ECONOMIA
As vítimas do dólar alto
Moeda americana chega ao maior valor desde 2009, pressiona a inflação e ameaça o equilíbrio conquistado nos últimos anos na economia brasileira
A semana passada foi agitada nas mesas de câmbio dos bancos e
corretoras brasileiros. Quando parecia que a moeda americana já
acumulava uma valorização razoável, ela subiu ainda mais. Na
quarta-feira 21, chegou a R$ 2,45, maior valor desde 9 de dezembro de
2008, no auge da crise internacional. Somente em agosto, o real perdeu
5,53% do seu valor. Foi a moeda que mais se desvalorizou no mês, segundo
levantamento entre 31 moedas feito pela CMA, empresa de tecnologia e
informações financeiras. No acumulado de 2013, a perda chega a 21,13%,
uma verdadeira maxidesvalorização.
A alta do dólar em relação a outras moedas é um fenômeno mundial,
fruto da recuperação da economia americana e da expectativa dos
investidores sobre o fim dos estímulos monetários no país, que deve ser
anunciado em breve pelo Federal Reserve (leia mais aqui).
Mas isso não minimiza os efeitos negativos para a economia brasileira.
Embora um dólar mais valorizado fosse reivindicado pela indústria, para
barrar a concorrência dos importados, o fato é que a moeda americana
subiu demais nos últimos meses, cruzando uma barreira perigosa. Uma
moeda excessivamente fraca, como o real se tornou nas últimas semanas,
ameaça os custos das empresas, já que os importados representam 21,1% do
consumo industrial.
E custos mais altos, inevitavelmente, significam inflação mais
elevada – justamente num momento em que o índice começava a cair. Para
muitos empresários, o aumento das despesas cambiais é sinônimo de queda
das vendas, ou do lucro. É o caso dos eletroeletrônicos. “Setenta por
cento dos componentes dos televisores são importados, mas a concorrência
impede que toda a variação seja repassada e aperta a nossa margem”, diz
Lourival Kiçula, presidente da Associação Nacional de Fabricantes de
Produtos Eletroeletrônicos (Eletros). A venda de carros importados
também já está sendo afetada pela nova cotação da moeda americana. A
Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores
(Abeiva) está revendo para baixo as projeções para este ano.
“Fica difícil quando acontecem essas mudanças bruscas e repentinas,
porque nossos clientes são também investidores e o fator psicológico é
muito forte”, diz o presidente da entidade, Flavio Padovan. O executivo,
que também é presidente da Jaguar Land Rover para América Latina e
Caribe, lembra que a procura caiu mesmo nas empresas que ainda não
repassaram a alta cambial para seus produtos, pelo “efeito psicológico”.
É o caso da Êxito Import, que vende no Brasil os caminhões e guindastes
chineses da marca XCMG. A empresa ainda não mexeu nos preços, mas os
negócios praticamente pararam. “Estamos vendendo o estoque, mas a margem
de lucro praticamente desapareceu”, afirma José Lacy, presidente da
empresa.
No próximo mês, entra em vigor uma nova tabela de preços, com alta
de 13%. Já a previsão de crescimento para o ano foi reduzida, de 9% para
6%. Para as companhias aéreas, que já vinham sofrendo com o aumento do
preço de combustível e o crescimento menor do mercado doméstico, a alta
do dólar das últimas semanas é um golpe duro. Na terça-feira 20, em
reunião em Brasília com o ministro da Aviação Civil, Wellington Moreira
Franco, elas pediram medidas para compensar o aumento de custo, como
redução do ICMS sobre o combustível e do PIS/Cofins e o fim de uma taxa
cobrada pelos aeroportos. Os custos dolarizados representam quase 60%
dos custos das empresas, enquanto as receitas entram em reais.
“Não queremos repassar esses custos para as passagens, mas, se o
dólar permanecer alto por muito tempo, teremos que rever isso”, diz o
presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo
Sanovicz. No primeiro semestre deste ano, o número de passageiros
domésticos cresceu apenas 0,09%, encerrando um crescimento médio de 12%
ao ano na última década. A preocupação que tomou conta das empresas, que
tiveram que recalcular seus custos, também dominou as conversas dentro
do governo na semana passada. Na quarta-feira 21, a presidenta Dilma
Rousseff convocou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente
do Banco Central, Alexandre Tombini, para uma reunião no Palácio da
Alvorada.
