Política
Opinião
A esquerda genuflexa (e pragmática)
Os avanços eleitorais têm servido para encobrir a
derrota ideológica por WO, porque sua trágica característica é a
renúncia da esquerda ao debate das teses que a justificam
Olívio Dutra enobrece a política brasileira. Probo,
coerente (guarda extraordinária harmonia entre a vida privada e
a pública, ao que diz e prega e faz), culto (e aí torna-se avis rara
na política brasileira de hoje) e de esquerda, formado na militância e
na vida. Olívio está afastado das disputas eleitorais – graças aos erros
rotundos de seu partido – mas não abandonou a política como espaço de
reflexão. Isto pode ajudar nosso país, se a política lhe der ouvidos.
Em recente entrevista ao Correio do Povo (1º/9/2013),
aparentemente referindo-se ao seu partido (PT), o ex-governador gaúcho
na verdade está advertindo a todos nós, de especial – aos poucos,
pouquíssimos, dirigentes de esquerda – sobre a trágica falência do
sistema partidário brasileiro: “Precisamos de um partido que não se
misture com as práticas tradicionais do toma-lá-dá-cá, do pragmatismo,
do jeitinho, que fazem da política essa coisa que não transforma nada
nas suas raízes, que acomoda fazendo de conta que muda, mexendo na
superfície”.
É o diagnóstico redondo da crise dos partidos, mãe da crise da
política, que não encontra no Parlamento (este que, entre outras
estripulias, absolveu Donadon, dando luz à figura do
deputado-presidiário) espaço para o que quer que seja. Daí, a explosão
das ruas. Explosão que não pode ser, porém, mera válvula de escape no
momento de maior pressão, e que também não pode esvaziar-se em uma
agenda negativista, um niilismo absoluto que nega tudo, mas nega
principalmente a política – o campo da crise, é verdade, mas também, e
acima de tudo, o único espaço da solução.
A política de terra arrasada do niilismo, o nada contra o nada, é,
pretendendo o contrário, vassala dos que minam a política destruindo os
partidos, por dentro, como caruncho, e, por consequência, minam a
democracia. Ao invés do nada, devemos, com as ruas, pleitear tudo, a
começar pelas transformações estruturais. Mas essa tarefa não pode ser
liderada por um governo condicionado por uma coalizão partidária
caleidoscópica que não comunga com seus projetos, como também não pode
ser dirigida por partidos de esquerda que vêm paulatina mas
sistematicamente saltando para a outra margem do rio. Nem com aquele
grande partido cuja missão é garantir que tudo fique como está, em
qualquer tempo e em qualquer governo.
Volto a Olívio Dutra: “Temos políticas de governo importantes, que
tinham de ser feitas, mas precisamos de políticas de Estado,
transformadoras e duradouras. Deve haver um compromisso de esquerda. O
campo popular democrático precisa ser mais nítido na sua conformação
ideológica, e os partidos que o compõem, mais compromissados entre si
em diferentes mandatos, com alternativas entre eles”.
O governo, nosso governo, esquiva-se de institucionalizar as
conquistas e não lhes empresta significado político-ideológico, e assim
elas se consomem como projetos burocráticos, não servem nem à
sustentação dele, governo, nem à politização das massas. A base aliada
(alugada, com fidelidade que cobra taxas extras a cada votação
significativa) é liderada por um PMDB cuja sobrevivência depende da
inexistência de mudanças, pois sua fonte de poder é a inércia social: é
preciso deixar tudo como está para que ele continue governando os
grotões e as casas legislativas, a começar pelo Congresso Nacional.
Diz Olívio Dutra que “Nas últimas décadas, o PT secundarizou a
vinculação aos movimentos sociais. Há um processo de burocratização que
faz esse partido de transformação, aos poucos, entrar em acomodação, o
que o coloca também como objeto das críticas das ruas. O povo quer
mudanças muito mais profundas e amplas, para que o Estado funcione bem e
melhor e não apenas para alguns. O PT precisa ser sacudido de baixo
para cima”.
Eu vou mais longe: todos os partidos de esquerda precisam ser
passados a limpo. A verdade é que, liderados pelo PT, os partidos do
campo popular já aderiram a esse ‘pragmatismo’, e, adotando a mesma
política e praticando os mesmos métodos, e vícios, se confundem com os
partidos conservadores, principalmente em seus métodos, e na verdade se
transformaram em partidos (e sindicatos) da ordem. É até admissível que,
no governo e nele mal sustentados, esses partidos renunciem ao ideário
revolucionário, mas ninguém lhes pediu que renunciassem, até, ao
reformismo dos anos 60 quando as ruas de então pediam reforma agrária,
reforma universitária, reforma tributária, reforma política etc., a
saber, as reformas de hoje, as quais, no seu conjunto, pedem mais
Estado.
