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sábado, 21 de setembro de 2013

Ditadura Militar tinha ‘arapongas’ em Volta Redonda e Barra Mansa


A hora da verdade

Documentos mostram que Ditadura Militar tinha ‘arapongas’ em Volta Redonda e Barra Mansa
Lívia Venina
Dizem, não sem alguma razão, que um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la no que tem de pior. É por isso que, embora possa parecer deveras repetitivo falar sobre o período da Ditadura Militar no Brasil, nunca é demais lembrar que, por causa da repressão política, mais de mil pessoas foram submetidas a torturas excruciantes e mortas por agentes do Estado. Sob o argumento de que era preciso defender o país da ‘ameaça comunista’, mulheres – grávidas ou não – foram estupradas, mutiladas, seviciadas e mortas. Os relatos de quem sobreviveu não deixam dúvidas: de 1964 a 1985, quando da abertura política, o Brasil conviveu intimamente com a barbárie.
Durante anos os documentos oficiais do Regime Militar brasileiro estiveram fora do alcance da imprensa e da população. Mas desde o início de agosto, o projeto ‘Brasil Nunca Mais Digital’ passou a disponibilizar pela internet, a quem estiver interessado, os documentos relacionados às prisões políticas da época. A pesquisa que deu origem ao acervo digital foi coordenada pela Arquidiocese de São Paulo e teve início em 1979. Devido ao risco de apreensão do material por parte dos militares, ainda no começo da década de 1980, grande parte da documentação foi enviada ao exterior, onde se manteve a salvo.
Todos os documentos – cerca de 1 milhão de cópias em papel e 543 rolos de microfilmes onde foram reproduzidos 707 processos judiciais consultados durante a pesquisa – foram repatriados há dois anos. Agora, a ideia é recuperar a história das torturas, dos assassinatos de presos políticos, das perseguições policiais e dos julgamentos tendenciosos a partir dos próprios documentos oficiais que, segundo o Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, procuravam legalizar a repressão política entre 1964 e 1979.

Folheando os documentos dá para ter acesso à História até então oculta sobre o que de fato aconteceu naqueles anos sombrios. Dá para encontrar informações relacionadas, por exemplo, a figuras importantes de Volta Redonda e Barra Mansa e notar que, embora a tecnologia não fosse avançada como é hoje, a rede de informações dos órgãos de repressão era rápida, eficiente e certeira – embora não fosse exatamente justa.

Para se ter ideia do que isso significa, basta dizer que as investigações sobre o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick em setembro de 1969 – realizado por integrantes das organizações de extrema-esquerda MR-8 e Ação Libertadora Nacional (ALN), no bairro do Humaitá, no Rio – chegaram a Volta Redonda e Barra Mansa, onde funcionava o Batalhão de Infantaria Blindada (BIB). Em novembro daquele mesmo ano, o militar Armênio Pereira Gonçalves, morador do Laranjal, foi convidado a prestar depoimen-to no Quartel General

da Divisão Blindada, na capital.

