Em tom rígido, Dilma diz que espionagem viola direitos humanos
Em discurso no plenário da 68ª Assembleia Geral da ONU, a presidente Dilma Rousseff fez duras críticas às ações de espionagem americana reveladas pelo ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança (NSA) Edward Snowden e chamou o caso de "violação dos direitos humanos e das liberdades civis". Veja a íntegra do discurso da Dilma.Dilma critica espionagem; leia a íntegra do discurso na Assembleia Geral da ONU
Leia a íntegra do discurso da presidente Dilma Rousseff na abertura da 68ª Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (24):
Embaixador John Ashe, Presidente da sexagésima-oitava Assembleia-Geral das Nações Unidas,
Senhor Ban Ki-Moon, Secretário-Geral das Nações Unidas,
Excelentíssimos Senhores Chefes de Estado e de Governo,
Senhoras e Senhores,
Permitam-me uma primeira palavra para expressar minha satisfação em
ver um ilustre representante de Antigua e Barbuda – país que integra o
Caribe tão querido no Brasil e em nossa região – à frente dos trabalhos
desta Sessão da Assembleia-Geral.
Conte, Excelência, com o apoio permanente de meu Governo.
Permitam-me também, já no início da minha intervenção, expressar o
repúdio do Governo e do povo brasileiro ao atentado terrorista ocorrido
em Nairóbi. Expresso as nossas condolências e a nossa solidariedade às
famílias das vítimas, ao povo e ao Governo do Quênia.
O terrorismo, onde quer que ocorra e venha de onde vier, merecerá
sempre nossa condenação inequívoca e nossa firme determinação em
combatê-lo. Jamais transigiremos com a barbárie.
Senhor Presidente,
Quero trazer à consideração das delegações uma questão à qual atribuo a maior relevância e gravidade.
Recentes revelações sobre as atividades de uma rede global de
espionagem eletrônica provocaram indignação e repúdio em amplos setores
da opinião pública mundial.
No Brasil, a situação foi ainda mais grave, pois aparecemos como
alvo dessa intrusão. Dados pessoais de cidadãos foram
indiscriminadamente objeto de interceptação.
Informações empresariais – muitas vezes, de alto valor econômico e
mesmo estratégico - estiveram na mira da espionagem. Também
representações diplomáticas brasileiras, entre elas a Missão Permanente
junto às Nações Unidas, e a própria Presidência da República tiveram
suas comunicações interceptadas.
Imiscuir-se dessa forma na vida de outros Países fere o Direito
Internacional e afronta os princípios que devem reger as relações entre
eles, sobretudo, entre nações amigas. Jamais pode uma soberania
firmar-se em detrimento de outra soberania. Jamais pode o direito à
segurança dos cidadãos de um país ser garantido mediante a violação de
direitos humanos e civis fundamentais dos cidadãos de outro país. Pior
ainda quando empresas privadas estão sustentando esta espionagem.
Não se sustentam argumentos de que a interceptação ilegal de
informações e dados destina-se a proteger as nações contra o terrorismo.
O Brasil, Senhor Presidente, sabe proteger-se. O Brasil, Senhor
Presidente, repudia, combate e não dá abrigo a grupos terroristas.
Somos um país democrático, cercado de países democráticos,
pacíficos e respeitosos do Direito Internacional. Vivemos em paz com os
nossos vizinhos há mais de 140 anos.
Como tantos outros latino-americanos, lutei contra o arbítrio e a
censura e não posso deixar de defender de modo intransigente o direito à
privacidade dos indivíduos e a soberania de meu País. Sem ele – direito
à privacidade - não há verdadeira liberdade de expressão e opinião e,
portanto, não há efetiva democracia. Sem respeito à soberania, não há
base para o relacionamento entre as Nações.
Estamos, Senhor Presidente, diante de um caso grave de violação dos
direitos humanos e das liberdades civis; da invasão e captura de
informações sigilosas relativas às atividades empresariais e, sobretudo,
de desrespeito à soberania nacional do meu País.
Fizemos saber ao Governo norte-americano nosso protesto, exigindo
explicações, desculpas e garantias de que tais procedimentos não se
repetirão.
