Britânico reverte diabetes com dieta de apenas 11 dias
Com acompanhamento médico, o britânico seguiu uma dieta de apenas 800 calorias diárias e com isso teve sua glicemia controlada
Mais de 371 milhões de pessoas
são portadoras do diabetes no mundo, de tipo 1 e 2. Os maiores índices
estão naquelas nações em que o poder de compra aumentou
Na Grã-Bretanha, mais um caso de sucesso na
reversão do diabetes tipo 2 voltou a chamar a atenção para a teoria de
que por meio de uma dieta de restrição calórica, feita por um período
determinado de tempo, é possível se livrar da condição que afeta cada
vez mais pessoas em todo o mundo.
O jornalista britânico Robert Doughty, de 59 anos, que
até o ano passado estava entre os 371 milhões de portadores do diabetes
no mundo, reverteu o quadro da própria condição com uma dieta de apenas
800 calorias por dia.
Num período de apenas 11 dias, Doughty enfrentou o duro
regime de ingerir três doses diárias de shakes de reposição alimentícia
com 200 calorias cada, somada a uma uma porção de legumes e vegetais de
mais 200 calorias. Como parte da dieta, ele também teve que tomar um
total de três litros de água por dia.
O drástico regime, que para efeito de comparação tem
menos calorias do que apenas um dos lanches vendidos pela rede de fast
food Mc'Donalds – o Big Tasty tem 843 calorias – não foi "nada fácil de
enfrentar", contou o jornalista em entrevista à BBC Brasil.
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"Frequentemente me sentia muito cansado... Uma noite,
depois de ir ao teatro, quase não consegui subir as escadas da minha
estação local de trem, e caminhar para casa parecia praticamente
impossível. Também sentia muito frio, chegando a colocar quatro camadas
de roupa no meio do verão, quando sentia meus dedos ficarem dormentes",
disse o jornalista.
Doughty seguiu a dieta depois de procurar na internet
estudos referentes ao diabetes tipo 2. Antes de começar o regime, ele
procurou o pesquisador Roy Taylor, da Universidade de Newcastle, autor
da teoria da dieta de 800 calorias, além do próprio médico, de quem
obteve o aval para cortar as calorias diárias.
Ele já havia tentando uma dieta considerada menos
radical, com cerca de 1.500 calorias por dia, com a qual emagreceu, mas
não reduziu a glicose no sangue para o nível adequado.
A teoria
O diabetes tipo 2 se desenvolve quando o pâncreas para de
produzir insulina em quantidades suficientes para manter o nível normal
de glicose no sangue. No caso do diabetes tipo 1 - também chamado de
diabetes congênito -, o pâncreas para totalmente de produzir insulina,
que precisa ser injetada no paciente.
Nos dois casos, sem o controle adequado, o
nível de glicose no sangue alcança um patamar de risco, o que pode gerar
a longo prazo diversas complicações nos rins, pressão arterial alta,
perda parcial ou total da visão, problemas no coração, dentre outros
males.
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No caso da diabetes tipo 2, a condição está fortemente associada à obesidade, uma condição que se alastra em todo o mundo.
Foi justamente a associação com a gordura que intrigou
professor Roy Taylor, da Universidade de Newcastle, no norte da
Inglaterra, quando iniciou seus estudos sobre o diabetes tipo 2 há dois
anos.
Robert Doughty: "foi muito difícil, mas consegui"
Ele notou que pacientes que se submetiam à
cirurgia para redução de estômago passavam por um período de transição,
logo após a cirurgia, de redução drástica da quantidade de calorias
ingeridas.
"Até se acostumarem com a redução do próprio
estômago, os pacientes comiam muito pouco, porque se sentiam saciados
muito rápido e tinham náuseas. Com isso eles perdiam muito peso, num
espaço de tempo bem curto", afirmou Taylor em entrevista à BBC Brasil.
Passados alguns meses depois do emagrecimento, o
pesquisador notou que a maioria dos pacientes que tinham diabetes tipo 2
tinham se livrado da condição.
Todos eles tinham algo em comum: haviam perdido uma grande quantidade de gordura na região abdominal.
Estudos preliminares mostraram, então, que esse tipo de
gordura, localizada na barriga, próxima de órgãos como o pâncreas e o
fígado, tinha uma associação com o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
"Descobrimos que a gordura na região abdominal provoca
uma reação metabólica que dificulta a digestão da glicose pelo pâncreas.
A simples presença da gordura nessa região causa uma mudança no
metabolismo, que dificulta a produção de insulina", explicou Taylor.
Ao fazer a relação entre calorias ingeridas, tempo gasto
para perder peso e a quantidade de gordura perdida, principalmente na
região abdominal, Taylor chegou à teoria da dieta de hiper redução
calórica.
"Cada pessoa é diferente, mas notamos que a redução
calórica para algo em torno de 800 calorias por dia causava a reversão
do diabetes. Alguns pacientes demoram mais que outros, mas todos
conseguem reverter a condição dentro de oito semanas", afirmou o
pesquisador.
O estudo de Taylor foi divulgado em 2011, na publicação científica Diabetologia.