Lá, foi questionado por seus colegas de farda sobre eventos que teriam acontecido em Barra Mansa e que poderiam estar ligados à ação dos subversivos. Qualquer detalhe, por menor que fosse, era averiguado. Um dos termos de inquirição de testemunha a qual o aQui teve acesso mostra que os militares estavam atentos a tudo, o tempo todo. Tanto que perguntaram a Armênio se Ildélio Martins – então diretor do Departamento Nacional do Trabalho – em discurso que teria feito na inauguração de um posto do DNT em Barra Mansa “teria concitado os trabalhadores para a conquista do poder”.
Armênio respondeu que não. E contou que a reunião – que aconteceu num imóvel na Rua Orozimbo Ribeiro, cedido pela prefeitura – “transcorreu com normalidade, não tendo havido referências desairosas ao Governo ou à Revolução de Março (como os militares chamavam o Golpe Militar, grifo nosso)”. Segundo disse em depoimento, “a tônica dos oradores foi o agradecimento à prefeitura de Barra Mansa por sua colaboração”. À Armênio, diz o documento, foram apresentadas fotografias para que pudesse apontar quem eram as pessoas presentes à inauguração. Dentre elas, confirmou o militar, estava o então prefeito Marcello Fonseca Drable, “identificado com o governo da Revolução, e o tenente Fernando, representante do comandante do Batalhão”.
O militar disse ainda que três das pessoas das fotos seriam “informantes colaboradores”. “Palmir Antônio da Silva é considerado de tendência esquerdista, não tendo, no entanto, causado maiores dificuldades em relação à repressão do 1º Batalhão de Infantaria Blindada contra os elementos esquerdistas do Sindicato dos Metalúrgicos”, contou Armênio em depoimento, acrescentando que os “esquerdistas do Sindicato” foram posteriormente demitidos “após ingentes esforços do Batalhão neste sentido”.
Para esclarecer as desconfianças dos militares quanto ao evento de Barra Mansa, Armênio tratou de avisar que as informações publicadas pelo jornalista Mury Jorge Lydia – autor da coluna ‘Informe Sindical’ da Tribuna da Imprensa – em 20 de outubro de 1969, “no que se refere a um discurso proferido em Barra Mansa são totalmente inverídicas, evidenciando que o autor não acompanha e não conhece o Coronel da Blindada de Volta Redonda”. Se conhecesse, explica Armênio, saberia que qualquer discurso contra o Regime seria prontamente reprimido. “Em caso de tal gravidade, sem dúvida, (o coronel) teria a iniciativa de prender os incitadores e agitadores, bastando comunicar os fatos e solicitar homologação de seus atos ao escalão superior”, asseverou.
Por que D. Waldyr não foi calado pela Ditadura?

Os documentos disponíveis mostram que o Exército estava no encalço de personalidades conhecidas na cidade – como o bispo D. Waldyr Calheiros e o padre Bernardo Thus, que morreu há menos de um mês – e acompanhava minuciosamente tudo o que acontecia em Volta Redonda. Tanto que montou um verdadeiro dossiê sobre D. Waldyr.
Nele, descobre-se que em 1967 o bispo de Volta Redonda teria autorizado o diácono francês Guy Michel Camille Thibaut a utilizar uma Kombi da Diocese para transportar até Barra Mansa “quatro indivíduos” que “lançavam panfletos subversivos na cidade”. Diz o relatório do inquérito policial-militar que os tais panfletos “incitavam a população contra as autoridades constituídas e contra as Forças Armadas”. A Kombi foi detida, assim como os quatro rapazes.
Tem mais. Os documentos deixam claro que o Regime Militar tinha verdadeiro horror ao que chamavam de “clero progressista” – que, em Volta Redonda, tinha como principais expoentes o bispo D. Waldyr Calheiros e o padre Bernardo Thus. Para os militares, uma simples peça teatral – o Auto da Sexta-feira Santa – apresentada na Igreja de Santa Cecília, na Vila, era um “crime” contra a segurança nacional.
A peça, que foi apresentada em 12 de abril de 1968, escandalizou os ‘arapongas’ da Ditadura. Segundo eles, o esboço da encenação foi feito por Antonio Carlos Santini e, em seguida, entregue ao padre Paulo Heckers, responsável pela organização definitiva do texto. O ator principal foi o hoje diretor teatral Bernardo Maurício e a autorização para apresentação da peça foi dada pelo pároco local, padre Bernardo Thus.
Segundo o relatório relacionado ao episódio, padre Bernardo disse que estava de acordo com o texto do Auto. E que a Diocese também estava de acordo. Mas, para o Regime Militar, “o Auto da Sexta-feira Santa é uma mensagem de protesto, através de falsas referências à fraternidade”, que teria por principal objetivo “incitar pobres contra ricos”. Em dezembro de 1968, aponta o relator do inquérito, por ocasião da festa de Natal, foi montado na Igreja de Santa Cecília um presépio que tinha, ao fundo, um painel considerado “grotesco” pelos agentes da Ditadura. “Atrás de umas grades, foram colocadas duas cabeças: uma de adolescente e, a outra, de adulto. Embaixo da cabeça do menino estavam escritas as expressões ‘FUI PRESO – pela doença – pela ignorância – pelo egoísmo – pela riqueza – pela injustiça – pelo ódio – pela polícia – pela revolução – pelos poderosos’”, descreveu o araponga.

