“Câmara devia dar salva de prata às mães que perderam os filhos nos embates com a PM”
Com
37 votos favoráveis, 15 contrários e uma abstenção, a Câmara Municipal
de São Paulo aprovou, nessa terça-feira (3), a salva de prata que
concede homenagem à Rota (Ronda Ostensiva Tobias Aguiar). Proposto pelo
ex-chefe da corporação, vereador Coronel Telhada (PSDB), o projeto
enfrentou resistência por parte dos vereadores da Casa e por militantes
de movimentos sociais que estiveram presentes para barrar a homenagem.
Como era previsto, houve tumulto e truculência policial com os
ativistas.
Por três tentativas, a homenagem
ficou pendente de votação ao não conseguir o voto favorável de 37 dos 55
vereadores. Isso ocorreu após o vereador Toninho Vespoli (PSOL) pedir
votação nominal, o que forçou a bancada do PT, a maior da Casa com 11
vereadores, a votar contra o projeto. Mesmo assim, o esforço do vereador
não foi suficiente para barrar a homenagem.
Em entrevista ao Brasil de Fato,
Vespoli afirma que o núcleo do PT – exceto dois vereadores - queria que
a homenagem fosse logo aprovada ‘para poder votar outros projetos’. Ele
também lamenta que essa salva de prata para a Rota tenha passado pela
Casa, pois considera que o efetivo da Polícia Militar não está a serviço
da sociedade.
“Se a gente for ver mesmo o
papel da polícia e suas leis, elas são para proteger quem tem bens, a
propriedade privada e o capital. Não está para proteger o ser humano.”
Brasil
de Fato - Ontem foi aprovada, por 37 votos favoráveis, a chamada salva
de pratas à Rota. O senhor, que desde o início se posicionou contra essa
homenagem, como avalia essa aprovação da Câmara?
Toninho Vespoli – Foi
ruim para a cidade de São Paulo e principalmente para a imagem da
Câmara Municipal, porque é só andar na periferia da cidade que a gente
vai ver a avaliação que as pessoas têm dessa organização. A Câmara devia
dar uma salva de prata às mães que perderam seus filhos nos embates com
a PM. Principalmente da Rota. Até porque a Rota é um efetivo da PM que
tem mais ou menos 14% das mortes em confrontos com pessoas da sociedade.
E 60% delas nunca tiveram passagem na polícia. Aqui no Brasil tem
algumas coisas que são legitimadas. Algumas instituições podem fazer
justiça com as próprias mãos. Então, se for bandido, tá no direito de
matar. É gravíssimo isso.
O Mapa da
Violência aponta que as principais vítimas da violência policial são os
jovens negros e moradores das periferias. Para entidades de direitos
humanos, a alta letalidade policial é ineficiente no objetivo de conter a
violência. Então, qual o sentido ou a justificativa de uma homenagem
dessas?
Claro que a princípio todos
os vereadores podem propor homenagem. Entre acordos históricos da
Câmara, cada vereador pode apresentar oito Projetos de Lei (PDL), oito
homenagens por ano. Se você pegar as homenagens do vereador Telhada são
todas para a corporação, ou para um coronel, ou para um tenente ou para a
cavalaria. Não sou contra. As pessoas têm o direito de propor. O
problema é que, por exemplo, eu estou como vereador hoje, mas sou um
professor, então eu não posso olhar simplesmente agora de uma maneira
corporativista para os professores. Eu tenho que ter propostas para
cidade de São Paulo. Eu tenho que prestar homenagens às várias
organizações de pessoas que realmente contribuíram para a melhoria de
qualidade de vida como cidadãos da cidade.
As
vezes eu fico até pensando que algumas salvas de pratas que ele propõe é
no que ele vai propor para causar para ficar na mídia. Não é possível.
Ele vai colocando essas coisas porque ele sabe que na Câmara tem gente
que não comunga com essas questões e que vai polemizar, e a polêmica faz
com que ele alcance a mídia.
Em
abril, quando teve a primeira votação para essa homenagem, sete dos 11
vereadores do PT foram a favor do projeto. Mas ontem todos se
posicionaram contra. O que fez eles mudarem de opinião?
São
dois aspectos. Na verdade eles não foram a favor. Quando você propõe um
PDL a uma homenagem, passa uma lista para você assinar, se você
concorda ou não com o projeto. Esses vereadores assinaram essa lista
concordando com o PDL. Conversei com dois deles, inclusive com o
vereador Alfredinho (PT) que também assinou. Ele falou para mim que tem
tantos papéis para assinar que é meio que de praxe você não ser contra
homenagens. As pessoas costumam nem reparar direito e acabam assinando.
As
vezes vem 30 ou 40 papéis para você assinar de uma vez só. O certo era
você ler com calma cada um. Isso acaba atrapalhando um pouco o
raciocínio das pessoas. Isso é uma coisa. É isso que eles falam.
Mas
apesar do PT ter votado contra, o núcleo do PT na Câmara Municipal, por
debaixo dos panos, não via a hora que o projeto fosse aprovado. Na
verdade, a Câmara ficou meio parada, inclusive com pautas com projetos
do governo.
Um fato concreto é, por exemplo, na
terceira votação, que eles conseguiram 36 votos. O José Américo (PT)
[presidente da Câmara] pediu o adiamento da questão por cinco minutos.
Na verdade, o adiamento foi quase dez minutos, porque tentava-se
equacionar o problema. Um vereador do PSDB tava ligando para todos os
gabinetes pedindo para os outros vereadores descerem para votar,
nitidamente dando tempo para que o PSDB pudesse articular a situação.
Mesmo assim eles não conseguiram.
Nas falas no
plenário, os vereadores do PT queriam votar logo o Projeto. Apesar que
tinha os contras, que era a Juliana o Nabil. Mas por debaixo do pano o
governo se preocupou que isso estava travando a pauta do executivo, dos
interesses da Câmara, e queriam limpar isso logo da pauta para poder
votar outros projetos. O núcleo do PT trabalhou para isso.
Como é vista pelo senhor essa postura do Telhada em convocar policiais e familiares para forçarem a aprovação do projeto?
Como
ele já tinha tentado três vezes e não tinha conseguido, foi uma
artimanha para tentar pressionar os vereadores que estavam meio em
dúvida. É até legítimo, democrático. Eu posso ter opinião totalmente
contrária, divergente, mas você viver com a democracia, mesmo quando
você perde, faz parte.
As pessoas que se
manifestarem quanto a isso e chamarem outras pessoas para manifestar é
legítimo. O que eu não abro mão é das minhas convicções. Sou totalmente
contra a proposta.
Se a gente for ver mesmo o
papel da polícia e as leis, elas são para proteger quem tem bens, a
propriedade privada e o capital. Não está para proteger o ser humano.
Mas não dá para falar que eles fizeram errado. Foi a primeira vez que
eu vi aquela galeria cheia.
Eu acho que o
debate é importante. Independente das posições políticas, a cidade tem
que discutir mais as coisas que acontecem na Câmara Municipal.
Qual a opinião do senhor sobre a desmilitarização da polícia?
Eu
sou a favor da desmilitarização. Porque é um escopo que vem desde a
ditadura, e se a gente olhar para todo esse processo, quando a gente
fala que a polícia é violenta, uma ação preconceituosa contra o pobre e
principalmente contra o negro, isso vem de todo aquele perfil da
ditadura que, inclusive, a Rota fez parte desse processo, que era abafar
os movimentos sociais. Toda essa ideologia está ainda carregada na
Polícia Militar.
Então, desmilitarizar a polícia, passa por discutir por qual concepção de polícia que a gente quer na sociedade.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/25762
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