Infográfico:
Como a obesidade afeta o corpo
Riscos
A dieta das 800 calorias é considerada segura,
mas precisa ser feita com acompanhamento médico, pois há vários riscos e
fatores que devem ser levados em consideração.
De acordo Taylor, o primeiro passo é saber se o indivíduo está bem nutrido e não possui falta de vitaminas
no organismo, principalmente o ferro.
Especialistas citam a obesidade como principal "vilã" no desenvolvimento do diabetes tipo 2
Ele ressalta que a dieta de hiper restrição
calória poderia ser um meio seguro de reduzir o índice de diabetes "até
mesmo em países pobres, desde que todas as precauções sejam tomadas".
"Seria importante, porém, se tomar extrema precaução com
pessoas que são mal nutridas, que devem ter os níveis de vitaminas e
especialmente o ferro verificados antes de se iniciar a dieta. Ainda
assim, seria muito barato prover suplementos vitamínicos para estas
pessoas e continuar a recomendar a dieta para reverter o diabetes".
Curto prazo X longo prazo
O Brasil ocupa a quarta colocação no ranking dos países
com maior índice de diabetes no mundo, com 13,4 milhões de portadores no
país, o que equivale a 6,5% da população, de acordo com o último
levantamento da Federação Internacional do Diabetes (FID).
Em primeiro lugar está a China (92,3 milhões), seguida da Índia (63 milhões) e Estados Unidos (24,1 milhões).
"Notamos que há uma relação direta entre aumento poder de
compra e o crescimento de casos de diabetes no mundo. Em Países como o
Brasil, China e Índia, onde a população está podendo consumir mais, o
aumento do diabetes é tipo 2 é assustador", ressaltou o presidente da
Sociedade Brasileira de Diabetes, Balduino Tschiedel, em entrevista à
BBC Brasil.
Para Tschiedel, "a pesquisa britânica de hiper redução
calórica na reversão da diabetes tipo 2 tem uma validade científica
muito grande, porque vem a confirmar a importância da alimentação como
fator fundamental no combate a doença".
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No entanto, ele ressalta que manter-se livre da obesidade
e consequentemente do diabetes tipo 2 por um longo período de tempo é o
maior desafio.
"O maior problema está em manter uma dieta adequada por
um longo período de tempo. Esse é o nosso maior desafio, porque envolve
uma mudança comportamental muito difícil de ser alcançada num mundo em
que a oferta de alimentos hiper calóricos é muito grande", explica
Tschiedel.
Ele ainda ressalta que o esforço para combater a obesidade e o diabetes envolve uma ação conjunta de várias entidades.
"Nós, da Sociedade Brasileira de Diabetes, acreditamos
que uma mudança nos hábitos da população só seja possível com um
conjunto de medidas que envolvam o governo, sociedade civil e a mídia
num esforço conjunto para conscientizar e educar as pessoas sobre a
importância de se manter uma alimentação mais saudável e atividades
físicas regulares", alerta.
No longo prazo, a eficácia da teoria do professor Roy Taylor ainda está sendo testada.
"Notamos em nossos estudos, que as pessoas que contraíram
o diabetes tipo 2 há menos de quatro anos são as que melhor respondem
ao tratamento da dieta de 800 calorias. Com mais de quatro anos, notamos
que se torna mais difícil a reversão da diabetes tipo 2. Então, ainda é
muito cedo para dizer que o mesmo método vá funcionar em pessoas que
têm diabetes há muito tempo. Estamos tentando entender qual seria o
melhor método para essas pessoas", disse Taylor.
Genética x hábitos
De acordo com estudos feitos na Universidade de
Newcastle, a genética parece não ser mais um fator fundamental no
desenvolvimento do diabetes tipo 2.
"Mesmo pessoas com tendência genética ao diabetes tipo 2
podem evitar o desenvolvimento da condição se mantiverem uma dieta mais
restrita de açúcares e uma rotina de exercícios regulares. O mais
importante é não chegar ao ponto de acumular gordura na região
abdominal”, explicou o professor Taylor.
“Pessoas com histórico na família estão mais suscetíveis a
desenvolver o diabetes tipo 2, porque isto é uma tendência genética.
Mas o fato é que, qualquer pessoa pode desenvolver a doença pelo simples
fato de acumular gordura, principalmente na região do abdômen. Então,
hoje em dia, podemos dizer que as pessoas desenvolvem o diabetes tipo
dois mais por hábitos alimentares inadequados e falta de exercício
físico – com um estilo de vida sedentário – do que pela questão
genética”.
O jornalista Robert Doughty disse que, apesar da dieta
ter sido difícil de ser seguida, ele não desistiu porque acreditou nos
benefícios.
"Durante a dieta, fiquei relembrando a mim mesmo os
benefícios do regime pare reduzir a glicose no sangue. O fato dos
portadores do diabetes tipo 2 terem 36% mais risco de morrer mais cedo e
grandes chances de ter ataques cardíacos, aneurisma, danos na visão e
problemas de circulação que podem provocar até esmo amputação de
membros, e 50% mais chance de tomarem medicação para o resto da vida,
foi meu grande incentivo".
Ele disse que sua maior alegria foi quando seu médico ligou e disse: "O seu diabetes se reverteu completamente, parabéns!".
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