestrantes são os
principais executivos da indústria – muitos dos quais tiveram seus
dados de telecomunicações vazados hoje, como Gamma Group, Hackingteam,
Cobhan Surveillance e Hidden Technology.
O que apontam os registros
Os
metadados publicados pelo Wikileaks mostram a intensa movimentação dos
executivos da indústria por diversos países, em especial na Europa e no
Oriente Médio – principais mercados das gigantes da vigilância global –
mas também em países da África e até no Brasil. Uma das corporações
monitoradas foi o Gamma Group, criador do software espião FinFisher e
das variações FinSpy e FinFly, que infectam computadores para capturar
informações, enviadas a uma central. (O programa foi usado, por exemplo,
pelo governo do ex-ditador egípcio Hosni Mubarak para espionar
manifestantes durante a revolução que o tirou do poder em 2011, e contra
ativistas do Bahrein, cujo governo enfrenta diversos protestos).
Os
metadados mostram que diretores do Gamma Group viajaram para países com
histórico de violações a direitos humanos, como Guiné Equatorial,
Turcomenistão, Malásia e Egito – estes três últimos foram apontados pela organização Repórteres Sem Fronteiras como “inimigos da internet” – assim como o próprio Gamma Group.
Segundo
os registros vazados, Carlos Gandini, diretor de vendas do grupo,
esteve na Guiné Equatorial – um dos países com piores índices de
violações aos direitos humanos, governado há 33 anos pelo mesmo
presidente – entre os dias 16 e 21 de abril deste ano, tendo voltado nos
dias 7 a 10 de maio, de onde seguiu para o Líbano. Não há informações
sobre as cidades visitadas ou as negociações ou contratos assinados;
procurado pelos jornalistas que fazem parte deste projeto, o grupo não
se pronunciou.
Outro diretor da empresa, Brydon Nelson, passou os
meses de abril e maio em uma longa viagem pelo Qatar, Omã, Brunei e
Malásia – países com histórico de repressão à população. Segundo contratos também publicados pelo WikiLeaks,
em 2010 a empresa se uniu à alemã Dreamlab para a venda de componentes
do software e hardware para Omã, num projeto seria chamado “sistema de
monitoramento para i-proxy” – a Gamma forneceria a tecnologia, enquanto a
Dreamlab ofereceria a análise de rede, gerenciamento do projeto e
treinamento em Omã.
Diretores da empresa alemã Elaman, que,
segundo uma brochura de 2010, faz parte do grupo Gamma, também visitaram
Omã, segundo os registros. O diretor Holger Rumscheidt esteve no país
em 2011, 2012 e 2013. Este ano ele também esteve duas vezes no
Turcomenistão – de 21 a 24 de janeiro e 12-13 de junho – onde também
teria havido negociado um sistema de monitoramento, com um componente de
“infecção” através dos programas FinSpy e FinFly, segundo os documentos vazados.
Outra
empresa mencionada nos documentos é a inglesa Cobham, uma das maiores
do mercado de vigilância global. Segundo os registros, o diretor de
vendas Neil Tomlinson visitou neste ano os Emirados Árabes, o Líbano, o
Qatar e o Kuait.
A empresa italiana Hackingteam também aparece na
lista, através do seu diretor de vendas Marco Bettini – que esteve em
Brasília para o ISS Latin America, em julho deste ano. A Hacking Team
vende um software espião que já foi usado em 2012 contra ativistas no
Marrocos e nos Emirados Árabes para contornar o uso de criptografia.
Segundo
os dados divulgados pelo WikiLeaks, Bettini visitou o Marrocos entre 6 e
8 de fevereiro deste ano, assim como o diretor da empresa Mostapha
Maana, que esteve no país em 2011, 2012 e 2013. Apenas nos dois últimos
anos, Maana visitou oito vezes os Emirados Árabes – onde o software foi ligado à violência contra um dissidente. A última visita foi entre 8 e 11 de julho deste ano.
Procurado
pelo site francês Rue 89, a Hacking Team afirmou que não vende seus
programas para indivíduos ou empresas, apenas para governos. “Além
disso, não vendemos para governos que estão em listas negras dos EUA,
Europa, Otan”, escreveu o gerente de comunicação Eric Rabe. Segundo ele,
todos os possíveis clientes são pesquisados antes da venda para
determinar se há “evidências objetivas” de que a tecnologia “será usada
para facilitar violações de direitos humanos”. A empresa informou ainda
que tem um painel de conselheiros legais para limitar abusos nas vendas,
mas negou-se a dar nomes dos conselheiros ou explicar quais potenciais
clientes foram vetados.
Também afirmou ter investigado as
alegações sobre violência contra ativistas no Marrocos e nos Emirados
Árabes. “No entanto, não compartilhamos os resultados dessas
investigações nem divulgamos o tipo de ações que podemos adotar a
respeito disso”.
Os metadados dos empresários da indústria de vigilância podem ser acessados através deste link .
Fonte: Brasil de Fatos
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