Sem preços controlados, IPCA estaria em 8,0%
Em 12 meses, índices administrados pelo governo subiram apenas 1,3% e os livres, 7,9%
Nos 12 meses anteriores a julho, os chamados preços
administrados, que são controlados pelo governo, subiram ínfimo 1,3%.
Trata-se da taxa mais baixa desde a criação do sistema de metas da
inflação, em 1999. Para os economistas, a forte retração indica que há
algo estranho acontecendo porque nos preços livres, que seguem as leis
da oferta e da procura, a alta foi muito maior no período: de 7,9%. "Não
pode ser mera coincidência", diz André Loes, economista-chefe do banco
HSBC. "Ao que tudo indica, temos uma inflação represada nos preços
administrados pelo governo."
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O refresco gerado por esse represamento é pequeno no orçamento
doméstico, mas faz uma grande diferença no resultado numérico da
inflação. O economista Armando Castelar, pesquisador do Instituto
Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, explica que é uma
questão de matemática.
O Índice de Preços ao Consumidor amplo (IPCA) - que mede a inflação
oficial e nos 12 meses até julho está em 6,27% - acompanha o sobe e
desce de preço de cerca de 430 produtos e serviços bem diversificados,
de alimentos básicos como tomate, a serviços mais sofisticados como
planos de saúde. "Os preços de produtos e serviços administrados, como
luz, telefone e pedágio, representam cerca de 25% do IPCA", diz
Castelar. "Mexer em um quarto do índice tem um grande impacto no
resultado final da inflação."
Cerca de 19% do IPCA, por exemplo, é composto pelo item transportes.
Quase metade, 9 pontos porcentuais, desse total está sob a influência do
governo. Apenas a gasolina representa, sozinha, quase 4 pontos. O
governo segura o reajuste do combustível há 10 anos. A defasagem de
preço entre a gasolina vendida no Brasil e a vendida no exterior passa
de 25%.
Nessa lista também estão as tarifas de ônibus e de metrô. "Não é por
nada que quando as passeatas de junho eclodiram, o governo suspendeu o
reajuste das passagens", diz a economista Mônica de Bolle, da Galanto
Consultoria. Além de atrair a simpatia popular também foi possível levar
o aumento anual dos ônibus e do metrô a pífios 0,77%, aliviando a
inflação. Por causa de medidas como essas, nos 12 meses até julho, a
categoria transporte (lembrando, que responde por 19% do IPCA) subiu
apenas 2,18%. O governo segurou quase 10% do IPCA interferindo em apenas
três itens. "Mas é um jogo de ilusionismo, porque um dia os aumentos
terão de ser feitos", diz Mônica.
Praticamente todos os preços sob responsabilidade do governo têm
reajustes inferiores aos necessários. Na telefonia, os preços aumentaram
30% menos nos últimos 13 anos. Os medicamentos, apesar de caros,
subiram 58% entre 2003 e 2012 - 10 pontos porcentuais abaixo do IPCA no
período.
Na avaliação do economista Simão Silber, professor da Universidade de
São Paulo, a manobra do governo é perigosa. "Represar artificialmente a
inflação é como colocar uma panela de pressão no fogo com uma válvula
estragada", diz Silber. "Em algum momento, explode." Na opinião dele, a
data nesse caso é 2015, após as eleições.
O mais preocupante na visão do professor é que ao negar a verdadeira
inflação, o governo também não toma as medidas necessárias para
combatê-la. Enquanto o discurso oficial diz que está tudo bem, o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, responsável pela
formulação do IPCA, mede o que se chama de índice de difusão da
inflação: o número de itens contaminados pela pressão dos preços. Esse
índice está em 55% - metade dos itens -, um nível elevado. "A inflação
hoje é de pelo menos 8,0%, que é a inflação dos preços livres", diz
Silber. "Se o governo admitisse a realidade, o Banco Central hoje
deveria está com a Selic a 12%."
Fonte: http://www.estadao.com.br
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