Governos e sociedades amigas, que buscam consolidar uma parceria
efetivamente estratégica, como é o nosso caso, não podem permitir que
ações ilegais, recorrentes, tenham curso como se fossem normais. Elas
são inadmissíveis.
O Brasil, Senhor Presidente, redobrará os esforços para dotar-se de
legislação, tecnologias e mecanismos que nos protejam da interceptação
ilegal de comunicações e dados.
Meu Governo fará tudo que estiver a seu alcance para defender os
direitos humanos de todos os brasileiros e de todos os cidadãos do mundo
e proteger os frutos da engenhosidade dos trabalhadores e das empresas
brasileiras.
O problema, porém, transcende o relacionamento bilateral de dois
países. Afeta a própria comunidade internacional e dela exige resposta.
As tecnologias de telecomunicação e informação não podem ser o novo
campo de batalha entre os Estados. Esse é o momento de criarmos as
condições para evitar que o espaço cibernético seja instrumentalizado
como arma de guerra, por meio da espionagem, da sabotagem, dos ataques
contra sistemas e infraestrutura de outros países.
A ONU deve desempenhar um papel de liderança no esforço de regular o
comportamento dos Estados frente a essas tecnologias. E a importância
da internet, dessa rede social, para a construção da democracia no
mundo.
Por essa razão, Senhor Presidente, o Brasil apresentará propostas
para o estabelecimento de um marco civil multilateral para a governança e
uso da internet e de medidas que garantam uma efetiva proteção dos
dados que por ela trafegam.
Precisamos estabelecer para a rede mundial mecanismos multilaterais capazes de garantir princípios como:
1 - Da liberdade de expressão, privacidade do individuo e respeito aos direitos humanos.
2 - Da Governança democrática, multilateral e aberta, exercida com
transparência, estimulando a criação coletiva e a participação da
sociedade, dos governos e do setor do privado.
3 - Da universalidade que assegura o desenvolvimento social e
humano e a construção de sociedades inclusivas e não discriminatórias.
4 - Da diversidade cultural, sem imposição de crenças, costumes e valores.
5 - Da neutralidade da rede, ao respeitar apenas critérios técnicos
e éticos, tornando inadmissível restrições por motivos políticos,
comerciais, religiosos ou de qualquer outra natureza.
O aproveitamento do pleno potencial da internet passa, assim, por
uma regulação responsável, que garanta ao mesmo tempo liberdade de
expressão, segurança e respeito aos direitos humanos.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores,
Não poderia ser mais oportuna a escolha da agenda de desenvolvimento pós-2015 como tema desta Sessão da Assembleia-Geral.
O combate à pobreza, à fome, à desigualdade constitui o maior desafio de nosso tempo.
Por isso, adotamos no Brasil um modelo econômico com inclusão
social, que se assenta na geração de empregos, no fortalecimento da
agricultura familiar, na ampliação do crédito, na valorização do salário
e na construção de uma vasta rede de proteção social, particularmente
por meio do nosso programa Bolsa Família.
Além das conquistas anteriores, retiramos da extrema pobreza, com o
Plano Brasil sem Miséria, 22 milhões de brasileiros, em apenas dois
anos.
Reduzimos de forma drástica a mortalidade infantil. Relatório
recente do UNICEF aponta o Brasil como país que promoveu uma das maiores
quedas deste indicador em todo o mundo.
As crianças são prioridade para o Brasil. Isso se traduz no
compromisso com a educação. Somos o país que mais aumentou o
investimento público no setor educacional, segundo o ultimo relatório da
OCDE. Agora vinculamos, por meio de lei, 75% de todos os royalties do
petróleo para a educação e 25% para a saúde.
Senhor Presidente,
No debate sobre a Agenda de Desenvolvimento pós-2015, devemos ter como eixo os resultados da Rio+20.
O grande passo que demos no Rio de Janeiro foi colocar a pobreza no
centro da agenda do desenvolvimento sustentável. A pobreza, Senhor
Presidente, não é um problema exclusivo dos países em desenvolvimento, e
a proteção ambiental não é uma meta apenas para quando a pobreza
estiver superada.
