O capital venceu: no Equador, a “pacha mama” chora
A política neodesenvolvimentista da “Revolução
Cidadã” tende a se intensificar nos próximos anos. Conseguirá o discurso
do “sumak kawsay” prevalecer diante da faminta lógica do capital
internacional?
Gustavo Menon
O
atual presidente do Equador, Rafael Correa, declarou no mês passado o
fim da iniciativa Yasuní-ITT que visava preservar, no subsolo da
floresta amazônica equatoriana, cerca de 920 milhões de barris de
petróleo. O anúncio do fim da medida abre caminho para a ampla
exploração de petróleo no parque nacional Yasuní, área essa, de rica
biodiversidade e habitada por inúmeros povos indígenas. Em um
pronunciamento em rede nacional, Correa anunciou solenemente em Quito:
"já esperamos tempo suficiente"; "o mundo fracassou conosco”.
Localização do parque nacional Yasuní na Amazônia equatoriana
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O
projeto era uma alternativa de cooperação internacional, onde em troca
de se preservar a biosfera e o território ali presente, seriam
destinados recursos ao Estado equatoriano. O programa foi um fracasso.
Poucos agentes internacionais contribuíram para proposta. De acordo com o
governo, até agora há apenas US$ 13,3 milhões, em fundos disponíveis
depositados no Yasuní-ITT, isto é, apenas 0,37% da quantia estimada
inicialmente no projeto.
Os ambientalistas
equatorianos, que lutam pelo conceito do bom viver (“sumak kawsay”),
alegam que se o petróleo existente no parque Yasuní continuasse intacto,
no subsolo, evitaria a emissão de 400 milhões de toneladas de CO2 no
futuro. Cabe ressaltar, que a autorização para extração de petróleo, na
região amazônica do país, coloca em xeque a sobrevivência das populações
indígenas. Além disso, há um risco de destruição eminente para uma das
mais ricas biodiversidades do globo. Muitos ambientalistas equatorianos
alegam, inclusive, que o petróleo nos poços de Yasuní é de má qualidade,
um óleo denso, que irá provocar uma terrível poluição para fauna e
flora equatoriana e, quando queimado pelas empresas transnacionais, vai,
obviamente, emitir poluentes.
A confederação das
nacionalidades indígenas da Amazônia equatoriana (CONFENIAE),
organização vinculada à CONAIE (talvez um dos maiores movimentos
indígenas da América do Sul), condenou veementemente a concessão desses
poços seja para PETROECUADOR (empresa estatal) ou qualquer outra
transnacional do ramo petrolífero. Para o presidente da CONFENIAE,
Franco Viteri Gualinga, o fim da iniciativa Yasuní-ITT, associada à
política extrativista do governo da Alianza PAIS, abrem-se as portas
para um verdadeiro etnocídio.
A extração das
jazidas de petróleo em Yasuní também é contestada por ferir o Artigo 71
da atual Carta Magna equatoriana, constituição essa, apontada por muitos
especialistas, como um dos sistemas jurídicos mais avançados do mundo.
A nova constituição, resultado de amplo debate com os movimentos
sociais, enxerga a natureza como um sujeito de direitos. Isso implica no
respeito à reprodução de seus ciclos, a sua restauração e seus
processos evolutivos. A ideia do bom viver no novo texto constitucional
diz respeito ao resgate da cosmovisão indígena onde a preservação da
natureza, seria, assim, um elemento vital para a vida dos próprios seres
humanos.
O princípio constitucional dos diretos
da natureza e do bom viver destaca que a natureza não é uma propriedade
particular, mas sim um patrimônio fundamental para a existência humana.
Neste sentido, todas as atividades econômicas são permitidas desde que
não alterem a capacidade da natureza em reconstituir-se e continuar
existindo. Em resumo, extrair recursos, sob esse ponto de vista, é
permitido, mas, se essa extração implicar em um dano irreversível ao
meio ambiente, a permissão passa a inexistir.
A
política neodesenvolvimentista da “Revolução Cidadã” tende a se
intensificar nos próximos anos. Conseguirá o discurso do “sumak kawsay”
prevalecer diante da faminta lógica do capital internacional? A
encruzilhada equatoriana entre o neodesenvolvimentismo e o bem-viver
parece pender mais para o lado do grande capital. Ouro negro do capital
ou o ouro verde da Amazônia e sua biodiversidade? Lutar incansavelmente
em defesa da floresta e da vida dos povos indígenas torna-se uma
premissa necessária para a existência de uma sociedade mais justa,
democrática e plural.
Gustavo Menon é mestre em ciências sociais pela PUC-SP. Docente no SENAC-SP e na Faculdade de Ciências de Guarulhos – FACIG.
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