Análise: o gigante mineiro já estava acordado; as pessoas é que não se davam conta
De repente todos são pegos de calças curtas, no meio do torpor
contra uma lista variada de desvarios que são cometidos no âmbito das
instituições democráticas. As manifestações que surgiram no Brasil
acometem tanto os políticos profissionais quanto os analistas de uma
incerteza sem precedentes. Para onde estamos indo? O fato é que ninguém
sabe. De um horizonte fechado na reprodução da ordem de coisas que se
sucedia no contexto do sistema político brasileiro, passamos para um
contexto de incertezas aberto por um clamor popular difuso, sem uma
cara, sem uma identidade, mas que tem feito barulho o suficiente para
ajudar a promover algumas mudanças, ou, na pior hipótese, dar uma
sacudida nas instituições.
As manifestações em Minas Gerais não se diferenciam muito do contexto
nacional. Mas guardam algumas especificidades. As ruas são polissêmicas.
Diferentes vozes guardadas no contexto de reprodução institucional da
ordem de coisas ecoaram em uníssono um clamor claro de modificações em
políticas essenciais ao bem-estar. O estopim foi aceso quando em São
Paulo as manifestações coordenadas pelo Movimento Passe Livre foram
duramente reprimidas pela polícia. Como rastilho de pólvora, o clamor se
espraiou para o restante do Brasil, numa onda de manifestações e
protestos.
Uma característica é comum a todos esses protestos. A pauta é difusa e
abriu um mar de insatisfações e críticas ao sistema político, passando
pela confusa pauta do combate à corrupção à questão do transporte
público, educação e saúde. O manancial de questões é enorme e o fato é
que não se tem uma única voz posta nas ruas, mas diferentes vozes. A
crítica ao sistema representativo decorre do seu enorme distanciamento
da sociedade e uma administração burocrática do bem-estar social. Nesse
contexto, o que caracteriza esse conjunto polissêmico de vozes é que há
um desejo de radicalização da democracia brasileira, tendo em vista a
produção de políticas voltadas para as melhorias do bem-estar e a
diminuição efetiva das desigualdades.
A transição para a democracia no Brasil completou-se quando no
impeachment de Collor não se buscou uma solução de exceção, mas uma
solução por dentro da ordem institucional. Mas esse processo de
transição não cuidou de resolver efetivamente o problema das
desigualdades, em duas ordens de questões. Em primeiro lugar, as
desigualdades sociais que sempre marcaram a sociedade brasileira, tanto
no plano material da riqueza, quanto no plano simbólico da diferenciação
de classes. Essas desigualdades, para além da questão econômica da
distribuição de riquezas, promove um acesso diferenciado aos bens
públicos e um manancial de desigualdades simbólicas que vão do
preconceito em diferentes planos (racial, sexual, de gênero, etc.) à
opressão e violência (como em favelas e populações marginalizadas). Em
segundo lugar, as desigualdades políticas, que excluem parcela
significativa da população do processo de decisão sobre as políticas
públicas que serão implementadas, tendo em vista falhas do sistema
eleitoral produzidas por um modelo de financiamento de campanhas que
distorce e corrompe o processo democrático e exclui parcela
significativa da sociedade.
O que está em jogo, portanto, não é o fato de que um ponto das
políticas públicas promovidas pelos governos (federal, estaduais e
municipais) está em xeque, mas a qualidade do processo democrático no
âmbito sistêmico e a reprodução das injustiças. As bandeiras levantadas
nas ruas, portanto, convergem para o enfrentamento de um sentimento
difuso de injustiças que se reproduzem na sociedade brasileira e que
encontrou, agora, uma caixa de ressonância que vem das ruas. Esse
momento não tardaria. Diferentes pesquisas demonstraram a forma como a
legitimidade do sistema político brasileiro degenerava à medida que
estas injustiças se reproduziam. Injustiças que ocorrem tanto no plano
da sociedade, tendo em vista o fosso de desigualdades que ainda nos
assolam, quanto no plano da política, tendo em vista a corrupção e a
ineficiência das políticas públicas.
O momento, portanto, é impar. O resultado, entretanto, é imprevisível.
Pode tanto representar uma melhoria significativa da ordem de coisas e
radicalizar a democracia, quanto promover um retrocesso conforme o
caminhar, ou simplesmente manter intacto o status quo. Impossível
prever. Porém o fato é que estas manifestações em São Paulo, Rio de
Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife, no Brasil, enfim, ecoa como
um momento de inflexão, em que fica claro que não é possível mais
reproduzir a ordem de coisas na qual caminhávamos com certo tom de
tranquilidade ou mesmo cinismo.