O sentido da agenda pós-2015 é a construção de um mundo no qual seja possível crescer, incluir, conservar e proteger.
Ao promover, Senhor Presidente, a ascensão social e superar a
extrema pobreza, como estamos fazendo, nós criamos um imenso contingente
de cidadãos com melhores condições de vida, maior acesso à informação e
mais consciência de seus direitos.
Um cidadão com novas esperanças, novos desejos e novas demandas.
As manifestações de junho, em meu País, são parte indissociável do
nosso processo de construção da democracia e de mudança social.
O meu governo não as reprimiu, pelo contrário, ouviu e compreendeu a
voz das ruas. Ouvimos e compreendemos porque nós viemos das ruas.
Nós nos formamos no cotidiano das grandes lutas do Brasil. A rua é o nosso chão, a nossa base.
Os manifestantes não pediram a volta ao passado. Os manifestantes
pediram, sim, o avanço para um futuro de mais direitos, mais
participação e mais conquistas sociais.
No Brasil, foi nessa década que houve a maior redução de
desigualdade dos últimos 50 anos. Foi nesta década que criamos um
sistema de proteção social que nos permitiu agora praticamente superar a
extrema pobreza.
Sabemos que democracia gera mais desejo democracia. Inclusão social
provoca cobrança de mais inclusão social. Qualidade de vida desperta
anseio por mais qualidade de vida.
Para nós, todos os avanços conquistados são sempre só um começo.
Nossa estratégia de desenvolvimento exige mais, tal como querem todos os
brasileiros e as brasileiras.
Por isso, não basta ouvir, é necessário fazer. Transformar essa extraordinária energia em realizações para todos.
Por isso, lancei 5 grandes pactos: o pacto pelo Combate à Corrupção
e pela Reforma Política; o pacto pela Mobilidade Urbana, pela melhoria
do transporte público e por uma reforma urbana; o pacto pela Educação,
nosso grande passaporte para o futuro, com o auxílio dos royalties e do
fundo social do petróleo; o pacto pela Saúde, o qual prevê o envio de
médicos para atender e salvar as vidas dos brasileiros que vivem nos
rincões mais remotos e pobres do país; o pacto pela Responsabilidade
Fiscal, para garantir a viabilidade dessa nova etapa.
Senhoras e Senhores,
Passada a fase mais aguda da crise, a situação da economia mundial ainda continua frágil, com níveis de desemprego inaceitáveis.
Os dados da OIT indicam a existência de mais de 200 milhões de desempregados em todo o mundo.
Esse fenômeno afeta as populações de países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Este é o momento adequado para reforçar as tendências de
crescimento da economia mundial que estão agora dando sinais de
recuperação.
Os países emergentes, sozinhos, não podem garantir a retomada do
crescimento global. Mais do que nunca, é preciso uma ação coordenada
para reduzir o desemprego e reestabelecer o dinamismo do comércio
internacional. Estamos todos no mesmo barco.
Meu país está recuperando o crescimento apesar do impacto da crise
internacional nos últimos anos. Contamos com três importantes elementos:
i) o compromisso com políticas macroeconômicas sólidas; ii) a
manutenção de exitosas políticas sociais inclusivas; iii) e a adoção de
medidas para aumentar nossa produtividade e, portanto, a competitividade
do País.
Temos compromisso com a estabilidade, com o controle da inflação,
com a melhoria da qualidade do gasto público e a manutenção de um bom
desempenho fiscal.
Seguimos, Senhor Presidente, apoiando a reforma do FMI.
Seguimos, Senhor Presidente, apoiando a reforma do FMI.
A governança do fundo deve refletir o peso dos Países emergentes e
em desenvolvimento na economia mundial. A demora nessa adaptação reduz
sua legitimidade e sua eficácia.
Senhoras e Senhores, Senhor Presidente,
O ano de 2015 marcará o 70º aniversário das Nações Unidas e o 10º aniversário da Cúpula Mundial de 2005.
Será a ocasião para realizar a reforma urgente que pedimos desde aquela cúpula.
