Impostometro

sábado, 31 de agosto de 2013

"Bolívia é insignificante", diz Maristela Basso

"Bolívia é insignificante", diz Maristela Basso, comentarista da TV Cultura e professora da USP

Declarações repercutem nas redes sociais; professora é acusada de racismo e xenofobia
Miguel Arcanjo Prado, editor de Cultura do R7
Maristela Basso, professora da USP, na TV Cultura: "A Bolívia é insignificante em todas as perspectivas" Reprodução/TV Cultura

Os telespectadores do Jornal da Cultura (TV Cultura) assistiram na edição da última quinta (29) a um comentário polêmico. Ao falar sobre o asilo que o Brasil deu ao senador boliviano Roger Pinto Molina, Maristela Basso, comentarista do telejornal e professora doutora da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), disse que “a Bolívia é insignificante em todas as perspectivas”.

O vídeo com a declaração da professora se espalhou nas redes sociais, onde causa indignação. Ela é acusada de preconceito e xenofobia.

Ao comentar a fuga do senador que gerou uma crise diplomática, a professora disse que o assunto é “insignificante para nós”. Eis as declarações de Maristela Basso.

— A Bolívia é insignificante em todas as perspectivas. É um país, sim, que tem uma fronteira enorme com o Brasil, são nossos vizinhos que têm maior fronteira terrestre, mas nós não temos nenhuma relação estratégica com a Bolívia, nós não temos nenhum interesse comercial com a Bolívia.

Ao contrário do que afirmou a professora, o Brasil tem relações comerciais com a Bolívia. Quase três quartos do gás natural consumido pelas indústrias paulistas provêm da Bolívia, pelo gasoduto de mais de 3.000 quilômetros que liga a cidade boliviana de Rio Grande a Porto Alegre, e que passa por São Paulo. A Petrobras tem acordo com a estatal boliviana de petróleo YPFB para exportação diária de 30 milhões de metros cúbicos de gás. O Brasil é o principal cliente da Bolívia neste produto. Em 2012, as exportações de gás da Bolívia somaram US$ 5,7 milhões de dólares — a compra brasileira corresponde a 75% deste valor.

Ainda no Jornal da Cultura, Maristela Basso fez outras afirmações fortes.

— Os brasileiros não querem ir para a Bolívia. Os bolivianos que vêm de lá vêm tentando uma vida melhor aqui, [eles] não contribuem para o desenvolvimento tecnológico, cultural, social e desenvolvimentista do Brasil. Então, Bolívia é um assunto menor.


Racismo e xenofobia 

A comunidade boliviana em São Paulo, estimada em cerca de 250 mil pessoas pelo Consulado da Bolívia na capital paulista, recebeu de forma indignada as declarações de Maristela Basso. Carmelo Muñoz Cardoso, presidente da ADRB (Associação de Residentes Bolivianos), que existe desde 1969, encaminhou pedido de direito de resposta à TV Cultura. Na carta enviada, repudiou a entrevista de Maristela Basso.

— As declarações proferidas têm um alto grau ofensivo a toda comunidade boliviana. A afirmação de que a Bolívia é insignificante demonstra notório racismo, total xenofobia, absoluto preconceito e desrespeito pelo nosso país. Além das medidas legais, requeremos à TV Cultura o direito de resposta.

Procuradas pela reportagem do R7, a professora Maristela Basso e a TV Cultura não se pronunciaram sobre o caso até o momento.

Repercussão na sociedade

A fala de Maristela Basso repercutiu também entre brasileiros que admiram o país vizinho; gente como o analista de sistemas Danilo Barbosa Ribeiro, morador de Salvador. Ele viajou a turismo para a Bolívia em 2011. Passeou durante mais de uma semana pelo país andino.

— Sempre tive vontade de conhecer a Bolívia, porque eles têm uma rica cultura indígena latino-americana. É um país lindo e de gente muito hospitaleira. Acho um absurdo a professora dizer que “os brasileiros não querem ir para a Bolívia”. Porque, quando estive lá, praticamente metade dos hóspedes dos hotéis onde fiquei era de brasileiros.