Mas me perguntam sobre as manifestações em Minas Gerais. O
gigante mineiro acordou? Longe disso. Já estava acordado. As pessoas é
que não se davam conta. O encaminhamento dessa ordem de manifestações já
se abria, à medida que a sociedade civil já se movimentava no sentido
da crítica a uma série de políticas que vinham sendo implementadas. O
caso do transporte público é notável. Em Belo Horizonte,
especificamente, há duas décadas já há uma movimentação pedindo
melhorias no sistema de transporte público. A ligação entre empresários
do setor do transporte que financiam campanhas eleitorais e políticos
sempre possibilitaram a constituição de um ponto de veto que não
permitia uma melhoria qualitativa dessa política pública. Da caixa preta
do sistema de tarifação à opacidade dos editais públicos, o fato é que
há uma gestão caótica conduzida pelas prefeituras.
Apesar disso, intervenções na mobilidade urbana vêm sendo feitas. A
duplicação de avenidas e a criação do BRT, motivados pelas intervenções
urbanas propostas na Copa do Mundo, ocorrem, mas a duros golpes de
problemas de implementação. As obras se arrastam e não houve, por parte
da prefeitura, nem um sinal de acordo e debate junto com a sociedade, no
sentido de melhorias no transporte público. O projeto do BRT em Belo
Horizonte está longe de resolver os problemas de mobilidade urbana e
enfrenta problemas variados de implementação, que vão do fato de
construir, destruir e reconstruir duas das principais vias de Belo
Horizonte a aditivos contratuais que a sociedade não entende e que
pilham os cofres públicos.
Outro ponto importante em Minas Gerais é o tratamento dispensado pelo
poder público aos atingidos pela Copa do Mundo de 2014. Não houve, em
momento algum, por parte do poder público, incluindo Prefeitura de Belo
Horizonte e governo estadual, um entendimento com os atingidos pela
Copa, que passaram a se organizar e colocar na pauta uma série de
questões que passam pela mobilidade urbana prometida aos projetos de
intervenção propostos. Some-se a isso a forma segundo a qual a
Prefeitura de Belo Horizonte trata a questão do espaço público e sua
apropriação por parte da sociedade. Vendo o espaço público de um viés
exclusivamente burocrático, o governo não possibilita a sociedade se
apropriar dele e, em nome da Copa do Mundo, promove ações no mínimo
duvidosas, como o caso da "privatização" da rua Musas para a construção
de um hotel. Os moradores da rua Musas simplesmente se viram diante uma
ação de desapropriação sem um critério mais claro de interesse público.
Além das questões envolvidas no espaço público, uma série de
outras questões se coloca. A educação pública em Minas Gerais beira a
falência, com professores mal remunerados e problemas sérios de
infraestrutura. O mesmo pode-se dizer da área de saúde. O sistema
público de saúde enfrenta problemas sérios de coordenação entre governo
federal, Estados e municípios, o que não permite ao cidadão comum
compreender as questões envolvidas e não possibilita que os recursos
sejam implementados de forma eficiente na linha de frente. Nesse caldo,
diferentes movimentos da sociedade se organizaram, tais como o Comitê
dos Atingidos pela Copa, o movimento Fora Lacerda, a Praia da Praça da
Estação, além de uma série de outros movimentos. Partindo para fora da
região metropolitana de Belo Horizonte, o cenário não é diferente, tanto
nas cidades grandes e de porte médio do Estado, quanto nas pequenas
cidades do interior de Minas.
O que se tem em Minas Gerais? Um sentimento difuso de ampliação das
injustiças decorrente da ineficiência das políticas públicas. Em
pesquisa realizada pelo Centro de Referência do Interesse Público da
UFMG nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e
Goiânia, essas questões ficam muito claras. No caso específico da
região Metropolitana de Belo Horizonte, esse caldo das injustiças
sociais podem iluminar essa questão. Para 81,5% dos cidadãos da Região
Metropolitana de Belo Horizonte, as injustiças no Brasil aumentaram
muito ou aumentaram nos últimos 5 anos. Para esses mesmos cidadãos, o
principal problema do Brasil é a saúde (acionado por 29,1% dos
cidadãos), seguido da corrupção (acionado por 17,4% dos cidadãos) e a
insegurança (acionado por 16,7% dos cidadãos). No caso da avaliação da
democracia, 70,7% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a
democracia. De um modo geral, esses mesmos cidadãos desconfiam muito ou
desconfiam das instituições. Quanto a essa questão da desconfiança,
53,7% desconfiam muito ou desconfiam da Presidência da República, 84,2%
desconfiam muito ou desconfiam do Congresso Nacional, 57,7% da Polícia
Militar, 50,8% da Polícia Civil, 49,8% do Ministério Público, 48,5% da
mídia, 48,8% do Poder Judiciário e 69,5% do empresariado.