Nos dias anteriores, fora de Brasília, ela havia conversado com o
ministro por telefone. Diariamente, Dilma acompanha o cenário econômico
por meio de dois boletins enviados pela Fazenda, um na hora do almoço e
outro no fim da tarde, após o fechamento do mercado. Na avaliação do
Palácio do Planalto, a alta do dólar tem dois motivos. O externo depende
do governo americano. O que o governo brasileiro pode fazer, na
avaliação da presidenta, é não deixar faltar dólares para os empresários
brasileiros que têm dívidas em moeda estrangeira vencendo nos próximos
meses. Uma preocupação legítima, já que 64,7% da dívida externa
brasileira, que somava US$ 321,7 bilhões em junho, está nas mãos do
setor privado.
É para essas empresas que o Banco Central está oferecendo leilões
de swap cambial, que funcionam como um hedge para evitar novas altas da
moeda. Por ordem da presidenta Dilma, Tombini cancelou a viagem que
faria aos Estados Unidos, na quarta-feira 21, para participar de um
encontro de presidentes de bancos centrais realizado anualmente em
Jackson Hole, no Estado de Wyoming. Depois de uma reunião extraordinária
do Conselho Monetário Nacional (CMN), o BC anunciou reforços nos
leilões de moeda no mercado futuro, que vinham sendo realizados desde
maio e já tinham oferecido US$ 45 bilhões desses títulos no mercado. A
partir de agora, os leilões serão realizados diariamente, e o volume
ofertado deve chegar a US$ 100 bilhões.
Para o ministro Mantega, a alta do dólar é temporária e
começará a ser revertida quando ficar claro o momento em que o Fed
começará a reverter as medidas de estímulo que tomou nos últimos anos.
“É um movimento dos títulos americanos e das ações do Banco Central
americano, e elas vão refluir em algum momento”, afirmou na quinta-feira
22. Entre os assuntos discutidos com a presidenta, a situação difícil
da Petrobras, que se agrava cada vez que o dólar sobe. O mercado estima
em 30% a defasagem de preços dos combustíveis vendidos pela empresa, que
tem que importar gasolina para suprir a demanda e vive a curiosa
situação de reduzir seus ganhos à medida que seu faturamento sobe.
Na quinta-feira 22, a expectativa de que o governo irá autorizar,
em breve, um reajuste nos combustíveis, elevou as ações ordinárias da
Petrobras em 5,31%, puxando a alta do Ibovespa. O dólar deve elevar
também o preço da energia de Itaipu comprada do Paraguai. No ano
passado, o governo pagou US$ 379 milhões pela parte vendida pelo país
vizinho. Com aumento de combustíveis e energia, é certo o impacto sobre a
inflação. “Se a inflação sobe muito, ela corrói os ganhos da
desvalorização cambial”, diz José Francisco de Lima Gonçalves,
economista-chefe do Banco Fator, que prevê um índice de inflação
superior ao do ano passado, que ficou em 5,84%.
O economista-sênior do Banco Santander, Cristiano Souza, diz que o
repasse aos preços não se dá totalmente no curto prazo, mas depois que
as empresas deixam passar a volatilidade e incorporam a alta aos seus
custos. Ele calcula um repasse de 1,5 ponto percentual na inflação do
próximo ano, somente com a desvalorização cambial deste ano. Para boa
parte da indústria brasileira, no entanto, o dólar mais alto é a
esperança de vendas melhores no próximo ano. “É a retomada da
confiança”, diz Robson de Andrade, presidente da Confederação Nacional
da Indústria (CNI). “O dólar desse jeito dá mais competitividade para a
indústria brasileira”, afirma.
O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB),
José Augusto de Castro, diz que o câmbio atual pode ajudar a balança
comercial. “Um dólar a R$ 2,50 tornaria as exportações de manufaturados
competitivas e criaria uma barreira cambial para as importações”,
afirma. Para alguns setores da indústria, porém, o repasse aos preços é
certo. “Temos muitos insumos importados”, diz Humberto Barbato,
presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica
(Abinee). Mas mesmo com o dólar alto, negociar com fornecedores ainda é
uma boa maneira de manter as vendas.
Foi o caminho adotado pela operadora de turismo CVC, que durante
todo o mês de julho, quando a moeda americana estava cotada em R$ 2,25,
em média, manteve o dólar em R$ 1,99 em seus contratos. Em agosto, fez
um acordo com a American Airlines e segurou a cotação em R$ 2,19. Com
isso, conseguiu embarcar 10% mais passageiros para destinos no Exterior
nas férias de julho, incluindo uma surpreendente elevação de 26% no
volume de viagens para Miami e Orlando, nos Estados Unidos. Até agora, a
empresa conseguiu driblar o aumento, mas uma desvalorização mais
acentuada pode mudar esse cenário.
Fonte: http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/127102_AS+VITIMAS+DO+DOLAR+ALTO Nº edição: 828 |
Economia
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