O professor Caio Lazaneo, morador de São Paulo, viajou durante dez dias pela Bolívia em 2008.

—  A Bolívia tem grande riqueza étnico-cultural. Achei a fala profundamente superficial. É uma opinião de alguém que não olha para o outro com o mínimo respeito. Nenhum país é insignificante.

O artista carioca Lenerson Polini, que trabalhou com 12 atores bolivianos na peça Caminos Invisibles - La Partida, da Cia. Nova de Teatro, apresentada no mês passado em São Paulo, considera "lamentável que uma emissora como a TV Cultura abra espaço para opiniões tão absurdas como a dessa professora".

— O que ela diz é assustador, sobretudo em uma cidade multicultural como São Paulo, feita de imigrantes. Isso revela todo um pensamento xenofóbico que está crescendo cada vez mais em nosso País. A sociedade tem de combater isso.

Argumento da desqualificação

As declarações também repercutiram no meio acadêmico. O professor doutor Dennis de Oliveira, coordenador do Celacc (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação) da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP afirma ao R7 que a fala de Maristela “tem um viés ideológico muito sutil”, “defendendo que o Estado brasileiro tenha uma atuação tipicamente imperialista e arrogante, de simplesmente ignorar a demanda legítima da nação vizinha”.

Oliveira comenta o fato de a professora nem sequer considerar a riqueza cultural andina da Bolívia.

— Ela não tem este alcance, pois este sentimento preconceituoso e depreciativo advém de uma concepção eurocêntrica de mundo. Por isto, qualquer coisa vinda da América Latina é menor ou coisa sem importância.

Ainda segundo o professor do Celacc-USP, quando Maristela Basso classifica a Bolívia como um assunto menor, ela “foge do problema central deste fato que é a postura inadequada do diplomata brasileiro na Bolívia que montou uma operação de fuga, a partir da embaixada brasileira, sem qualquer conhecimento ou autorização do Itamaraty”.

— Isto corresponde a uma grave quebra de hierarquia em um órgão importante e acabou criando uma crise diplomática para o Estado brasileiro. Além disto, sob qual perspectiva ela considera a Bolívia um assunto pequeno? Por acaso, a estratégia da diplomacia brasileira de investir na integração do continente é algo pequeno? Por quê? Enfim, na ausência ou na dificuldade de expressar argumentos, a docente partiu para o instrumento fácil da desqualificação.

Veja o vídeo, abaixo, com o comentário de Maristela Basso no Jornal da Cultura:

Veja a galeria: Bolivianos celebram seu país em São Paulo!

Leia o blog de Miguel Arcanjo Prado


Criança Esperança

Globo diz desconhecer informações do WikiLeaks sobre investigação envolvendo o Criança Esperança 

Material cita o pagamento de taxa de 10% do valor arrecadado para a Unesco; Globo garante que todo dinheiro vai direto para as contas da instituição   

Documento registra telegrama que teria sido enviado do escritório da Unesco de Paris à capital norte-americana Washington Reprodução/Wikileaks

Um suposto documento publicado pelo site WikiLeaks, famoso por divulgar materiais e informações confidenciais de governos e empresas, registra uma investigação sobre o recebimento de verbas da campanha Criança Esperança da Rede Globo pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). 

O documento, de 15 de setembro de 2006, revela um telegrama que teria sido enviado do escritório da Unesco em Paris, na França, para Washington, capital dos EUA. O material relata uma solicitação de reunião do então embaixador brasileiro na capital francesa, Luiz Filipe de Macedo Soares, com lideranças da entidade da ONU para discutir irregularidades ocorridas no escritório da Unesco em Brasília.