Essa situação de desconfiança e os problemas apontados conduzem a uma
perspectiva de ampliação das injustiças nos dois flancos que apontamos
acima: a injustiça social e a injustiça política. Na expectativa dos
cidadãos, os governos deveriam priorizar o fato de dar oportunidades
iguais para todos (para 34,8% da amostra), seguido de 21,7% que
acionaram que os governos devem priorizar a aplicação das leis que já
existem. O que ocorre não apenas em Minas Gerais, mas no Brasil como um
todo, é esse sentimento de injustiça e uma enorme desconfiança em
relação à capacidade das instituições do sistema político para
produzirem justiça. Nesse caldo de cultura política, 65,7% da amostra da
pesquisa acima, na região metropolitana de Belo Horizonte, consideram
que as leis não são aplicadas igualmente aos cidadãos. O que se percebe é
um sentimento difuso de injustiça que proporciona, por sua vez, um
sentimento de privação relativa. Nessa mesma amostra, 63,9% se dizem
insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a sua segurança pessoal e de
seus familiares, 35,7% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com
a educação dos seus filhos e de seus familiares, 45,4% se dizem
insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a saúde e 28% se dizem
insatisfeitos ou muito insatisfeitos com as condições de moradia.
O que está em jogo, afinal de contas? Transitamos para a
democracia. Mas essa mesma democracia que proporcionou o retorno das
eleições e certa estabilidade das instituições, agora se depara com o
tema das injustiças sociais e um sentimento enorme de privação relativa
no plano da sociedade. Esse sentimento de injustiça é difuso, não
respeitando delimitações de classe, raça ou renda, e orienta-se,
sobretudo, pela qualidade das instituições democráticas e das políticas
públicas ali proporcionadas e implementadas. O que está em jogo,
portanto, não é uma simples manifestação sem cara ou sem pauta. É uma
pauta difusa e mal resolvida, nascida de décadas de ineficiência e
desrespeito ao interesse público.
O que estas manifestações visam? Melhorias significativas das políticas
públicas, associadas a uma pauta de maior participação. Radicalizar a
democracia, nesse momento, é a chave. Radicalizar a democracia, nesse
momento, é combater eficientemente as desigualdades sociais e impedir a
injustiça política. Assegurar, no plano das instituições democráticas,
que as diferentes vozes sejam ouvidas, bem como impedir que as
desigualdades de fato corroam as instituições. Diferentemente de outros
momentos da história brasileira, esse pode ser o da nossa inflexão, de
uma reinvenção das coisas, para o que não bastará a reprodução
burocrática do status quo, mas uma mudança radical das pessoas.
Reza a lenda que Minas Gerais é um resumo do Brasil. Pode ser. Mas é
importante dizer que em Minas o gigante não acordou. Estava ali talvez
fazendo burburinho. Agora resolveu gritar. E quando gritou ninguém
entendeu, porque ele grita em uma língua diferente daquela com a qual
estamos acostumados. Sinal dos tempos. Num contexto em que a cidadania
se tornou mais crítica, é preciso cuidado na condução das coisas. As
cenas de violência que são vistas esvaziam a política. É verdade. Mas
como na política não existe espaço vazio, é bom cuidar para que as
lideranças democráticas ocupem esse espaço e recebam e destrinchem essas
vozes polissêmicas. O tempo de reprodução burocrática das coisas
passou. E nesse momento o que precisamos não é de meros administradores,
mas de políticos atentados para o interesse público.
