Pressão de centrais derruba urgência para votar PL da terceirização
Deputados vão organizar debate sobre o tema, com promessa de
ouvir todos os envolvidos, para só depois retomar tramitação de proposta
na Câmara
05/09/2013
Viviane Claudino,
Em
reunião com representantes das centrais CUT e Força Sindical e
parlamentares da Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça (CCJ), na
tarde dessa quarta-feira (4), o presidente da Câmara, Henrique Eduardo
Alves (PMDB-RN), propôs a formação de uma comissão geral para discutir a
votação do Projeto de Lei 4.330, do deputado Sandro Mabel (PMDB-GO),
que amplia a terceirização.
O presidente da CCJ,
deputado Décio Lima (PT-SC), e o relator do projeto, deputado Arthur
Maia (PMDB-BA), serão os responsáveis pela organização do debate aberto
no plenário. Inicialmente, Alves propôs que as discussões fossem
promovidas nas próximas duas semanas, mas Lima se opôs a essas
sugestões, preferindo não arriscar um prazo antes de iniciar as
conversas sobre o caso.
Até que se realize o
debate, ficará suspenso o requerimento de urgência e não haverá a
votação do PL de 2004, de autoria do deputado Sandro Mabel (PMDB-GO),
empresário dono da empresa de biscoitos que leva seu nome.
O
deputado Décio Lima não despreza a possibilidade de um acordo e afirma
que a decisão do presidente da Câmara foi acertada, já que o tema não
poderia ficar restrito apenas ao ambiente da CCJ. “É uma matéria de
alcance nacional. Vamos realizar uma audiência pública que permita um
amplo e inesgotável debate, para que todos os atores nesse cenário
tenham direito de expressão.”
As sessões de terça
(3) e quarta-feira (4) da CCJ foram canceladas diante das manifestações
dos trabalhadores no Congresso Nacional, barrados pelos seguranças da
Câmara na tentativa de acompanhar as sessões, agredidos com cassetetes,
bombas e spray de pimenta. Depois disso, o presidente da Câmara decidiu
encaminhar o projeto direto ao plenário, sem passar pela comissão.
“Para
a crise do momento foi o que pode ser feito”, afirma a secretária das
Relações de Trabalho da CUT, Maria das Graças Costa, em relação à
formação da comissão geral para o debate no plenário. “Durante todo esse
período, em todas as negociações, nós tínhamos sempre a faca no
pescoço, pressionados para chegar a um acordo sempre às vésperas da
votação. Não é possível fazer um debate sério com ameaça de que o
projeto poderia ser votado a qualquer momento.”
Segundo
o presidente da CCJ, a comissão geral deve ser formada pelos ministros
do Tribunal Superior do Trabalho, que em sua maioria se opõem ao PL,
representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), de todas as
centrais sindicais e do empresariado. “Agora é preciso dar tempo para
que todos se organizem e precisamos mostrar as preocupações que são
extremamente relevantes. Eu quero tempo para poder fazer um debate que
não seja apenas uma formalidade, precisamos nos aprofundar e fazer uma
discussão tranquila sobre isso.”
O líder do PT na
Câmara, deputado José Guimarães, afirma que não vê motivos para
acelerar o processo de votação. “Não precisa de pressa. Quando é para
garantir os direitos dos trabalhadores não há pressa, mas, quando é para
retirar, há. Não podemos aceitar isso”. Para ele, o texto apresenta
questões graves que aprofundam o processo de precarização das relações
de trabalho. “Do jeito que está o projeto pode desestruturar o movimento
sindical e nós precisamos de tempo para dialogar mais com a casa e com
as centrais.”
O PL tem sido motivo de discussões
desde o início de julho, em uma mesa de negociação formada por
trabalhadores representados pelas centrais sindicais, empresários e
representantes do governo e do Legislativo. Oito reuniões ocorreram sem
que se chegasse a um consenso entre as partes.
Atualmente,
na teoria, a terceirização é permitida em setores que não estão ligados
à atividade principal da empresa, como serviços de limpeza e segurança.
Com a aprovação do projeto de Mabel isso pode se estender para todos os
setores, incluindo a atividade-fim, termo que designa a atividade
principal. Assim, seria possível a existência de uma empresa sem nenhum
funcionário contratado diretamente por ela, sendo todos prestadores de
serviços, sem direito a Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS),
férias, 13º salário, entre outros direitos garantidos por lei aos
trabalhadores celetistas.
A representação
sindical para legitimar a igualdade de direitos entre contratados
diretos e terceirizados está entre os pontos polêmicos de discussão,
assim como a responsabilidade solidária da empresa contratante. Os
trabalhadores entendem que a empresa deve se responsabilizar pelas
obrigações trabalhistas e previdenciárias que não forem cumpridas pela
terceirizada. Hoje, esse tema já reúne inúmeros processos nas instâncias
da Justiça, quando as terceirizadas 'somem' sem pagar direito algum
para o trabalhador.
Nessa semana, a Associação
Nacional dos Magistrados do Trabalho (Anamatra), entidade que representa
3500 juízes do trabalho, emitiu uma carta solicitando a rejeição total
do projeto. Dezenove de 27 ministros do Tribunal Superior do Trabalho
(TST) assinam um ofício no qual afirmam que a competitividade, defendida
pelos empresários a favor da votação do PL, “é uma cortina de fumaça
para aprofundar a exploração com a perspectiva de aumentar o lucro com
exploração excessiva da mão de obra precarizada e barata”.
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