Um dos problemas a serem discutidos, mencionados no documento, seria a manipulação do dinheiro movimentado pela campanha Criança Esperança, que já teria levantado US$ 40 milhões (cerca de R$ 94,8 milhões) desde 1986. Segundo o texto, teriam sido repassados à Unesco 10% desse total, por conta de uma “taxa de serviço”. O documento não faz referência sobre o destino dos 90% do montante arrecadado, mas informa que um terço do orçamento dos fundos extraorçamentais da Unesco (cerca de US$ 124 milhões, ou R$ 291,4 milhões) tem origem do escritório de campo do Brasil . No site oficial da campanha, a Rede Globo informa que “todo o dinheiro arrecadado pela campanha é depositado diretamente na conta da Unesco”.
Leia mais notícias do R7

Material, de 2006, menciona o então embaixador do Brasil na França, que teria informado diretoria da Unesco sobre irregularidades no escritório brasileiro da entidade Reprodução/Wikileaks

Em uma nota divulgada no dia 8 de junho de 2011 para esclarecer rumores sobre possíveis benefícios fiscais que a emissora teria com a campanha, a Rede Globo informou que nenhuma doação do Criança Esperança passa pela emissora. De acordo com dados da própria emissora, já foram arrecadados mais de R$ 270 milhões até a última campanha.

Procurada pelo R7, a emissora carioca respondeu, em nota, que “desconhece os documentos citados [do WikiLeaks]”, e informa que a parceria com a Unesco, que não traz nenhuma cláusula referente a pagamento de “taxa de serviço”, teve início apenas em 2004.

Leia a nota da Rede Globo na íntegra:

"A Globo desconhece os documentos citados. Mas esclarece que não mantém parceria com a Unesco desde 1986, ano do lançamento do projeto Criança Esperança. A parceira com a Unesco começou apenas em 2004. Neste acordo, não existe qualquer cláusula prevendo pagamento de taxa de administração. Todos os custos referentes à gestão e administração do fundo Criança Esperança, a cargo da Unesco, são integralmente pagos pela TV Globo com recursos próprios. Há 28 anos o Criança Esperança contribui para a mobilização da sociedade brasileira para a garantia dos direitos de crianças e jovens e já beneficiou mais de 4 milhões de brasileiros." 

Fonte: http://noticias.r7.com
   

Economia do Brasil supera expectativas

Economia do Brasil supera expectativas e ultrapassa países ricos. Veja ranking

País apresentou terceiro maior crescimento entre primeiro e segundo trimestre deste ano

Lista traz 14 países entre desenvolvidos e emergentes Escritórios de Estatística dos países e Eurostat

O aumento da economia do Brasil no segundo trimestre deste ano superou as expectativas de analistas e colocou o País na frente de nações ricas como Estados Unidos, Alemanha e Japão

Divulgado na última sexta-feira (30), o avanço de 1,5% no PIB (Produto Interno Bruto) só foi menor que o da Indonésia (2,6%) e China (1,7%), o que colocou o Brasil em terceiro lugar numa lista de 14 países.

Entre as nações com desempenho inferior ao do Brasil estão potências como Coreia do Sul (1,1%), Reino Unido (0,6%) e França (0,5%). Na variação anual entre os primeiros trimestres de 2012 e 2103, por sua vez, o Brasil cai para a quinta posição.

No topo da tabela, China (7,5%) e Indonésia (5,8%) trocaram as posições e aparecem em primeiro e segundo lugar, respectivamente.

Contudo, o crescimento anual de 3,3% do Brasil o colocou na frente de países como Rússia, Japão (0,9%) e Alemanha (0,5%).

Recuperação da economia

O aumento de 1,5% nas riquezas do Brasil no segundo trimestre ante os três primeiros meses deste ano, informado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na última sexta-feira (30), foi acompanhado por uma desaceleração da inflação oficial e reação do real ante o dólar.

Esse movimento deve fortalecer a imagem do Brasil no exterior e atrair investidores estrangeiros, que podem trazer dólares ao País e, com isso,  baixar a cotação da moeda norte-americana.

O aumento da taxa básica de juros (Selic) para 9% ao ano, por sua vez, elevou os rendimentos das pessoas que têm dinheiro na poupança. Nesse panorama, analistas já estão mais otimistas em relação à economia do País.

Fonte: http://noticias.r7.com

Juros da dívida consomem tanto dinheiro público quanto a educação


Juntos, o governo federal, os Estados e os municípios gastam com juros de suas dívidas tanto dinheiro quanto o destinado à educação no país.