* Fernando Filgueiras é professor do Departamento de Ciência
Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor de
"Corrupção, democracia e legitimidade" (Editora UFMG, 2008)
De repente todos são pegos de calças curtas, no meio do torpor
contra uma lista variada de desvarios que são cometidos no âmbito das
instituições democráticas. As manifestações que surgiram no Brasil
acometem tanto os políticos profissionais quanto os analistas de uma
incerteza sem precedentes. Para onde estamos indo? O fato é que ninguém
sabe. De um horizonte fechado na reprodução da ordem de coisas que se
sucedia no contexto do sistema político brasileiro, passamos para um
contexto de incertezas aberto por um clamor popular difuso, sem uma
cara, sem uma identidade, mas que tem feito barulho o suficiente para
ajudar a promover algumas mudanças, ou, na pior hipótese, dar uma
sacudida nas instituições.
As manifestações em Minas Gerais não se diferenciam muito do contexto nacional. Mas guardam algumas especificidades. As ruas são polissêmicas. Diferentes vozes guardadas no contexto de reprodução institucional da ordem de coisas ecoaram em uníssono um clamor claro de modificações em políticas essenciais ao bem-estar. O estopim foi aceso quando em São Paulo as manifestações coordenadas pelo Movimento Passe Livre foram duramente reprimidas pela polícia. Como rastilho de pólvora, o clamor se espraiou para o restante do Brasil, numa onda de manifestações e protestos.
Uma característica é comum a todos esses protestos. A pauta é difusa e abriu um mar de insatisfações e críticas ao sistema político, passando pela confusa pauta do combate à corrupção à questão do transporte público, educação e saúde. O manancial de questões é enorme e o fato é que não se tem uma única voz posta nas ruas, mas diferentes vozes. A crítica ao sistema representativo decorre do seu enorme distanciamento da sociedade e uma administração burocrática do bem-estar social. Nesse contexto, o que caracteriza esse conjunto polissêmico de vozes é que há um desejo de radicalização da democracia brasileira, tendo em vista a produção de políticas voltadas para as melhorias do bem-estar e a diminuição efetiva das desigualdades.
As manifestações em Minas Gerais não se diferenciam muito do contexto nacional. Mas guardam algumas especificidades. As ruas são polissêmicas. Diferentes vozes guardadas no contexto de reprodução institucional da ordem de coisas ecoaram em uníssono um clamor claro de modificações em políticas essenciais ao bem-estar. O estopim foi aceso quando em São Paulo as manifestações coordenadas pelo Movimento Passe Livre foram duramente reprimidas pela polícia. Como rastilho de pólvora, o clamor se espraiou para o restante do Brasil, numa onda de manifestações e protestos.
Uma característica é comum a todos esses protestos. A pauta é difusa e abriu um mar de insatisfações e críticas ao sistema político, passando pela confusa pauta do combate à corrupção à questão do transporte público, educação e saúde. O manancial de questões é enorme e o fato é que não se tem uma única voz posta nas ruas, mas diferentes vozes. A crítica ao sistema representativo decorre do seu enorme distanciamento da sociedade e uma administração burocrática do bem-estar social. Nesse contexto, o que caracteriza esse conjunto polissêmico de vozes é que há um desejo de radicalização da democracia brasileira, tendo em vista a produção de políticas voltadas para as melhorias do bem-estar e a diminuição efetiva das desigualdades.
A transição para a democracia no Brasil completou-se quando no
impeachment de Collor não se buscou uma solução de exceção, mas uma
solução por dentro da ordem institucional. Mas esse processo de
transição não cuidou de resolver efetivamente o problema das
desigualdades, em duas ordens de questões. Em primeiro lugar, as
desigualdades sociais que sempre marcaram a sociedade brasileira, tanto
no plano material da riqueza, quanto no plano simbólico da diferenciação
de classes. Essas desigualdades, para além da questão econômica da
distribuição de riquezas, promove um acesso diferenciado aos bens
públicos e um manancial de desigualdades simbólicas que vão do
preconceito em diferentes planos (racial, sexual, de gênero, etc.) à
opressão e violência (como em favelas e populações marginalizadas). Em
segundo lugar, as desigualdades políticas, que excluem parcela
significativa da população do processo de decisão sobre as políticas
públicas que serão implementadas, tendo em vista falhas do sistema
eleitoral produzidas por um modelo de financiamento de campanhas que
distorce e corrompe o processo democrático e exclui parcela
significativa da sociedade.
