“Fui tratado como bandido”, conta manifestante agredido por policiais em São Bernardo do Campo
Fato foi registrado pela câmera de segurança de uma casa na rua e divulgado na internet
Rapaz ficou encurralado com outros manifestantes devido às bombas de gás antes de ser espancado
Montagem/R7
Espancado por policiais militares durante um protesto contra o preço do
transporte público, em São Bernardo do Campo, no Grande ABC, na última
segunda-feira (1º), um ajudante-geral de 21 anos, que preferiu não ter o
nome revelado, disse estar com medo de sair de casa após o episódio e
que também não consegue trabalhar. Ele levou golpes cassetete e chutes,
principalmente na cabeça. O rapaz, que afirmou ser ativista há três
anos, contou ao R7 que foi tratado como um criminoso e não soube o motivo pelo qual apanhou.
— Além das dores físicas, tem o medo de sair para a rua. De saber se
vou sofrer represália ou não. Eu não sou bandido. Sou trabalhador. Desde
o dia da agressão, não consigo trabalhar. Eu trabalho carregando peso,
carregando colchão. Comecei a carregar e senti dor e tive que parar. Eu
me senti muito ofendido. Todo mundo que passava pela viatura quando fui
preso me olhava, como se eu fosse um criminoso.
A agressão foi gravada por uma câmera de segurança instalada na área e
foi divulgada na internet. O rapaz espancado disse que não sabe quem
publicou as imagens. No vídeo, os manifestantes aparecem descendo a rua e
são surpreendidos por bombas de efeito moral lançadas pelos PMs. O
ajudante-geral ficou encurralado e foi atacado por três militares. A
agressão durou cerca de um minuto.
— Quando sentei na beira da calçada, os policiais vieram e surgiram do
nada, na fumaça. Puxaram meu sobretudo e começaram a desferir golpes na
minha cabeça. [...] Não falaram nada. Só falaram depois que eu estava
quase desmaiado no chão de tanto chute e cacetada na cabeça. Eles
perguntaram minha idade, me revistaram e viram que eu não tinha nada.
Falaram assim: “Você vai ser preso”.
O rapaz ainda afirmou que não portava qualquer arma e nem foi pego
praticando atos de vandalismo. Mesmo assim, os policiais militares o
levaram para uma delegacia, onde foi liberado horas depois, sem qualquer
acusação. De acordo com o ativista, ele não conseguiu registrar um
boletim de ocorrência contra os agressores no dia seguinte, e teria sido
zombado pelos agentes.
— Eles alegaram que não era da alçada deles, que eles não tinham
obrigação de fazer isso, que isso era com a corregedoria. [...]
Disseram: “A Polícia Civil não tem nada a ver com seu caso”. [...]
Praticamente zombando da minha cara, duvidando da minha palavra, me
botando como um vândalo. Falaram: “Então, você é santinho. Estava lá
rezando, estava lá brincando”.
O ajudante-geral disse estar indignado com a violência que sofreu.
— O sentimento é de indignação, por a gente pagar nossos impostos, por
eu ser trabalhador, não ter passagem pela polícia. Não devo nada à
polícia e fui tratado como um bandido. Acho que nem um bandido, em uma
situação dessa, tem que ser tratado assim. E eu me pergunto: ninguém dos
Direitos Humanos ligou para mim, para perguntar como eu estava, se
estava com dor, para perguntar o que eu passei.
Outro lado
Em nota, a Polícia Militar lamentou o caso e disse que a Corregedoria e
o Comando de Policiamento da região do ABC estão investigando
internamente os fatos. A PM ainda informou que ao fim do inquérito, “os
policiais militares envolvidos serão processados, podendo ser demitidos
da corporação, além de arcarem com as consequências penais de seus
atos”.
Sobre o boletim de ocorrência não ter sido registrado, o R7 procurou
o delegado titular do 1º Distrito Policial de SBC, mas o policial não
havia sido localizado até a publicação desta reportagem.
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