A evidente distorção de prioridades pode ser observada no infográfico abaixo, que relaciona as principais fontes de receita e as diferentes finalidades das despesas públicas.
Analisar escolhas _ou fatalidades_ como essa será um dos objetivos deste blog que estreia hoje, assim como os efeitos da tributação e do gasto dos governos no cotidiano das famílias e das empresas.

Tanto a educação, primazia orçamentária mais consensual no país, como os juros da dívida pública, muito mais um encargo do que uma opção, consomem cada um algo como 5% de toda a renda do país.

A educação vem elevando gradualmente sua parcela nos últimos anos; a conta financeira caiu no governo Dilma, mas está novamente em tendência de alta.
A alocação de recursos para o ensino público no país é compatível com a prática no resto do mundo; já o custo da dívida pública brasileira é anormalmente elevado.
Países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), na maioria ricos, gastam, em média, 5,6% do Produto Interno Bruto com educação e 2,6% com juros.
O peso excessivo da dívida encoraja, especialmente na esquerda do mundo político, propostas de interromper total ou parcialmente o pagamento de juros, o que liberaria mais recursos para áreas mais nobres.
Mesmo sem levar em conta as consequências econômicas de tal medida, é possível demonstrar que seu potencial de geração de verbas é menor do que parece.
Os governos brasileiros já gastam mais do que arrecadam _ou, em outras palavras, estão sempre fazendo novas dívidas. A parcela da receita de impostos destinada aos juros não chega a pagar metade da conta.
Um hipotético calote da dívida, portanto, acabaria por reduzir as possibilidades de expansão futura dos demais gastos, porque os credores deixariam de financiar o deficit das contas públicas.
A escolha menos radical das administrações de Lula e Dilma foi reduzir as taxas de juros para viabilizar o aumento dos gastos sociais e dos investimentos.
Mas a estratégia também chegou a um limite quando a consequente alta da inflação fez com que o Banco Central fosse obrigado a elevar novamente os juros.

Fonte: http://dinheiropublico.blogfolha.uol.com.br

Fortaleza dia de mobilização

Confusões e engarrafamentos marcam dia de mobilização

Escolas sem aula, comércio fechado, trânsito parado e muitas reivindicações nas ruas. As manifestações mexeram com o cotidiano da Capital

Motoristas e cobradores de ônibus fecharam os sete terminais da Capital. O trânsito ficou confuso e muitos fortalezenses não conseguiram chegar ao trabalho. No Siqueira, a fila ficou enorme

As manifestações que tomaram as ruas de diversas cidades brasileiras, ontem, transformaram Fortaleza. Já no começo da manhã, quando motoristas e cobradores de ônibus fecharam os sete terminais da Capital, o trânsito começou a ficar confuso e muitos foram os fortalezenses que não conseguiram chegar ao trabalho. Em todo o País, diversas categorias foram às ruas no Dia Nacional de Mobilização e Paralisação, convocado pelas centrais sindicais.

O protesto de motoristas e cobradores de ônibus, que deixou os terminais de ônibus fechados até por volta de 12h30min, resultou em 27 ônibus depredados. Conforme a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), todos estavam no entorno do Terminal do Siqueira - que foi palco de confronto entre manifestantes e a Polícia.

A falta de ônibus repercutiu no Metrô de Fortaleza, que transportou mais passageiros, ontem. Segundo a assessoria de imprensa do Metrofor, a Linha Sul (que está em teste) levou 11.225 pessoas das 8 horas ao meio-dia, enquanto, de 1º a 29 de agosto, foram, em média, 10.045 pessoas por dia.

De acordo com a Secretaria da Educação do Estado (Seduc), das 175 escolas da rede em Fortaleza, as atividades da manhã foram suspensas em 43. A pasta do Município não soube informar se a paralisação afetou as escolas.

Centro

No Centro, por onde seguiu protesto de trabalhadores, muitas lojas fecharam, durante a passagem dos manifestantes. Porém, segundo o secretário de Formação da Federação dos Trabalhadores, Empregados e Empregadas do Comércio e Serviço do Ceará, Marcos Pereira, 90% das lojas do Centro ficaram fechadas até as 13 horas, quando o ato - que seguiu da praça Clóvis Beviláqua para o Paço Municipal - chegou ao fim. Também no Centro, bancários chegaram a fechar uma agência do Banco do Brasil por duas horas, pela manhã.