O que está em jogo, portanto, não é o fato de que um ponto das políticas públicas promovidas pelos governos (federal, estaduais e municipais) está em xeque, mas a qualidade do processo democrático no âmbito sistêmico e a reprodução das injustiças. As bandeiras levantadas nas ruas, portanto, convergem para o enfrentamento de um sentimento difuso de injustiças que se reproduzem na sociedade brasileira e que encontrou, agora, uma caixa de ressonância que vem das ruas. Esse momento não tardaria. Diferentes pesquisas demonstraram a forma como a legitimidade do sistema político brasileiro degenerava à medida que estas injustiças se reproduziam. Injustiças que ocorrem tanto no plano da sociedade, tendo em vista o fosso de desigualdades que ainda nos assolam, quanto no plano da política, tendo em vista a corrupção e a ineficiência das políticas públicas.
O momento, portanto, é impar. O resultado, entretanto, é imprevisível. Pode tanto representar uma melhoria significativa da ordem de coisas e radicalizar a democracia, quanto promover um retrocesso conforme o caminhar, ou simplesmente manter intacto o status quo. Impossível prever. Porém o fato é que estas manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife, no Brasil, enfim, ecoa como um momento de inflexão, em que fica claro que não é possível mais reproduzir a ordem de coisas na qual caminhávamos com certo tom de tranquilidade ou mesmo cinismo.
O que está em jogo, portanto, não é o fato de que um ponto das políticas públicas promovidas pelos governos (federal, estaduais e municipais) está em xeque, mas a qualidade do processo democrático no âmbito sistêmico e a reprodução das injustiças. As bandeiras levantadas nas ruas, portanto, convergem para o enfrentamento de um sentimento difuso de injustiças que se reproduzem na sociedade brasileira e que encontrou, agora, uma caixa de ressonância que vem das ruas. Esse momento não tardaria. Diferentes pesquisas demonstraram a forma como a legitimidade do sistema político brasileiro degenerava à medida que estas injustiças se reproduziam. Injustiças que ocorrem tanto no plano da sociedade, tendo em vista o fosso de desigualdades que ainda nos assolam, quanto no plano da política, tendo em vista a corrupção e a ineficiência das políticas públicas.
O momento, portanto, é impar. O resultado, entretanto, é imprevisível. Pode tanto representar uma melhoria significativa da ordem de coisas e radicalizar a democracia, quanto promover um retrocesso conforme o caminhar, ou simplesmente manter intacto o status quo. Impossível prever. Porém o fato é que estas manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife, no Brasil, enfim, ecoa como um momento de inflexão, em que fica claro que não é possível mais reproduzir a ordem de coisas na qual caminhávamos com certo tom de tranquilidade ou mesmo cinismo.
Mas me perguntam sobre as manifestações em Minas Gerais. O
gigante mineiro acordou? Longe disso. Já estava acordado. As pessoas é
que não se davam conta. O encaminhamento dessa ordem de manifestações já
se abria, à medida que a sociedade civil já se movimentava no sentido
da crítica a uma série de políticas que vinham sendo implementadas. O
caso do transporte público é notável. Em Belo Horizonte,
especificamente, há duas décadas já há uma movimentação pedindo
melhorias no sistema de transporte público. A ligação entre empresários
do setor do transporte que financiam campanhas eleitorais e políticos
sempre possibilitaram a constituição de um ponto de veto que não
permitia uma melhoria qualitativa dessa política pública. Da caixa preta
do sistema de tarifação à opacidade dos editais públicos, o fato é que
há uma gestão caótica conduzida pelas prefeituras.
Apesar disso, intervenções na mobilidade urbana vêm sendo feitas. A
duplicação de avenidas e a criação do BRT, motivados pelas intervenções
urbanas propostas na Copa do Mundo, ocorrem, mas a duros golpes de
problemas de implementação. As obras se arrastam e não houve, por parte
da prefeitura, nem um sinal de acordo e debate junto com a sociedade, no
sentido de melhorias no transporte público. O projeto do BRT em Belo
Horizonte está longe de resolver os problemas de mobilidade urbana e
enfrenta problemas variados de implementação, que vão do fato de
construir, destruir e reconstruir duas das principais vias de Belo
Horizonte a aditivos contratuais que a sociedade não entende e que
pilham os cofres públicos.
Outro ponto importante em Minas Gerais é o tratamento dispensado pelo
poder público aos atingidos pela Copa do Mundo de 2014. Não houve, em
momento algum, por parte do poder público, incluindo Prefeitura de Belo
Horizonte e governo estadual, um entendimento com os atingidos pela
Copa, que passaram a se organizar e colocar na pauta uma série de
questões que passam pela mobilidade urbana prometida aos projetos de
intervenção propostos. Some-se a isso a forma segundo a qual a
Prefeitura de Belo Horizonte trata a questão do espaço público e sua
apropriação por parte da sociedade. Vendo o espaço público de um viés
exclusivamente burocrático, o governo não possibilita a sociedade se
apropriar dele e, em nome da Copa do Mundo, promove ações no mínimo
duvidosas, como o caso da "privatização" da rua Musas para a construção
de um hotel. Os moradores da rua Musas simplesmente se viram diante uma
ação de desapropriação sem um critério mais claro de interesse público.
Além das questões envolvidas no espaço público, uma série de
outras questões se coloca. A educação pública em Minas Gerais beira a
falência, com professores mal remunerados e problemas sérios de
infraestrutura. O mesmo pode-se dizer da área de saúde. O sistema
público de saúde enfrenta problemas sérios de coordenação entre governo
federal, Estados e municípios, o que não permite ao cidadão comum
compreender as questões envolvidas e não possibilita que os recursos
sejam implementados de forma eficiente na linha de frente. Nesse caldo,
diferentes movimentos da sociedade se organizaram, tais como o Comitê
dos Atingidos pela Copa, o movimento Fora Lacerda, a Praia da Praça da
Estação, além de uma série de outros movimentos. Partindo para fora da
região metropolitana de Belo Horizonte, o cenário não é diferente, tanto
nas cidades grandes e de porte médio do Estado, quanto nas pequenas
cidades do interior de Minas.
O que se tem em Minas Gerais? Um sentimento difuso de ampliação das injustiças decorrente da ineficiência das políticas públicas. Em pesquisa realizada pelo Centro de Referência do Interesse Público da UFMG nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Goiânia, essas questões ficam muito claras. No caso específico da região Metropolitana de Belo Horizonte, esse caldo das injustiças sociais podem iluminar essa questão. Para 81,5% dos cidadãos da Região Metropolitana de Belo Horizonte, as injustiças no Brasil aumentaram muito ou aumentaram nos últimos 5 anos. Para esses mesmos cidadãos, o principal problema do Brasil é a saúde (acionado por 29,1% dos cidadãos), seguido da corrupção (acionado por 17,4% dos cidadãos) e a insegurança (acionado por 16,7% dos cidadãos). No caso da avaliação da democracia, 70,7% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a democracia. De um modo geral, esses mesmos cidadãos desconfiam muito ou desconfiam das instituições. Quanto a essa questão da desconfiança, 53,7% desconfiam muito ou desconfiam da Presidência da República, 84,2% desconfiam muito ou desconfiam do Congresso Nacional, 57,7% da Polícia Militar, 50,8% da Polícia Civil, 49,8% do Ministério Público, 48,5% da mídia, 48,8% do Poder Judiciário e 69,5% do empresariado.
Essa situação de desconfiança e os problemas apontados conduzem a uma perspectiva de ampliação das injustiças nos dois flancos que apontamos acima: a injustiça social e a injustiça política. Na expectativa dos cidadãos, os governos deveriam priorizar o fato de dar oportunidades iguais para todos (para 34,8% da amostra), seguido de 21,7% que acionaram que os governos devem priorizar a aplicação das leis que já existem. O que ocorre não apenas em Minas Gerais, mas no Brasil como um todo, é esse sentimento de injustiça e uma enorme desconfiança em relação à capacidade das instituições do sistema político para produzirem justiça. Nesse caldo de cultura política, 65,7% da amostra da pesquisa acima, na região metropolitana de Belo Horizonte, consideram que as leis não são aplicadas igualmente aos cidadãos. O que se percebe é um sentimento difuso de injustiça que proporciona, por sua vez, um sentimento de privação relativa. Nessa mesma amostra, 63,9% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a sua segurança pessoal e de seus familiares, 35,7% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a educação dos seus filhos e de seus familiares, 45,4% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a saúde e 28% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com as condições de moradia.