Impõe evitar a derrota coletiva que representaria chegar a 2015 sem
um Conselho de Segurança capaz de exercer plenamente suas
responsabilidades no mundo de hoje.
É preocupante a limitada representação do Conselho de Segurança da ONU face os novos desafios do século XXI.
É preocupante a limitada representação do Conselho de Segurança da ONU face os novos desafios do século XXI.
Exemplos disso são a grande dificuldade de oferecer solução para o
conflito sírio e a paralisia no tratamento da questão israelo-palestina.
Em importantes temas, a recorrente polarização entre os membros permanentes gera imobilismo perigoso.
Urge dotar o Conselho de vozes ao mesmo tempo independentes e
construtivas. Somente a ampliação do número de membros permanentes e não
permanentes, e a inclusão de países em desenvolvimento em ambas as
categorias, permitirá sanar o atual déficit de representatividade e
legitimidade do Conselho.
Senhor Presidente,
O Debate Geral oferece a oportunidade para reiterar os princípios
fundamentais que orientam a política externa do meu país e nossa posição
em temas candentes da realidade e da atualidade internacional.
Guiamo-nos pela defesa de um mundo multilateral, regido pelo Direito
Internacional, pela primazia da solução pacífica dos conflitos e pela
busca de uma ordem solidária e justa – econômica e socialmente.
A crise na Síria comove e provoca indignação. Dois anos e meio de
perdas de vidas e destruição causaram o maior desastre humanitário deste
século.
O Brasil, que tem na descendência síria um importante componente de nossa nacionalidade, está profundamente envolvido com este drama.
O Brasil, que tem na descendência síria um importante componente de nossa nacionalidade, está profundamente envolvido com este drama.
É preciso impedir a morte de inocentes, crianças, homens, mulheres e
idosos. É preciso calar a voz das armas – convencionais ou químicas, do
governo ou dos rebeldes.
Não há saída militar. A única solução é a negociação, o diálogo, o entendimento.
Não há saída militar. A única solução é a negociação, o diálogo, o entendimento.
Foi importante a decisão da Síria de aceder à Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas e aplicá-la imediatamente.
A medida é decisiva para superar o conflito e contribui para um
mundo livre dessas armas. Seu uso, reitero, é hediondo e inadmissível em
qualquer situação.
Por isso, apoiamos o acordo obtido entre os Estados Unidos e a
Rússia para a eliminação das armas químicas sírias. Cabe ao Governo
sírio cumpri-lo integralmente, de boa-fé e com ânimo cooperativo.
Em qualquer hipótese, repudiamos intervenções unilaterais ao
arrepio do Direito Internacional, sem autorização do Conselho de
Segurança. Isso só agravaria a instabilidade política da região e
aumentaria o sofrimento humano.
Da mesma forma, a paz duradoura entre Israel e Palestina assume
nova urgência diante das transformações por que passa o Oriente Médio.
É chegada a hora de se atender as legítimas aspirações palestinas por um Estado independente e soberano.
É também chegada a hora de transformar em realidade o amplo consenso internacional em favor de uma solução de dois Estados.
As atuais tratativas entre israelenses e palestinos devem gerar resultados práticos e significativos na direção de um acordo.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores,
A história do século XX mostra que o abandono do multilateralismo é
o prelúdio de guerras, com seu rastro de miséria humana e de
devastação.
Mostra também que a promoção do multilateralismo rende frutos nos planos ético, político e institucional.
Renovo, assim, o apelo em prol de uma ampla e vigorosa conjunção de
vontades políticas que sustente e revigore o sistema multilateral, que
tem nas Nações Unidas seu principal pilar.
Em seu nascimento, reuniram-se as esperanças de que a humanidade poderia superar as feridas da Segunda Guerra Mundial.
De que seria possível reconstruir, dos destroços e do morticínio, um mundo novo de liberdade, de solidariedade e prosperidade.
Temos todos a responsabilidade de não deixar morrer essa esperança tão generosa e tão fecunda.
Muito obrigada, Senhores e Senhoras.
Fonte: http://noticias.uol.com.br/internacional/
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