Segundo a Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e de Cidadania (AMC), agentes precisaram orientar o trânsito no entorno dos terminais, onde ônibus ficaram estacionados - muitos com pneus secos. Houve controle de trânsito durante a manifestação no Centro. Na avenida Desembargador Moreira, onde aconteceu ato de professores, o trânsito no sentido Sertão no cruzamento com a Antônio Sales foi desviado por agentes da autarquia. Trinta agentes atuaram na operação. 

ENTENDA A NOTÍCIA

A manifestação pedia, entre outros pontos, a derrubada do projeto de lei 4.330, que trata da terceirização de trabalhadores no País, que deve “precarizar” as relações de trabalho. Por enquanto, não há mais protestos marcados.

Saiba mais

Algumas das categorias que participaram dos atos em Fortaleza:

Bancários;

Professores;

Motoristas e cobradores de ônibus;

Gráficos;

Operários da construção civil;

Servidores federais, estaduais e municipais;

Dentistas, enfermeiros e agentes de saúde;

Comerciários;

Metalúrgicos

FONTES: Centrais sindicais

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Confusão e quebradeira em paralisação nos terminais



Publicado em 30/08/2013 O dia Nacional de Lutas, uma mobilização que promoveu uma mobilização em todo o Brasil. Em Fortaleza, várias categorias decidiram realizar manifestações. O Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários no Estado do Ceará (Sintro-CE) realizou a paralisação em vários terminais. Houve confusão no Terminal do Siqueira. Na Parangaba uma pessoa teria sido baleada no terminal. O repórter Paulo Campelo acompanhou toda a movimentação: http://www.tribunadoceara.com.br/ Categoria Notícias e política Licença Licença padrão do YouTube

Bashar al-Assad

Bashar al-Assad: O que fazer com ele?

O uso de armas químicas tirou os EUA e os países ocidentais da inércia no conflito sírio. Eles agora querem agir contra o regime de Assad. A dúvida é como tirá-lo do poder – e o que acontecerá se ele cair




TIRANO Assad visita as tropas sírias que massacraram rebeldes em Daraa, um subúrbio da capital, Damasco (Foto: AFP)
A guerra na Síria chegou a um ponto sem volta. Depois de dois anos e meio de conflito, mais de 100 mil mortos e 1,9 milhão de refugiados, a gota de sangue que faltava para fazer a comunidade internacional agir caiu há duas semanas. Armas químicas usadas contra a população de um subúrbio da capital, Damasco, mataram mais de 1.429 pessoas, entre elas 426 crianças. As imagens de meninos e meninas agonizando por causa do contato com um gás neurotóxico e de corpos estendidos no chão de hospitais e escolas rodaram o mundo.

Há um ano, o presidente Barack Obamaalertara o ditador sírio, Bashar al-Assad: se ele usasse armas químicas na Síria, “cruzaria a linha vermelha”. “Há fortes evidências de que o regime de Assad usou armas químicas contra seu próprio povo”, afirmou nesta sexta-feira o secretário de Estado dos EUA,John Kerry. “Sabemos que ele usou seu arsenal várias vezes neste ano.” Assad e seus aliados acusam seus opositores de arquitetar a barbárie para justificar uma intervenção ocidental no país. Mas tudo indica que foi Assad mesmo quem cruzou a “linha vermelha” traçada por Obama. Há duas possíveis razões para o ataque. Há mais de um ano, os Estados Unidos e seus aliados europeus e do Golfo Pérsico treinam opositores sírios na Jordânia, suspeitos de fazer incursões em Damasco. Irritado, Assad decidiu frear as operações. A segunda hipótese inclui um erro estratégico das forças de Assad. Seus aliados são acusados de usar armas químicas em doses homeopáticas, em algumas cidades. Desta vez, um general, à revelia de Assad, é suspeito de ter usado uma carga maior de agentes químicos.