O que se tem em Minas Gerais? Um sentimento difuso de ampliação das injustiças decorrente da ineficiência das políticas públicas. Em pesquisa realizada pelo Centro de Referência do Interesse Público da UFMG nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Goiânia, essas questões ficam muito claras. No caso específico da região Metropolitana de Belo Horizonte, esse caldo das injustiças sociais podem iluminar essa questão. Para 81,5% dos cidadãos da Região Metropolitana de Belo Horizonte, as injustiças no Brasil aumentaram muito ou aumentaram nos últimos 5 anos. Para esses mesmos cidadãos, o principal problema do Brasil é a saúde (acionado por 29,1% dos cidadãos), seguido da corrupção (acionado por 17,4% dos cidadãos) e a insegurança (acionado por 16,7% dos cidadãos). No caso da avaliação da democracia, 70,7% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a democracia. De um modo geral, esses mesmos cidadãos desconfiam muito ou desconfiam das instituições. Quanto a essa questão da desconfiança, 53,7% desconfiam muito ou desconfiam da Presidência da República, 84,2% desconfiam muito ou desconfiam do Congresso Nacional, 57,7% da Polícia Militar, 50,8% da Polícia Civil, 49,8% do Ministério Público, 48,5% da mídia, 48,8% do Poder Judiciário e 69,5% do empresariado.
Essa situação de desconfiança e os problemas apontados conduzem a uma perspectiva de ampliação das injustiças nos dois flancos que apontamos acima: a injustiça social e a injustiça política. Na expectativa dos cidadãos, os governos deveriam priorizar o fato de dar oportunidades iguais para todos (para 34,8% da amostra), seguido de 21,7% que acionaram que os governos devem priorizar a aplicação das leis que já existem. O que ocorre não apenas em Minas Gerais, mas no Brasil como um todo, é esse sentimento de injustiça e uma enorme desconfiança em relação à capacidade das instituições do sistema político para produzirem justiça. Nesse caldo de cultura política, 65,7% da amostra da pesquisa acima, na região metropolitana de Belo Horizonte, consideram que as leis não são aplicadas igualmente aos cidadãos. O que se percebe é um sentimento difuso de injustiça que proporciona, por sua vez, um sentimento de privação relativa. Nessa mesma amostra, 63,9% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a sua segurança pessoal e de seus familiares, 35,7% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a educação dos seus filhos e de seus familiares, 45,4% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com a saúde e 28% se dizem insatisfeitos ou muito insatisfeitos com as condições de moradia.
O que está em jogo, afinal de contas? Transitamos para a
democracia. Mas essa mesma democracia que proporcionou o retorno das
eleições e certa estabilidade das instituições, agora se depara com o
tema das injustiças sociais e um sentimento enorme de privação relativa
no plano da sociedade. Esse sentimento de injustiça é difuso, não
respeitando delimitações de classe, raça ou renda, e orienta-se,
sobretudo, pela qualidade das instituições democráticas e das políticas
públicas ali proporcionadas e implementadas. O que está em jogo,
portanto, não é uma simples manifestação sem cara ou sem pauta. É uma
pauta difusa e mal resolvida, nascida de décadas de ineficiência e
desrespeito ao interesse público.
O que estas manifestações visam? Melhorias significativas das políticas
públicas, associadas a uma pauta de maior participação. Radicalizar a
democracia, nesse momento, é a chave. Radicalizar a democracia, nesse
momento, é combater eficientemente as desigualdades sociais e impedir a
injustiça política. Assegurar, no plano das instituições democráticas,
que as diferentes vozes sejam ouvidas, bem como impedir que as
desigualdades de fato corroam as instituições. Diferentemente de outros
momentos da história brasileira, esse pode ser o da nossa inflexão, de
uma reinvenção das coisas, para o que não bastará a reprodução
burocrática do status quo, mas uma mudança radical das pessoas.
Reza a lenda que Minas Gerais é um resumo do Brasil. Pode ser. Mas é
importante dizer que em Minas o gigante não acordou. Estava ali talvez
fazendo burburinho. Agora resolveu gritar. E quando gritou ninguém
entendeu, porque ele grita em uma língua diferente daquela com a qual
estamos acostumados. Sinal dos tempos. Num contexto em que a cidadania
se tornou mais crítica, é preciso cuidado na condução das coisas. As
cenas de violência que são vistas esvaziam a política. É verdade. Mas
como na política não existe espaço vazio, é bom cuidar para que as
lideranças democráticas ocupem esse espaço e recebam e destrinchem essas
vozes polissêmicas. O tempo de reprodução burocrática das coisas
passou. E nesse momento o que precisamos não é de meros administradores,
mas de políticos atentados para o interesse público.
* Fernando Filgueiras é professor do Departamento de Ciência
Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor de
"Corrupção, democracia e legitimidade" (Editora UFMG, 2008)
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