Político deve ganhar igual a professor, diz vereadora eleita após vídeo na web
Amanda Gurgel, a professora que ficou famosa no YouTube, avalia como positivo o trabalho na Câmara de Natal, mas diz se sentir mais importante na sala de aula
Depois de ficar conhecida nacionalmente por um vídeo no
YouTube em que aparece constrangendo políticos, a professora Amanda
Gurgel (PSTU-RN) foi eleita a vereadora mais bem votada da história de
Natal, no Rio Grande Norte, com 33 mil votos. Seis meses depois de
assumir o mandato, ela avalia como “positiva” a oportunidade de “estar
vigilante para a população” na Câmara Municipal, mas não tem receio de
dizer que se sentia mais importante para a sociedade como professora.
Em entrevista ao iG
, a agora vereadora conta sobre os dilemas de pertencer à classe
política, sem poupar os colegas. “Toda tragédia na vida das pessoas é
elaborada e produzida dentro do Parlamento”. Na opinião de Amanda, os
vereadores deveriam receber o salário equivalente ao de um professor de
ensino público. “Nossa defesa é que um vereador receba o mesmo salário
de um professor. Assim, se o vereador quisesse ganhar um salário de R$
15 mil (atual remuneração dos vereadores de Natal), também deveria
aumentar o salário de professor de R$ 1.300 para R$15 mil. Aqui na nossa
cidade nem sequer o piso é cumprido”, argumentou.
"Políticos estão preocupados em fazer projetos que vão beneficiar empresários", diz Amanda
A professora ainda compara as manifestações
brasileiras de junho com o sucesso do vídeo, que a levou a se
candidatar. “(Naquela época) já havia uma situação limite. A própria
repercussão do meu vídeo já demonstrava isso. Ali houve enfrentamento de
uma pessoa contra deputados. As pessoas acharam aquilo o máximo porque
era uma pessoa comum colocando o dedo na cara de um político”, reflete.
Leia abaixo a entrevista na íntegra:
iG - Um ano após a eleição, como você avalia sua participação na política?
Amanda Gurgel
- Na verdade, agora estou vendo a política de outro ângulo, desde antes
eu participava de movimento estudantil, sempre fui ativista, estive
antenada com a questão política na cidade Mas como vereadora consegui
ver coisas por um ângulo diferente. Dentro da Câmara de Vereadores, os
debates que são feitos quase nunca interessam para a população e, quando
são, a posição majoritária na Câmara sempre é contrária aos interesses
da população. Como hoje em que aprovamos um projeto de empréstimo para a
Prefeitura de Natal para pagar parte das obras da Copa. Cerca de R$ 40
milhões dessa dívida poderia ser investido em educação, transporte,
saúde.
iG - Há dois anos, quando seu vídeo teve milhões
de acesso, você disse que os políticos estavam se lixando para a
educação, que as impossibilidades e limitações são feitas por eles
mesmos. Continua pensando assim ou sua visão mudou?
Amanda Gurgel -
Continuo pensando assim. Na verdade é como esse mesmo exemplo que
acabei de dar. Os políticos estão preocupados em fazer projetos que vão
beneficiar empresários, beneficiar empreiteiras. Se for licitação para
transporte público, é pra beneficiar essas empresas de transporte. E,
diretamente, deixam de destinar recursos para educação. Aqui na cidade
são 35 mil crianças fora da creche. Existe um projeto de execução de 21
creches. Ainda não foi construída nenhuma. Já vai fazer um ano deste
novo governo. Mas, mesmo após esse descaso, conseguimos ampliar na LDO
(Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 25% para 30% o investimento em
educação pública. Isso só foi possível no auge das manifestações que
clamavam por melhorias na educação. Ai os vereadores aprovaram.
iG – Também na época em que ficou famosa, você
recebeu convites para se candidatar, mas afirmava que não sabia se era
isso o que queria para sua vida? O que você agora? Pretende seguir na
política ou se arrepende?
Amanda Gurgel -
Na verdade para minha vida, se for por uma questão pessoal, de
interesse próprio, não tinha esse projeto de ser vereadora ou de ocupar
de qualquer cargo público. O que aconteceu é que houve um convencimento
público. A forma de fazer política nessas instituições, do parlamento,
enquanto for desse jeito, a vida das pessoas pode melhorar pouco. A
partir disso, nosso partido tem obrigação de participar. Por enquanto
estou ainda disponibilizando meu nome. Não sei até quando. Do ponto de
vista pessoal, acho que está sendo uma experiência muito importante. Do
ponto de vista político, por enquanto, estou (vereadora).
iG – Você se sentia mais importante naquela época, como professora, ou agora, como política?