Este é mais um crime de guerra da longa lista de atrocidades perpetradas pelo regime sírio. A matança promovida por Assad é tamanha que ele herdou o apelido que consagrou seu pai, Hafez Assad: Carniceiro de Damasco. A família Assad controla a Síria há mais de 40 anos. Hafez tomou o poder com um golpe militar, em 1971. Bashar al-Assad herdou a Presidência do pai em 2000. Não estava na linha sucessória, mas assumiu porque seu irmão mais velho, Basil, morrera num acidente de carro em 1994. Assad tentou se distanciar do passado brutal do pai. Em 1982, Hafez mandara matar mais de 20 mil pessoas em represália contra uma revolta. Assad chegou ao poder com o lema do “velho versus o novo”. Cultivou a imagem de reformador e, assim, se legitimou perante os sírios e a comunidade internacional. Por um curto período, permitiu aos dissidentes criticar a corrupção abertamente. O apoio da população veio, em parte, por sua imagem jovial e moderna. Na prática, nenhuma reforma saiu do papel.

Assad perdeu parte do prestígio, mas não todo. “Ainda hoje, mesmo diante da carnificina, parte da população síria o apoia”, diz David Lesch, historiador da Universidade Trinity, no Texas. Ele conviveu com Assad por dois anos para escrever uma biografia sobre ele. Isso acontece porque, em 40 anos de poder, os Assads conduziram um regime autoritário, mas a Síria continuou laica, ao contrário de muitos países da região. Os sírios desfrutam uma liberdade social superior à de seus vizinhos. As mulheres podem usar cabelos soltos e a roupa que escolherem, homossexuais não são perseguidos, e a bebida alcoólica não é um problema na maioria das cidades. “Os sírios se orgulhavam disso, gostam das liberdades que têm e temem a formação de um Estado religioso”, afirma Lesch. “Por isso, muitos apoiam Assad.”

Com o aprofundamento do conflito, a divisão entre os diferentes grupos se agravou na Síria. O país tem problemas semelhantes ao de seus vizinhos Líbano e Iraque, que sofreram com guerras nos últimos 30 anos. Embora 90% dos sírios sejam árabes, há importantes minorias, como curdos e drusos. A divisão religiosa é grande. Dos 22,5 milhões de sírios, 74% são sunitas, 10% são cristãos e 12% são alauítas, um braço do islamismo, com laços tênues com o xiismo. Quando deu um golpe e conquistou o poder, Hafez firmou um pacto social para manter um regime laico, com base no arabismo nacionalista e não religioso. Ele montou uma coalizão que incluía o Partido Baath, composto de sunitas, as Forças Armadas, dominada por cristãos e alauítas, e as elites de Damasco e Aleppo, de maioria sunita. Quando assumiu o poder, Assad, alauíta e casado com uma sunita, manteve essa coalizão intacta.

Parte da população que apoia Assad teme que a Síria se torne uma versão século XXI do Iraque. A oposição síria é uma colcha de retalhos ideológica. Apesar de ser 90% sunita, com membros conservadores e religiosos, a Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias, o grupo que congrega os opositores de Assad, é composta de mais de 1.000 grupos armados, com várias facções inimigas entre si. Todos têm diferentes agendas e patrocinadores. Os ligados à Irmandade Muçulmana são apoiados pelo Qatar. Facções salafistas contam com o apoio da Arábia Saudita e de parte do Golfo Pérsico. Há também os jihadistas da Frente Nusrah (Jabhat al-Nusra), um braço da al-Qaeda na Síria.

Esse balaio reflete a confusa relação de poderes no Oriente Médio. Assad mantém uma firme aliança com a teocracia xiita do Irã, que não quer perder seu último aliado poderoso na região, depois da ascensão dos regimes sunitas no pós-Primavera Árabe. Os atuais governantes xiitas do Iraque e o movimento xiita libanês Hezbollah (Partido de Deus) também estão ao lado de Assad. Os rebeldes contam com apoio dos petrodólares do Qatar e da Arábia Saudita, monarquias sunitas rivais do Irã, que já forneceram valores estimados em mais de US$ 4 bilhões em armamentos à oposição. Há ainda os interesses de Israel. O governo Assad mantinha com Israel uma relação de ódio, mas era considerado um inimigo previsível pelos israelenses. Israel não teria motivos para desejar a queda do secular Assad, ainda mais diante do risco de ele ser substituído por islamistas. A guerra mudou isso. A possibilidade de enfraquecer o Hezbollah, com a queda de Assad, é vista como uma chance de ouro pelos israelenses.

Foi esse imbróglio que manteve a inação das potências ocidentais diante da catástrofe de mais de 100 mil mortos no conflito da Síria. Agora, o jogo mudou. Mesmo sem o aval do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), onde Rússia e China se opõem à intervenção militar, a Otan, a aliança ocidental, não quer deixar o ataque com armas químicas sem resposta. Numa votação às pressas, o Parlamento britânico vetou a participação do Reino Unido na ação, contrariando as expectativas do premiê David Cameron. Obama tem oapoio da França e parece disposto a atacar a Síria sozinho, mesmo sem um parecer dos inspetores da ONU que investigam o uso de armas químicas em Damasco.

Não há mesmo muitas opções para Obama. Uma delas é continuar a fazer o que o governo americano tem feito: nada. A administração Obama considera ruins os dois lados envolvidos na guerra, pois Assad é aliado do Irã, e os grupos da oposição são ligados à al-Qaeda. Cruzar os braços, porém, tem um custo humanitário e político. Assad pode se sentir livre para usar armas químicas com mais frequência. A segunda opção é uma intervenção militar nos moldes da feita na Líbia, em março de 2011, com a criação de uma zona de exclusão aérea e bombardeios em pontos-chave das forças do regime. A maioria da população americana é contra uma ação militar prolongada dos Estados Unidos, ainda mais diante do recente atoleiro da Guerra do Iraque.

A opção preferida de Obama, que estava prestes a ser levada a cabo, é um bombardeio punitivo. Nesse caso, as Forças Armadas americanas lançam mísseis Tomahawk contra instalações militares do regime sírio. Tal intervenção seria um recado para Assad não voltar a usar armas químicas. Seria também uma mensagem ao Irã, patrono da Síria e preocupação estratégica dos EUA devido a seu programa nuclear. Dar uma lição em Assad desse jeito pode até apaziguar os clamores por uma ação humanitária, mas tem eficácia duvidosa. “Ações táticas sem objetivos estratégicos são inúteis e contraproducentes”, afirma Chris Harmer, analista do Instituto para o Estudo da Guerra. Em julho, Harmer preparou um estudo mostrando que os EUA poderiam infligir amplos danos a importantes instalações militares sírias. Esse estudo foi usado pelo senador republicano John McCain para defender uma intervenção rápida na Síria. “Uma ação punitiva é a mais idiota de todas, porque não produzirá um efeito dissuasivo e fará com que Assad distribua seu arsenal químico entre as forças aliadas.”

A história mostra também que ataques como este raramente atingem objetivos políticos duradouros. Com frequência, produzem mais custos ou consequências colaterais não planejadas do que benefícios. Os últimos cinco presidentes americanos recorreram a ataques limitados desse tipo, com resultados inócuos. Há 30 anos, o presidente republicano Ronald Reagan determinou que fuzileiros navais americanos abrissem fogo contra uma milícia islâmica em Beirute. Semanas mais tarde, um ataque do grupo Jihad Islâmica a quartéis das forças militares americanas e francesas deixou 299 mortos. Em 1998, o presidente democrata Bill Clinton bombardeou o Iraque por quatro dias, na Operação Raposa do Deserto, porque o regime de Saddam Hussein se recusava a cooperar com os inspetores da ONU. Saddam aguentou mais cinco anos no poder – sempre dificultando o trabalho da ONU. “Sem um plano de longo prazo para a Síria, uma ação pontual será ineficaz”, afirma Ed Husain, analista do Council on Foreign Relations. “E, se Obama fizer uma operação limitada, será insuficiente para virar o jogo na guerra civil.”

Os americanos tiveram duras lições no Afeganistão e no Iraque. Nesses países, viram como é difícil sair de certos conflitos. Agora, no território minado da Síria, descobrem que também há guerras em que é difícil entrar. 
 
Os amigos e os inimigos de Assad (Foto: ÉPOCA)