Ele continuou. “Sob a cabeça de adulto; ‘VIM LIBERTÁ-LO’, seguindo-se outras expressões. Segundo várias testemunhas – inclusive de sacerdotes –, era voz corrente na cidade que a figura de adulto significava GUEVARA, e não CRISTO”, emendou, acrescentando que o próprio D. Waldyr teria tomado conhecimento do ‘boato’, sem tomar nenhuma ‘providência’. O relatório aponta, ainda, que tanto padre Bernardo quanto D. Waldyr e padre Arnaldo André Bremenkamp confirmaram que a imagem do rapaz, no painel, fazia referência à Ditadura e também a dois padres presos sem motivo em Belo Horizonte.
Para o Regime Militar, ficou claro que houve através desses fatos, em Volta Redonda, “a transposição de um problema político-subversivo para o interior de uma igreja”, “a crítica aberta ao governo e ao regime instituído em 1964”, “o incitamento do povo contra o governo, responsável pelas supostas atrocidades” e “a omissão do bispo diocesano”, dentre outras.
A pergunta que muitas pessoas se fazem, ainda hoje, é por que D. Waldyr Calheiros, que tanto incomodava os militares, não foi ‘calado’ pela Ditadura? Os documentos que agora vêm à tona revelam que tocar em D. Waldyr traria publicidade negativa ao Governo. “Evidentemente, a prisão de um bispo da Igreja Católica Apostólica Romana, efetivada em uma unidade do Exército, incitaria a opinião pública contra as Forças Armadas, exatamente quando essas Forças Armadas haviam tomado, há apenas um mês, a atitude decisiva que conduziu ao Ato Institucional n.º 5”, diz o relator do inquérito, acrescentando que o país, naquela época, “precisava, mais que nunca, de compreensão e de paz, e a prisão de D. Waldyr, se aceita pelo Coronel Armênio, levaria a consequências imprevisíveis”, inclusive com repercussão nacional.
‘Salão de Namoro’ e mulher do padre

Em Barra Mansa, assim como na cidade do aço, os militares estavam de olho em tudo o que acontecia. Lá, os padres também eram alvo de investigações e até uma polêmica envolvendo a comunidade católica do bairro Boa Sorte chegou a ser relatada ao Regime Militar. Foi quando o então deputado estadual Leonísio Sócrates Batista levou ao conhecimento do comandante do 1º BIB – coronel Armênio – que moradores da Boa Sorte haviam solicitado que levasse um abaixo-assinado ao Arcebispo de Niterói para denunciar o padre Alcino Camatta por haver entregue a capela de Nossa Senhora de Fátima a um grupo de jovens, que a teriam transformado em salão de baile e em ‘salão de namoro’.
Além disso, fizeram questão de esclarecer que decidiram dirigir-se ao arcebispo de Niterói porque o bispo da Diocese – D. Waldyr Calheiros – era “conivente com todas as modificações avançadas realizadas pelo vigário da paróquia, em desacordo com as determinações do Concílio Ecumênico”. O primeiro a assinar o abaixo-assinado, mostra o relatório, foi o jornalista Arlindo Lopes Ferreira, católico praticante que se revoltou com o fato de integrantes da Comunidade de Jovens Cristãos (CJC) sentarem-se no altar para tocarem seus instrumentos musicais.
Já o funcionário público Beltrão Dias Beltrão foi além. Disse aos militares que o padre Alcino Camatta, então pároco titular da Matriz de São Sebastião, teria “namorada firme no bairro Vila Independência, em Barra Mansa, como é público e notório”. Mostram os documentos que D. Waldyr, questionado sobre o suposto namoro do padre, teria dito que tinha, sim, conhecimento do boato. Mas que, conversando com o padre Alcino, este não teria confirmado – nem negado – a história. 
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  Fonte: http://www.jornalaqui.com

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