Amanda Gurgel -
Eu me sinto mais importante como professora, mas a vantagem de ser
vereadora é que consigo viabilizar muitos temas que vão além da
educação, mas da cidade também, do transporte, não apenas dos
professores e dos estudantes. Com essa atividade, tenho oportunidade de
cobrar, fazer denúncias, estar vigilante para todos os problemas,
questões de saúde, de transporte. Então, assim, desse ponto de vista é
importante o mandato por isso. Mas do ponto de vista social, não tenho
dúvida que era mais importante como professora.
iG – Você se constrange em ganhar agora um salário
de R$ 15 mil por mês já que foi sua fala sobre os baixos salários do
professor em Natal que também deram visibilidade ao vídeo na ocasião? É
um incomodo para você?
Amanda Gurgel -
Eu Já tinha falado sobre isso desde a época da campanha. Não utilizo (o
salário) para minha própria vida. Continuo utilizando o equivalente ao
salário de professor. O restante do salário é destinado ao partido, que
destina isso para muitas necessidades, como para trabalhos dos
movimentos sociais. E, na verdade, é uma questão de princípio do meu
partido. Todas as pessoas, todos que são candidatos, tem essa mesma
obrigação.
iG – Você acha que os outros vereadores deveriam receber salários menores?
Amanda Gurgel -
Com certeza. Nossa defesa é que vereador receba o mesmo salário de um
professor. Assim, se o vereador quisesse ganhar um salário de R$ 15 mil,
também deveria aumentar o salário de professor de R$ 1.300 para R$15
mil. Aqui na nossa cidade nem sequer o piso é cumprido. Infelizmente não
é possível (entrar com projeto para vincular salário dos vereadores ao
dos professores) porque pelo registrado na Lei Orgânica, um vereador não
pode legislar sobre o próprio salario, a menos que mudasse a Lei
Orgânica, mas é um esforço em vão. Não vou conseguir coletar as
assinaturas necessárias. Seria um tempo que deixaria de dedicar à
educação, ao Passe Livre, à vida da população. E as pessoas não estão se
mobilizando com isso,
iG – O que mudou na sua vida pessoal depois da eleição? Você ainda anda de ônibus por exemplo?
Amanda Gurgel -
Era impossível conciliar a atividade parlamentar usando ônibus. É
impossível ir em mais de duas ou três reuniões em um dia de ônibus.
Então disponho de um carro por conta do mandato e me locomovo nesse
carro.
iG – Que projetos você destaca dos quais propôs nesse início de mandato?
Amanda Gurgel -
Além da aprovação dos 30% dos recursos para educação, a gente também
elaborou o projeto do Passe Livre após as manifestações, que garante
Passe Livre para estudantes aqui na cidade e vai à votação provavelmente
na semana que vem. A juventude já está fazendo pressão nos vereadores,
de gabinete em gabinete. Se esse projeto for aprovado, entrará para a
história do município. É um marco importante.
"Do ponto de vista social, não tenho dúvida que eu era mais importante como professora"
iG – Aliás, sobre as manifestações, você
participou em algumas delas e acabou vaiada por levar a bandeira do seu
partido. Como você reagiu a isso?
Amanda Gurgel -
Participei de todos os protestos e levei sempre a bandeira do meu
partido. Teve um, é verdade, em que todas as bandeiras foram rechaçadas.
Nós tivemos que dizer que nosso partido sempre esteve nas ruas, desde
quando eram 100, 200 pessoas, até o de 10 mil pessoas. Mas entendemos
essa rejeição. Concordamos com essa rejeição porque achamos que são
contra os partidos políticos tradicionais, que são responsáveis pela
tragédia na vida das pessoas. As pessoas perceberam a diferença entre o
meu parido, revolucionário, socialista, dentro do próprio debate. Nas
manifestações essas opiniões foram sendo revistas. Aqui na minha cidade,
varias pessoas que estavam contra os partidos estão no PSTU. Estão
vendo que o PSTU defende os trabalhadores e a juventude.
iG – Como avalia essa repulsa a partidos políticos?
Amanda Gurgel -
A gente já vinha fazendo avaliação, já havia uma situação limite. A
própria situação do meu vídeo já demonstrava isso. Ali ouve
enfrentamento de uma pessoa contra deputados. As pessoas acharam aquilo o
máximo porque era uma pessoa comum colocando o dedo na cara de um
político. Achamos isso (manifestações) positivo. A nossa opinião é que
toda tragédia na vida das pessoas é elaborada e produzida dentro do
parlamento. Nós achamos que é positivo. Agora fazemos questão de
participar das manifestações usando nossas bandeiras, nossos cartazes
para que pessoas saibam e reconheçam nossa diferença.
iG – Sentiu algum preconceito imediato da população ao passar para o lado da política?
Amanda Gurgel -
Não, até agora não percebi esse tipo de reação. A minha atuação é de
denúncia dos problemas dentro da Câmara e isso reflete dentro da
sociedade. As pessoas estão aceitando muito bem.
iG – O que vai fazer se não continuar na política? Vai voltar a ser professora?
Amanda Gurgel -
Se eu entender que tenho que deixar de disputar espaço na política, pretendo, com certeza, voltar a dar aula .
Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br
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