Em entrevista a Daniela Pinheiro (“O comissário”. Piauí,
setembro de 2013, p. 26), o historiador Lincoln Secco vaticina, como
futuro do partido de Lula, “transformar-se em um partido totalmente
eleitoral”, apesar de o Brasil, acrescenta, ter ainda muitos miseráveis
“que podem ser atingidos pelas ações de assistência social”, donde se
conclui que, na sua opinião, o PT depende dos assistencialismo
tradicional que depende da sobrevivência da miséria que nossos governos
têm o dever programático e ético de eliminar. Penso que esse fenômeno
deve ocorrer no médio prazo – se a conservação no poder constituir-se em
fim que justifica quase todos os meios –, e estou convencido de que se
tratará de processo coletivo: sob as largas asas do PT governista e
pragmático voarão todos os partidos do campo da esquerda com, talvez, a
exceção dos partidos da extrema esquerda que ainda se consideram
revolucionários, pelo menos enquanto não puderem ter maiores
expectativas eleitorais.
A pequena política termina vencendo a grande política. Assim é aqui, assim foi na Europa.
A tendência dos partidos de esquerda, conquistado o governo, ou para
conquistá-lo, é transitar para a socialdemocracia e os originalmente
socialdemocratas tendem para o centro e o centro para a direita
enrustida, como a brasileira de hoje.
Neste processo fomos antecedidos pela prática europeia. Lá, a
esquerda sucumbiu ideologicamente, com seus partidos transitando de suas
posições originárias – oriundas da luta antifascista na Segunda Guerra
Mundial, da luta operária e das greves – donde a identificação com o
socialismo – e dos movimentos sociais, para a socialdemocracia e várias
concordatas com a direita. Compare-se a primeira presidência de
Mitterrand com o governo de Hollande, ambos do mesmo PSF; o trabalhismo
de Clement Attlee e Harold Laski com a degenerescência ético-política
de Tony Blair. Os fracassos sucessivos dos partidos socialistas
português, espanhol, grego e italiano, ensinando que não vale a pena
ganhar eleitoralmente se o partido está disposto a fazer o governo dos
adversários.
Nessa Europa decadente, museu de impérios esvaziados pela perda das
colônias exploradas, a decadência ideológica fez-se acompanhar das
seguidas derrotas eleitorais: Inglaterra, Espanha, Suécia, Austrália,
Portugal, Grécia, Hungria, Polônia…
Diferentemente da lamentável lição europeia, na América do Sul as
ditaduras e os governos neoliberais foram seguidamente substituições por
formações progressistas, populares e mesmo de esquerda, como
Venezuela, Uruguai, Bolívia, Equador, Brasil, e os controvertidos
governos dos Kirchners.
No Brasil, porém, as vitórias eleitorais não foram acompanhadas de avanços ideológicos.
A questão de fundo – e a separação entre causa e consequência não me
parece clara – é, entre nós, a falência do pensamento de esquerda, a
ausência de reflexão e produção teórica, a renúncia ao socialismo (pelo
menos de sua defesa), donde quadros despreparados para o embate,
desmotivados para a luta, presas fáceis do pragmatismo, a um passo da
redução da revolução social à ‘revolução pessoal’, e do niilismo que
absolve tudo, das omissões ao adesismo à ordem.
Talvez tudo isso, e mais o que não sei, possam explicar a surpresa de
nossas esquerdas diante da irrupção das ruas, que já deviam estar
ocupadas e lideradas por elas, se elas, nossas esquerdas, não estivessem
silenciadas diante das questões mais graves do pais, e nossos partidos
esquecidos daquela velha lição que
dizia que seu papel era estar à
esquerda do governo. A sustentação que oferecemos ao governo é puramente
política, conservadora e tradicional, e, por tradicional, alimentada
pelo assistencialismo despolitizante.
Dá-se, assim, entre nós, aquela maldição que Secco atribui aos
partidos, em seu caminhar da oposição ao governo, da esquerda para a
direita: primeiro, a ação extraparlamentar, a prioridade à luta
sindical, o grevismo e o socialismo; depois o exercício do papel de
oposição de massa e a formação de bloco parlamentar e, por fim, e no
fim, a conquista do governo, onde, para se manter, adota as práticas da
velha política, antes condenadas.
Os avanços eleitorais têm servido para encobrir a derrota ideológica
por WO, porque sua trágica característica é exatamente essa, a renúncia
da esquerda ao debate das teses que a justificam, pois, para aqueles
avanços eleitorais, paga o preço da auto descaracterização.
Em plena crise do capitalismo, o movimento socialista mundial nega-se
a formular sua crítica e renuncia à possibilidade de construir um
sistema alternativo. No Brasil ficamos na janela, ‘olhando a banda
passar.
As seguidas e salutares derrotas eleitorais da direita,
destacadamente as de 2006 e 2010, levaram muitos de nossos
‘estrategistas’ a decretarem o fim do papel manipulador dos grandes
meios de comunicação e da capacidade da classe média, deles refém
ideológica, a influir na formação do pensamento político nacional,
acentuado seu lado mais preconceituoso, conservador e reacionário.
Passados dez anos de governos progressistas, simplesmente acentuou-se
o monopólio da (des)informação, controlado por umas três ou quarto
famílias, proprietárias de três ou quarto empresas comerciais que entre
si controlam o que a população brasileira por ler, ouvir e ver, sem
qualquer ordem de contraditório.
A história cobrará alto preço pela nossa leniência.Fonte: http://www.cartacapital.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário